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Nasce um novo dia para o cururu paulista

A pesquisa motivou a criação do Dia do Cururu em Sorocaba, que passou a ser comemorado em 19 de julho

E, mais uma vez, a poeira sobe conforme passam os carros — tomando o lugar das carroças — por uma estrada qualquer, não muito diferente daquela de Ouro Fino. Nos sítios e nas fazendas há sempre porteiras, mas já nem sempre um menino. Ao sinal do berrante, passa a boiada. O gado some à distância, mas o que fica é a memória: um recorte do dia a dia do homem do campo, eternizado por uma canção um tanto conhecida no interior de São Paulo, mas cuja verdadeira origem talvez muita gente desconheça. “O Menino da Porteira”, clássico da música sertaneja da década de 50, nasceu num formato semelhante a um cururu.

Composto de versos improvisados trocados entre dois participantes e acompanhados pela viola caipira de 10 cordas, o chamado Desafio de Cururu é uma apresentação que acontece em palcos e bares, geralmente nas áreas rurais (ou mesmo nos centros urbanos) da região do Médio Tietê. É uma prática relacionada à Festa do Divino da Igreja Católica — celebração que acontece 50 dias após a Páscoa, relembrando a ocasião em que, segundo a Bíblia Cristã, os apóstolos de Cristo teriam recebido o Espírito Santo —, contexto em que o cururu era utilizado para fins de evangelização, transmitindo conteúdo bíblico por meio da oralidade.

Hoje em dia, o cururu é uma manifestação cultural marginalizada, que está fora das mídias tradicionais, não tem perspectiva de renovação de seus praticantes (muitos em idade já avançada) e não conta com incentivos públicos. Essa é uma questão que torna ainda mais emergente a pesquisa realizada pelo atual coordenador do Laboratório de Comunicação da Universidade de Sorocaba (Uniso), Luiz Carlos Rodrigues, defendida em seu mestrado no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da Universidade. Por meio do estudo, Rodrigues procurou entender como se dá a continuidade dessa manifestação cultural típica da região e como ela se insere (ou não) na grande mídia.

Para conduzir seu estudo, Rodrigues aplicou uma metodologia participativa conhecida como sistematização das experiências vividas, de Oscar Jara Holliday, por meio da qual entrecruzou as informações colhidas diretamente dos praticantes do cururu às suas referências teóricas, unindo dois tipos distintos de conhecimentos: os tradicionais e os acadêmicos. “Para Holliday, a pesquisa prática e a teórica se misturam para modificar a teoria. E a prática modifica, também, a própria metodologia”, resume o pesquisador.

Durante o estudo, o autor visitou eventos no Clube Barcelona, em Sorocaba, onde acontecia mensalmente o tradicional Desafio do Cururu. Lá, realizou um levantamento do “perfil cururueiro” de Sorocaba, por meio de uma enquete preenchida a partir de entrevistas com os presentes.

O autor confirmou algo que ele já esperava quanto ao perfil dos entrevistados: tanto os cantores quanto o público, principalmente homens, têm idades variando entre 50 e 80 anos, o que é algo preocupante para o destino da tradição, já que, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2016, a média de vida do brasileiro é de 75,5 anos. Considerando-se o perfil etário dos participantes e incentivadores, bem como a falta de renovação desse público, pode-se inferir que a tradição cururu está morrendo.

Pesquisa como resistência

Rodrigues defende a importância de se registrar uma manifestação cultural que é baseada principalmente na oralidade, destacando as diversas dificuldades que se impõem para a continuidade da prática, como a falta de espaços físicos para condução das atividades e a omissão do poder público quanto ao incentivo à tradição.

Ao apontar essas lacunas, a pesquisa motivou o diálogo com a Câmara Municipal de Sorocaba, que levou posteriormente à criação de um projeto de lei que, em janeiro de 2018, instituiu o dia o Dia do Cururu, celebrado em 19 de julho. “Isso não significa apoio eminente do poder público, por não ser uma política pública, mas sim uma ação de cada

governo. Ainda assim, a lei valida o investimento e representa um exemplo de pesquisa acadêmica que saiu dos limites da universidade, atravessando os muros e atingindo a população verdadeiramente!”, celebra Rodrigues.

Como parte do Calendário Oficial de Eventos do Município de Sorocaba, a data potencializa a organização de apresentações públicas e exposições, contribuindo direta e efetivamente para a manutenção da prática como registro da identidade regional. Além disso, não demorou para que outros municípios da Região, motivados pela oficialização em Sorocaba, seguissem pelo mesmo caminho, com seus próprios projetos de lei. Em Porto Feliz, Tatuí e Boituva, por exemplo, o Dia do Desafio de Cururu também passou a constar nos calendários oficiais.

Para saber mais: Ritmo macho? Infelizmente, sim, senhor…

Durante a pesquisa, a diferença percebida entre os gêneros dentro do cururu chamou a atenção de Rodrigues, o que acabou ampliando o foco previamente definido para o estudo. “Sentimos a falta de mulheres, fosse cantando ou mesmo sendo mencionadas nas músicas”, conta o pesquisador. Nesse ambiente, a maioria do público era masculina (62,5% dos 72 entrevistados), uma constatação que abriu espaço para a hipótese de que a tradição patriarcal da sociedade teve influência histórica sobre o cururu, apagando a figura feminina. Rodrigues conta que, por muito tempo, no contexto religioso, esse foi um “dom” negado às mulheres. Isso não significa, contudo, que não haja exceções à regra, como é o caso de Ana Sueli Gardiano, 70, mais conhecida como Nhá Bentinha. Contudo, ela já deixou de participar dos duelos, justamente por ter sofrido agressões verbais por parte de membros masculinos da comunidade durante suas apresentações.

Com base na dissertação “Folkcomunicação e o Desafio do Cururu do Médio Tietê”, do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da Uniso, com orientação do professor doutor Paulo Celso da Silva e aprovada em 13 de março de 2019. Acesse: http://comunicacaoecultura.uniso.br/producao-discente/2019/pdf/luiz-rodrigues.pdf

Texto: Caroline A. Manfre, Eduardo R. Lira, Gabriela S. Sena, Matheus S. Sakaguchi, Mattheus N. da Costa Ferreira da Silva e Vivian G. Piloto, da Agência Experimental de Jornalismo da Uniso

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