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Da cozinha para o seu carro: cúrcuma utilizada como aditivo de biodiesel

Gustavo Alexandre dos Santos, no Laboratório de Análise Química da Uniso – Paulo Ribeiro/Uniso

Muitos países vêm adotando políticas voltadas à diminuição das emissões de gases poluentes. No Brasil, a adição de biodiesel ao diesel tradicional é uma dessas medidas — em 2017, a porcentagem obrigatória era 8%, segundo resolução do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), e deve subir em breve para 9%. Essa mudança gradativa se dá porque o biodiesel é uma alternativa mais amigável ao meio ambiente, tanto pela emissão de gases quanto por sua biodegrabilidade.

Segundo um estudo encomendado pela Associação dos Produtores de Biodiesel do Brasil (Aprobio) à Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), graças a esse ligeiro aumento no uso de biodieseis, foi evitada entre 2008 e 2011 a emissão de nada menos do que 11 milhões de toneladas de CO2 (gás carbônico). Ainda segundo a Associação, quando se considera toda a cadeia produtiva, a redução pode passar de 70%. Hoje, o Brasil é um dos maiores produtores e consumidores de biodiesel em todo o mundo, mas existem ainda questões que devem ser observadas no armazenamento desse tipo de combustível.

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“Apesar de ser um bom substituto para o diesel de petróleo, o biodiesel é instável quando exposto à umidade e ao ar atmosférico. Ele é suscetível à absorção de água, podendo se tornar, depois de longos períodos, um ambiente favorável à proliferação de microrganismos e à oxidação — nome que se dá à degradação causada pela exposição ao oxigênio. Consequentemente, pode haver uma diminuição de sua qualidade”, explica Gustavo Alexandre dos Santos, mestre em Processos Tecnológicos e Ambientais pela Universidade de Sorocaba (Uniso).

Para controlar a qualidade durante a estocagem, emprega-se o uso de aditivos químicos ao biodiesel. Foi isso que Santos estudou em seu mestrado, buscando alternativas naturais. Das opções testadas, a que apresentou os melhores resultados foi uma velha conhecida dos cozinheiros: a cúrcuma, uma planta da mesma família do gengibre usada pela humanidade há mais de seis milênios para a pigmentação de alimentos e o tratamento de doenças. Durante o processo de pesquisa, a curcumina — que é extraída da cúrcuma — foi aplicada como aditivo em diversos tipos de biodiesel. Foram então testados, com resultados bastante positivos, os níveis de prevenção à oxidação e à contaminação por Paecilomyces variotii, um fungo muito comum no meio ambiente.

“A curcumina foi selecionada para trabalhos de pesquisa posteriores devido à sua facilidade de aquisição e à sua atividade fungistática”, destaca Santos. Adicionalmente, ela foi capaz de aumentar de forma substancial o tempo que os biodieseis levaram para começar a se degradar após a exposição ao oxigê- nio. Por tudo isso, pode-se concluir que a curcumina é um aditivo natural, promissor para uso em baixas concentrações, que permite que os biodieseis mantenham a qualidade durante períodos prolongados de armazenamento. Dada a importância do biodiesel para o mercado brasileiro, é muito positivo que tenhamos novas propostas para a melhoria de sua qualidade e de sua conservação.”

Texto produzido com base na dissertação “Avaliação das atividades antioxidante e antimicrobiana da curcumina e do pirocatecol na manutenção da qualidade do biodiesel”, do Programa de Pós-Graduação em Processos Tecnológicos e Ambientais da Uniso, com orientação do professor doutor Victor Manuel Cardoso Figueiredo Balcão e co-orientação da professora doutora Marta Maria Duarte Carvalho Vila, aprovada em 15 de dezembro de 2015. Com dados adicionais da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE), publicados pela Associação dos Produtores de Biodiesel do Brasil (Aprobio).

Acesse a pesquisa.

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