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Pedagoga estuda dificuldades de surdos para compreender informações exibidas pelo sistema Closed Caption

Mais do que constatar as dificuldades, a pesquisa aponta sugestões de adaptação do atual modelo de legenda oculta para facilitar a compreensão dos surdos.

Eu ir sua casa hoje não. Ocupada. Eu ir filha minha médico. Ela bem, não. Espirra, espirra. Garganta ruim, cabeça dor, dormir, dormir. Desculpar ok?

Você conseguiu entender o parágrafo acima? Provavelmente, você teve de ler duas ou três vezes com bastante calma para compreender a mensagem. Agora, imagine ler este parágrafo uma única vez, bem rápido, em meio a um texto enorme, todo escrito desta forma. É mais ou menos assim que uma pessoa surda compreende um telejornal legendado pelo Closed Caption, um sistema criado, justamente, para permitir que deficientes auditivos possam acompanhar os programas.

A tradutora e intérprete de Libras (Língua Brasileira de Sinais), Francimar Mangabeira Martins Maciel. Foto: Paulo Ribeiro / Arquivo-Uniso

Tradutora e intérprete de Libras (Língua Brasileira de Sinais), a pedagoga Francimar Mangabeira Martins Maciel pesquisou as dificuldades encontradas pelos surdos para compreender as informações transmitida em jornal televisivo pelo sistema Closed Caption. O trabalho foi resultado da sua dissertação no mestrado em Comunicação e Cultura da Universidade de Sorocaba (Uniso), concluído em 2018, sob orientação do professor doutor Paulo Celso da Silva. Mais do que constatar as dificuldades, a pesquisa de Maciel aponta sugestões de adaptação do atual modelo de legenda oculta para facilitar a compreensão dos surdos.

O Português e a Libras

O trabalho da pesquisadora deixa claro que a legenda é uma grande aliada para a acessibilidade de pessoas com deficiência auditiva, isto é, com déficit de audição. Mas para quem é completamente surdo e tem a Libras como sua primeira língua, a história é outra.

Segundo Maciel, os surdos são pessoas com cultura e língua próprias, que precisam ser levadas em consideração pelo sistema Closed Caption. “É possível que para os surdos implantados e deficientes auditivos, que dominem a língua portuguesa, as legendas televisivas façam sentido. Mas isso não ocorre com os surdos. Eles têm grande dificuldade para ler e entender o idioma oral. E o Closed Caption apresenta de forma escrita exatamente o que está sendo falado”, explica.

A percepção sensorial do surdo é essencialmente visual, tendo acesso restrito, ou nenhum acesso, à modalidade oral do Português. A pesquisadora explica que, embora a Língua Brasileira de Sinais (idioma reconhecido oficialmente no país desde 2002) possa parecer uma sequência de gestos utilizados de forma a acompanhar a estrutura da fala ou escrita da língua portuguesa, a Libras é estruturalmente complexa e distinta do Português.

Para explicar ao público leigo essas diferenças, Maciel apresenta em sua pesquisa algumas sentenças que mostram como uma pessoa surda teria dificuldade de entender o sentido. Um exemplo é a frase: “O ontem já passou, mas o amanhã pode não chegar”. Nela, há um problema triplo de compreensão para os surdos: “passou”, “amanhã” e “chegar”.

“A Libras dispõe do significado de cada uma destas palavras, mas elas não teriam sentido para esta frase. ‘Passar’ refere-se a sentidos que não estão ligados a ‘ontem’, como por exemplo: passar roupa; a pessoa passou correndo; ele passou de ano… Para cada uma destas frases o sinal para a mesma palavra ‘passar’ é diferente, por causa do contexto. Para a palavra ‘amanhã’, o sinal se refere a algo literal, ou seja, amanhã é quinta-feira. No caso desta frase, o sentido é de ‘futuro’ e deveria ser utilizada a palavra ‘futuro’. No caso de ‘chegar’, pode-se dizer que uma pessoa chegou ou que o carro chegou, mas não poderia haver concordância para dizer que ‘o amanhã pode não chegar’”, ensina a pesquisadora.

Além do problema do sentido das palavras, há também a questão da estrutura da frase, ou seja, da localização dos termos na sentença, que na Libras pode ser diferente do Português. “Por exemplo: ao dizer ‘Ângela chegou atrasada’, o surdo possivelmente utilizará: ‘Ângela atrasada chegar’. A língua de sinais possui estrutura própria e distinta da língua portuguesa. Podemos nos reportar à língua inglesa, em relação ao Português: a ordem pode diferenciar-se, e quase sempre o faz. Enquanto a língua portuguesa é estruturada no sujeito-predicado, a Libras é uma língua de estrutura tópico-comentário”, detalha Maciel, que destaca: “as distâncias existentes entre o Português e a Libras podem causar distorções na notícia do telejornal e anular as boas intenções do Closed Caption”.

Pesquisa em campo

Além de toda pesquisa bibliográfica e do uso da experiência de Maciel como tradutora e intérprete de Libras, seu trabalho de mestrado ainda aplicou uma abordagem empírica, com a realização de duas reuniões com vinte pessoas surdas para analisar as legendas ocultas do jornal televisivo. As entrevistas são reveladoras. Um dos surdos entrevistados explicou: “Sempre assisto ao jornal, mas não é possível entender tudo. Às vezes, trechos inteiros ficam sem entendimento”.

Os entrevistados destacaram, ainda, que consideram a língua portuguesa um idioma difícil, muitas vezes incompreensível para os surdos, e que as legendas do telejornal apresentam outras barreiras, como a rapidez em que o texto aparece na tela e a falta de sincronia com a imagem que é transmitida.

“O Closed Caption, hoje, é uma cópia fiel da narração e constitui-se numa barreira para o entendimento dos surdos”, afirma a pesquisadora. Para melhorar o sistema de legenda oculta, Maciel defende uma “mudança na concepção de modelo do conteúdo” do Closed Caption para que, entre outros pontos, o texto se torne mais próximo da Libras. “Atualmente, fala-se muito em acessibilidade e em inclusão. Minha pesquisa procurou explorar a inclusão pela comunicação, considerando inclusive que a problemática apresentada, relativa à legenda oculta, possa se resumir a um problema de tradução”, conclui.

Texto elaborado com base na dissertação “A Legenda Oculta no Jornal Televisivo e a Comunicação dos Surdos”, do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da Uniso, com orientação do professor doutor Paulo Celso da Silva e aprovada em 28 de fevereiro de 2018. A dissertação pode ser encontrada e baixada no site: https://cutt.ly/szMTF9y

Texto: Marcel Stefano

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