Natureza
O que o mundo pode aprender com os satoyama e as florestas sagradas do Japão?
A noção de satoyama remete a um modo de vida eminentemente rural, que já não é uma realidade para jovens radicados em centros urbanos
O outono avança suavemente sobre a província de Quioto, no centro-sul de Honshu, a principal dentre as quatro grandes ilhas do Japão. É a segunda quinzena de novembro, a temperatura já está mais amena e, nas montanhas ao redor de Kameoka — município da província situado ligeiramente a oeste da capital histórica —, as folhas das árvores formam um degradê do amarelo ao vermelho intenso. Durante a noite, o ar frio, mais pesado, desce das encostas e se acumula no vale do rio Hozu e seus afluentes, condensando a umidade em névoa matinal. Pela manhã, leva algum tempo até que o Sol a dissipe por completo.
O professor doutor Reiji Suzuki, do colegiado de Ciências Bioambientais da Universidade de Ciências Avançadas de Quioto (Kyoto University of Advanced Science, ou KUAS, no original) caminha por um fragmento florestal localizado numa dessas zonas de transição entre as encostas das montanhas e as áreas planas vale adentro. Essa floresta em que ele está, em específico, tem cerca de sete hectares e abriga 52 espécies catalogadas de árvores, das quais 72% são decíduas (espécies que perdem todas as folhas no inverno) e 28% são perenifólias, ou sempre-verdes (que mantêm suas folhas verdes durante todo o ano, substituindo-as gradualmente). Além das árvores — que constituem o principal interesse de Suzuki —, a floresta é lar de espécies variadas como a raposa vermelha japonesa, o cervo do Japão, a coruja-dosurais e a víbora mamushi, entre muitas outras.
“Esta floresta, que atualmente serve de floresta experimental para a universidade, é utilizada principalmente para dois tipos de atividades acadêmicas”, ele conta. “O primeiro grupo de atividades consiste em projetos de conclusão de curso desenvolvidos por estudantes, incluindo estudos sobre dinâmicas de regeneração florestal, expansão e distribuição de bambuzais, dispersão de sementes por camundongos, população de cervos, uso de habitat por corujas, populações de insetos, entre outras temáticas. O segundo grupo compreende experimentos e atividades práticas de campo em disciplinas de Biologia.”
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Texto: Guilherme Profeta