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Produção de sabão artesanal cria oportunidade de educação ambiental

25 de Agosto de 2020 às 15:44

Você já deve ter ouvido dizer que um único litro de óleo, quando descartado diretamente na pia ou no ralo, pode contaminar até um milhão de litros d’água. De fato, é por isso que o óleo residual de cozinha — aquele que sobra após a fritura de alimentos — jamais deve ser descartado no ambiente, pois esse é um resíduo com alto potencial de danos aos ecossistemas: se descartado na água, ele pode causar alterações na alcalinidade, a diminuição na concentração de oxigênio e a liberação de gás metano na atmosfera, como resultado da decomposição por microrganismos; já no solo, o óleo aumenta a impermeabilidade e diminui a capacidade de drenagem, causando erosão e matando a vegetação local. O que fazer com ele, então?

De Paramirim, na Bahia, para Sorocaba: o doutorando Venâncio Alves Amaral, no Laboratório de Biomaterias e Nanotecnologia da Uniso (LaBNUS), no Parque Tecnológico de Sorocaba. Foto: Paulo Ribeiro

Ainda hoje, o óleo de cozinha é um dos resíduos cujo descarte costuma gerar muitas dúvidas, especialmente nas comunidades que não contam com serviços adequados de coleta. Por vezes, nessas localidades, o material é descartado nas pias, sobrecarregando as estações de tratamento de esgoto e causando danos às tubulações. Já em comunidades carentes ou afastadas dos grandes centros, onde nem sempre existe saneamento básico, o descarte costuma ocorrer diretamente no solo ou em corpos d’água, como rios e lagos, acarretando em sérios impactos ambientais.

É esse o caso de Paramirim, um pequeno município de pouco mais de 20 mil habitantes no interior da Bahia, localizado no meio do Polígono das Secas — uma área geograficamente suscetível a longos períodos de estiagem na região Nordeste do Brasil. Ainda hoje, o município conta com um serviço público de saneamento básico bastante precário ou inexistente. Foi essa a localidade que Venâncio Alves Amaral chamou de lar até 2011, quando se mudou para Sorocaba para cursar Biotecnologia na Universidade de Sorocaba (Uniso). Porém, a exemplo do que acontece em outras localidades brasileiras, as pessoas de Paramirim encontraram outro destino para o óleo usado, em vez de simplesmente jogá-lo fora inadequadamente.

“Eu observei, na minha cidade, que existe um contexto social de mulheres — senhoras, em sua maioria — que fabricam sabão artesanal a partir do óleo residual de cozinha, o que configura um método de descarte mais adequado do que jogá-lo em mananciais hídricos, por exemplo”, conta Amaral, que hoje é doutorando no Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas da Uniso.

Em comunidades carentes, essa é uma atividade bastante comum, que costuma cumprir uma função econômica, uma vez que o sabão resultante é comercializado, funcionando como complemento de renda para as famílias. Mas Amaral viu na prática algo além: uma oportunidade para a educação ambiental. Essa observação e a pesquisa subsequente deram origem a um artigo interdisciplinar publicado na Revista Brasileira de Educação Ambiental, assinado por Amaral e pelos professores doutores Marcos Antonio dos Santos Reigota e Marco Vinícius Chaud.

Diálogo com a comunidade

“O artigo foi uma forma de estabelecer um diálogo mais direto com a população do município de onde eu venho”, diz Amaral. Por meio de imersão etnográfica, durante dois meses, ele acompanhou a prática de fabricação do sabão artesanal em Paramirim. O que ele observou é que não existe um método padrão para se fazer sabão, o que significa que a receita muda constantemente, dependendo de quem o esteja produzindo. Esse é um fato que implica em riscos tanto para as pessoas quanto para o meio ambiente.

“Essa diversidade de proporções e matérias-primas utilizadas pode causar problemas, como o excesso ou a falta de algum componente na mistura do sabão, o que leva à acidificação ou à alcalinização e compromete, dessa forma, o produto final. Nesse sentido, fez-se necessária uma análise laboratorial, para a verificação da qualidade do produto, de modo a esclarecer os fabricantes sobre as boas práticas de fabricação e sensibilizá-los para questões de segurança, pois a soda cáustica — que é um ingrediente essencial nas receitas de sabão caseiro — é uma substância que pode causar intoxicação, irritação e até queimaduras na pele”, destacam os autores.

Amostras de sabão artesanal da cidade de Paramirim, no interior da Bahia. Foto: Paulo Ribeiro

Nos testes laboratoriais, conduzidos no Laboratório de Biomateriais e Nanotecnologia da Uniso (LaBNUS), com três amostras de sabão recolhidas em Paramirim, Amaral verificou que duas delas se encontravam adequadas para a limpeza doméstica, o que confirma a viabilidade da produção de sabão para o reaproveitamento do óleo residual de cozinha. No entanto, há alguns pontos de atenção: duas das amostras apresentaram separação de fases, evidenciando uma homogeneização ineficiente; duas delas também apresentaram teor de umidade acima da norma, o que implica em redução no tempo de conservação do produto final. Mas o que de fato pode ser preocupante é o resultado do teste de consistência.

“A análise da consistência é particularmente importante. As pessoas costumam preferir as amostras de sabão que se mostram mais consistentes e essa é uma característica que está relacionada à quantidade de hidróxido de sódio (soda cáustica) na receita. O que acontece, porém, é que nem todo o hidróxido de sódio reage com o óleo, o que resulta num sabão altamente alcalino, que irritará a pele humana e causará danos ambientais”, explica Amaral.

O pesquisador defende, então, a necessidade de educar a população a respeito de receitas balanceadas, para não causar riscos nem às pessoas e nem à natureza. Além disso, ele percebeu que essa é uma oportunidade para a proposição de uma prática pedagógica, fazendo uso da fabricação do sabão como uma forma de relacionar conhecimentos (como os de química e matemática) a uma atividade comum na comunidade. Isso torna a aprendizagem mais significativa — ou seja, as pessoas conseguem entender para que servem os conceitos e como eles podem ser aplicados em suas vidas —, além de melhorar uma atividade de geração de renda que a comunidade já realiza. A partir dessa proposição, pode-se começar a pensar em programas específicos a serem desenvolvidos no cotidiano escolar dessas comunidades.

Hands on e empreendedorismo social

Amaral conta que a ideia para o artigo foi aperfeiçoada no Hands On, o programa de empreendedorismo social da Uniso, que tem como objetivo incubar ideias inovadoras para solucionar os 17 Desafios do Milênio da Organização das Nações Unidas (ONU). O seu projeto, discutido junto a uma equipe interdisciplinar de estudantes e professores, propôs uma forma de trabalhar três dos 17 objetivos em conjunto: educação de qualidade e vidas terrestre e aquática.

Uma das apresentações do Hands On, o programa de empreendedorismo social da Uniso, em abril de 2019, a mesma edição em que foi apresentado o projeto de Amaral. Foto: Assecoms/Uniso

Segundo o autor, o programa proporcionou encontros e diálogos com pessoas das mais diversas áreas do conhecimento, o que gerou novas discussões e diferentes perspectivas sobre o tema. “Especialmente quando tratamos da aproximação entre o saber popular e o conhecimento científico, como é o caso desse trabalho, diálogos interdisciplinares são uma tendência”, conclui Amaral.

Com base no artigo “Alternativas políticas e pedagógicas da produção de sabão artesanal: um diálogo com a educação ambiental”, de autoria de Venâncio Alves Amaral, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas da Uniso, e dos professores doutores Marcos Antonio dos Santos Reigota, do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uniso, e Marco Vinícius Chaud, dos Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas e Processos Tecnológicos e Ambientais da Uniso. O artigo foi publicado na Revista Brasileira de Educação Ambiental, em 13 de setembro de 2019. Acesse a pesquisa: https://periodicos.unifesp.br/index.php/revbea/article/view/9365

Texto: Guilherme Profeta