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Mais do que apenas palmito: fruto da jussara é alimento funcional

A maioria das pessoas só se interessa pelo palmito, que é o caule da palmeira, e, às vezes, também pelo óleo, pela cera e pelas fibras
Em sua pesquisa, Laura Isabella Lopes Favaro usou os frutos de uma espécie nativa da Mata Atlântica. Foto: Paulo Ribeiro

Espécie nativa da Mata Atlântica, a palmeira jussara (Euterpe edulis) — cujo nome também ocorre grafado com ç: juçara, — é mais conhecida pelo seu palmito do que pelos seus frutos. O ingrediente é presença constante na salada dos brasileiros, já que o palmito jussara é considerado, dentre os outros tipos de palmito, o de melhor qualidade culinária. O grande problema é que essa variedade pode levar mais de dez anos para chegar ao ponto adequado para extração e, uma vez extraído o palmito, toda a palmeira morre. A isso, somam-se os altos índices de extração predatória e, então, começa a ficar claro o porquê de a palmeira jussara estar correndo risco de extinção.

“Da jussara, a maioria das pessoas só se interessa pelo palmito, que é o caule da palmeira, e, às vezes, também pelo óleo, pela cera e pelas fibras. Pouca gente dá atenção para os seus frutos, que apresentam grande potencial nutricional em função dos altos níveis de proteína, lipídios, ácidos graxos, potássio, cálcio, ferro e manganês, além de compostos bioativos como as antocianinas”, explica Laura Isabella Lopes Favaro, que estudou em sua pesquisa de mestrado, no Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas da Uniso, como os frutos da jussara podem ser aproveitados como alimentos funcionais.

“As antocianinas presentes no extrato dos frutos da jussara são inodoras e quase insípidas, proporcionando uma sensação moderadamente adstringente ao paladar. Os seus efeitos benéficos para a saúde foram documentados em muitos estudos, sendo a sua elevada capacidade antioxidante a chave da prevenção de doenças cardiovasculares, de desordens neurológicas, do câncer e da diabetes, além de ajudar a diminuir o colesterol ruim e aumentar o bom”, enumera a pesquisadora.

A crescente preocupação da população em relação a uma alimentação mais saudável, registrada em diversas pesquisas e relatórios anuais, é uma questão importante a ser considerada, mas Favaro conta que a busca pela utilização dos frutos da jussara, normalmente negligenciados, vai além disso. Desde as suas pesquisas como estudante de graduação, ela vem buscando trabalhar em prol da sustentabilidade. “Deve-se haver uma preocupação com a extração ilegal e com a extinção da espécie”, ela defende. Nesse contexto, usar todas as partes possíveis das palmeiras — sempre extraídas de fazendas legalizadas — é também uma questão de eficiência produtiva.

Mas o que fazer, então, com os frutos (que são semelhantes ao açaí amazônico)? Favaro propôs sua incorporação em barras de cereais, cuja receita, além dos frutos da jussara, também compreendeu aveia, arroz, abacaxi e coco.

“Estudos toxicológicos comprovaram que os frutos da jussara não apresentam efeitos adversos para a saúde humana e, dessa forma, seus derivados podem ser empregados como ingredientes na criação de alimentos, medicamentos e cosméticos. Além disso, os frutos têm alta capacidade antioxidante. Para comprovar esses efeitos, realizamos uma série de análises para caracterizar o extrato dos frutos, tais como testes de determinação do teor de antocianinas e da atividade antioxidante, e também de quantificação dos açúcares e de avaliação da atividade antimicrobiana”, diz Favaro.

Na época dos testes, em maio de 2017, 53 voluntários participaram da etapa sensorial, degustando três variações da receita original, com diferentes concentrações de extrato. Eles as avaliaram, então, com base em critérios como aspecto global, textura e intenção de compra. A partir desses testes, a variação da barrinha de cereais com 1% de extrato antocianínico foi considerada a mais adequada para comercialização.

Segundo a pesquisadora, alguns estudos indicam que, para atingir resultados verificáveis em relação à saúde humana, faz-se necessário o consumo de cerca de 320mg de antocianinas por dia, o que corresponderia a três unidades da barrinha concebida por Favaro. Para a confirmação desses dados, ainda são necessários ensaios pré-clínicos.

 

Laura Favaro, acompanhada da orientadora do estudo, a professora doutora Marta Maria Duarte Carvalho Vila. Foto: Arquivo pessoal

Essa é uma das pesquisas da Uniso que, atualmente, conta com um depósito de patente, que tem como objetivo a proteção do potencial de exploração econômica do produto. “A Universidade, por ter propiciado condições técnicas e financeiras para o desenvolvimento das barrinhas, teria a gerência sobre uma possível comercialização no futuro, em parceria com os autores da pesquisa”, conclui a professora doutora Marta Maria Duarte Carvalho Vila, orientadora do estudo. O processo está em tramitação.

Para saber mais: continuidade da pesquisa

Vale ressaltar que a formulação da barra de cereais foi desenvolvida pela professora do curso de graduação em Nutrição da Uniso Marcia Sabadin Mendes de Morais, em sua pesquisa de Mestrado. A associação de um produto com alto teor de fibras ao extrato do fruto da jussara, rico em antocianinas, agregou mais qualidades nutritivas ao produto final.

Com base na dissertação “Caracterização de extrato antocianínico obtido a partir dos frutos da jussara (Euterpe edulis Martius) e incorporação em barras de cereais”, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas da Universidade de Sorocaba (Uniso), com orientação da professora doutora Marta Maria Duarte Carvalho Vila e coorientação do professor Doutor Victor Manuel Balcão e aprovada em 13 de dezembro de 2017. A veiculação pública da dissertação se dará somente após o fim do processo de depósito de patente.

Texto: Guilherme Profeta

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