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Editorial

Telefone congestionado

A inflação é um imposto muito perverso que afeta os brasileiros e gera desigualdade

17 de Junho de 2023 às 23:01
Cruzeiro do Sul [email protected]
Situação complicada da economia
Situação complicada da economia (Crédito: José Cruz/Agência Brasil)

Vira e mexe e a culpa pelos fracos resultados da economia brasileira recaem sobre a famigerada taxa de juros do Banco Central. Aumentam os gastos do governo, cresce a dívida pública e a culpa é do BC. Bancos e comércios exageram na taxa dos crediários e financiamentos, as vendas e negócios caem e lá vem reclamação contra o Comitê de Política Econômica. Os pátios das fábricas de automóveis ficam lotados, de modelos cada vez mais caros ao bolso do brasileiro médio, e tome reclamação contra a independência e teimosia do Banco Central, que insiste em manter a Selic em 13,75%.

Esta semana que passou, em dois eventos de empresários, o presidente do BC, Roberto Campos Neto, foi confrontado. Num deles, na segunda-feira (12), a presidente do Conselho de Administração da Magazine Luiza, Luiza Trajano, cobrou diretamente o presidente do Banco Central para que promova a redução na taxa básica de juros. Ela chegou a dizer, em público, que já ligou mais de 20 vezes para Campos Neto. O desespero dela é compreensível, depois de vários investimentos no mínimo temerários, as ações da sua empresa despencaram na Bolsa de Valores e hoje atraem pouquíssimo interesse dos investidores.

A fala de Trajano repercutiu no setor automotivo e o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Márcio Lima Leite, chegou a dizer, na quarta-feira (14), em tom de brincadeira, que também pediria o número de telefone de Campos Neto para também ligar.

Com paciência de Jó, Campos Neto segue explicando que o trabalho do BC é bastante técnico e que existe uma preocupação muito grande com a inflação. Segundo ele, a inflação “é um imposto muito perverso que afeta os brasileiros e gera desigualdade”.

O rumo da taxa de juros não é problema só do Brasil. As economias do mundo todo tentam acertar o caminho para debelar a inflação, sem afetar o crescimento, num planeta ainda desarranjado pelos efeitos da pandemia da Covid 19 e pela invasão russa na Ucrânia. Cada banco central investe numa determinada teoria. Vários movimentos foram registrados nesta semana. Na Alemanha, as taxas de juros subiram; nos Estados Unidos a opção foi pela manutenção, já a China preferiu reduzir os juros. Os bancos centrais de três regiões-chave do planeta tomaram decisões de política monetária divergentes, cada uma enfrentando desafios próprios, movimentos que refletem os diferentes ventos que sopram na zona do euro, nos Estados Unidos e na China.

A maior preocupação de todos os governos é com a inflação. A alta dos alimentos e do custo de vida impacta diretamente no bolso do trabalhador e derruba a popularidade de quem está no poder. Além disso pode gerar manifestações, protestos e greves. Duro é saber o momento de apertar e de afrouxar o cinto que segura a economia.

O Federal Reserve dos Estados Unidos, por exemplo, preferiu aumentar os juros rapidamente e de forma agressiva em março do ano passado, enquanto o Banco Central Europeu (BCE) escolheu um caminho mais cauteloso, com elevações graduais. O mais interessante é que nenhum dos dois conseguiu o resultado previsto e muitas dúvidas ainda pairam no ar. Tanto é verdade que os americanos decidiram colocar o pé no freio e os europeus começaram a acelerar as altas. Até onde isso vai, ainda não é possível prever.

Aqui no Brasil, cresce a expectativa para o início da queda dos juros. Qualquer sinalização para baixo já será bem vista pela maioria dos empresários e investidores. Esse movimento, tão esperado, pode ocorrer já nesta semana. O Comitê de Política Monetária começa a se reunir na terça-feira (20) e deve anunciar a Selic na quarta (22). As recentes quedas na cotação do dólar provocaram uma margem de segurança na economia talvez suficiente para que um primeiro corte, mesmo que modesto, seja anunciado. A hora é essa, uma vez que nos próximos meses, um novo soluço inflacionário pode impedir que tal medida seja tomada. Que os técnicos do Banco Central sigam o melhor caminho para o Brasil, e resistam às pressões externas e aos telefonemas da dona Luiza.