Editorial

Sem coração

Uma concentração enorme de gente e veículos atraídos pela possibilidade de moradia naquela pequena cidade de pelo menos 1.000 veículos vai contribuir para a diminuição drástica da qualidade de vida da região
Viaduto sobre a Raposo vai ligar as ruas João Wagner Wey e Augusto Lippel. Foto: Fábio Rogério / Arquivo JCS

Na edição desta quinta-feira (7) o Jornal Cruzeiro do Sul publicou, com bastante ênfase, reportagem que mostra o completo descuido, se não o desprezo, pela qualidade de vida do cidadão de Sorocaba: a criação de duas novas ruas a partir da praça Nova York, no Jardim Paulistano.

A finalidade da abertura dessas ruas, sem ao menos consultar a população do entorno que será afetada pelo potencial intenso tráfego, é abrir caminho e procurar remendo para um dos maiores erros já feitos em urbanismo em Sorocaba. Mais que isso, não se pode ao menos chamar de urbanismo a tragédia (e não comédia) de erros que começou lá atrás na administração de Vitor Lippi quando aprovou, e depois foi ratificado por Antonio Carlos Pannunzio, na construção de prédios de apartamentos às margens da rodovia Raposo Tavares e que procurava acesso de entrada e saída na rua João Wagner Wey, até então uma via com moderado movimento com acesso à Raposo Tavares e que corta uma região de vocação residencial, com algum comércio de serviços ao longo da própria rua.

Entre idas e vindas jurídicas, e por razões que a própria desconhece, determinou-se que se construiria um viaduto para dar acesso ao outro lado da rodovia por conta do empreendedor imobiliário, como forma de compensação. Uma compensação em forma de viaduto que vai permitir mãos simples de tráfego e que acaba dando ganhos a quem investiu ou pode investir do outro lado da estrada.

A melhor compensação seria que o acesso dos 704 apartamentos das 22 torres de cimento e tijolos, com moradores que vão sair aos bandos com seus veículos no mesmo horário de manhã e, ainda, ter intensa atividade durante o dia, saíssem diretamente para a Raposo Tavares e não para um bairro totalmente residencial, no máximo com um corredor ou permite a construção de prédios baixos, de três andares. A própria concessão de alvará desses prédios é algo que causa espécie, para citar um velho personagem político.

Uma concentração enorme de gente e veículos atraídos pela possibilidade de moradia naquela pequena cidade de pelo menos 1.000 veículos vai contribuir para a diminuição drástica da qualidade de vida da região. Áreas antes estritamente residenciais já foram afetadas pelo trânsito intenso que não existia. Quem procurou sossego e tranquilidade na região e pagou por isso teve seu ideal, além de investimento, diminuído pela forma desastrada como esse assunto está sendo tratado. Cachorros de estimação já foram atropelados e mortos pela insensibilidade de tecnocratas de promessas vãs.

O alcance da área de influência dessa desordem vai longe, alcança mais de um quilômetro em linha reta e é muito maior em área quadrada. Atinge toda uma região formada há décadas, de urbanismo solidificado.

Só existe uma possível, lógica explicação para tal destruição: a visão opaca de técnicos míopes que conseguem ver apenas um borrão, uma única solução, a de abrir passagens, abrir caminhos e ruas sem se importar com o cidadão. A qualquer custo. Isso é falta de amor pela cidade. Falta de amor pelo cidadão que trabalha e paga os salários de homens públicos que tomam decisões frias e sem pensar nas consequências como essa.

Quando o Poder Executivo, através de seus secretários mais insensíveis e sem a obrigatória visão de uma cidade humana, de qualidade, inteligente, que tem cuidado com o cidadão compactua com uma decisão dessas, é de imaginar a quem serve.

Certamente, não ao cidadão. Certamente, ainda acredita que o Leviatã tudo pode. A democracia e, ainda menos, o amor pela cidade, não fazem parte do plano de governo. Um governo sem coração.

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