História
Afinal, para que servem os museus?
Para responder essa pergunta, faz-se necessária uma viagem no tempo, até pelo menos 700 anos atrás
A pergunta é simples. A resposta, nem tanto. Especialmente porque nenhum museu é igual ao outro e existem, simultaneamente, museus que operam com lógicas e funções bastante diferentes. É por isso que, para responder essa pergunta, faz-se necessária uma viagem no tempo, até pelo menos 700 anos atrás, retornando ao Renascimento. É o que defende a professora doutora Maria Isabel Landim, curadora da coleção museográfica do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZUSP), que tem como uma de suas linhas de pesquisa justamente a história dos processos museológicos.
Antes do Renascimento: Os tratados clássicos
Quando se pensa em História Natural, os grandes tratados clássicos eram tudo que havia disponível antes do Renascimento (entre os séculos XIV e XVII, quando ocorreu a Revolução Científica e o conhecimento passou a ser construído por meio da razão e da experimentação). Certamente esses tratados eram uma forma importante de literatura, mas eles ainda não tinham qualquer preocupação com a preservação do material utilizado como fonte de informação — um aspecto que seria muito importante para a ciência. “Então, o que fica do esforço desses primeiros naturalistas é somente o conjunto de textos, a literatura em si”, diz Landim.
Ainda assim, esses tratados foram essenciais para dar início ao processo de formação dos primeiros museus, porque, especialmente depois da invenção da prensa tipográfica (por volta de 1450) e com uma população gradualmente mais alfabetizada na Europa, documentos como esses puderam finalmente circular de forma mais ampla, para todos que por eles se interessassem, não só para o clero (cujos estudos desse material estavam focados no campo da teologia).
Renascimento (até o século XVII): os gabinetes de curiosidades
Foi no Renascimento, a partir da popularização dos tratados sobre a vida animal, que começaram a surgir, na Europa, uma série de coleções particulares com objetos relacionados à História Natural. Num primeiro momento, essas coleções eram organizadas em peças de mobiliário localizadas na casa de burgueses interessados pelo assunto, e é daí que vem o nome “gabinetes de curiosidades”.
“Nesse momento”, conta Landim, “a formação de coleções passou a ser um símbolo de distinção e reconhecimento social para uma nova classe de curiosos que não pertenciam nem ao clero e nem à nobreza, os burgueses. Essas pessoas investiam grandes somas de recursos nisso, não raro contratando profissionais para encomendar e adquirir novos itens para os seus gabinetes — os primeiros curadores — e, conforme essas coleções iam crescendo, passando a ocupar cômodos inteiros, os colecionadores começaram a construir catálogos para organizá-las.”
Isso é particularmente importante porque, a partir desses catálogos, começaram a surgir critérios de classificação para a biodiversidade, especialmente quando tiveram início as Grandes Navegações e esses colecionadores começaram a incluir em seus gabinetes itens provenientes do mundo todo, não só da Europa, numa tentativa de conhecer a biodiversidade tal qual ela se distribuía em todo o planeta. Foi nesse período que surgiu uma nomenclatura universal para animais e plantas, parte de uma tentativa de organizar esse material que se deslocava da “periferia” do mundo ao centro, que era o continente europeu.
Século XVIII: os gabinetes científicos
No século seguinte, os gabinetes de curiosidades passaram a ser chamados de gabinetes científicos, mas eles não eram exatamente a mesma coisa; para poder ser considerado um gabinete científico, era necessário que houvesse uma preocupação com a classificação dos itens que compunham o acervo (não somente com a acumulação e a exposição desses itens). “Então nós já podemos perceber, no século XVIII, uma série de diferenças em relação à forma de armazenar, de processar e de documentar o acervo em relação ao que se fazia no Renascimento. Isso era útil porque, quando você chegava nesses novos gabinetes, você já encontrava tudo organizado, classificado, e era muito mais fácil navegar por essa informação. Enquanto no gabinete de curiosidades do Renascimento você tinha toda aquela articulação simbólica de formas, nos gabinetes científicos do século XVIII você já tinha séries taxonômicas de animais organizados por grupo”, distingue a pesquisadora.
Século XIX: a função educacional dos museus
No século XIX, a teoria da evolução foi proposta pelo naturalista britânico Charles Darwin (1809—1882). Basicamente, o que ele defendia é que todos os seres vivos que existem no planeta Terra têm um único ancestral comum, e que os seres vivos passam por transformações ao longo das gerações. Se essas mutações os tornam mais adaptados ao ambiente, a tendência é que elas sejam passadas adiante às próximas gerações (o que recebe o nome de seleção natural). Novas espécies são geradas por meio desse processo de adaptação aos ambientes em constante mudança.
O que muda para os museus nesse processo é que somente os animais enfileirados em ordem taxonômica já não pareciam ser suficientes para tratar da complexidade das interações entre a biodiversidade. É assim que surgem os dioramas (ou seja, os animais representados como se estivessem interagindo) e a preocupação em representar os animais inseridos nos ambientes aos quais eles estavam adaptados, o que denota uma preocupação em comunicar, também, a teoria que há por trás das exposições. E isso acontece num momento específico, em que a educação está passando a ser compreendida como uma obrigação do estado, levando à compreensão de que os museus poderiam ter, também, uma importante função educacional.
Século XX: os centros de ciências e as discussões sobre sustentabilidade
Landim conta que, do Renascimento até o século XIX, as mais importantes pesquisas em Biologia aconteciam nos museus. Mas, no início do século XX, devido aos estudos em genética, as pesquisas migraram dos museus para os laboratórios das universidades. “E é nesse momento que as pessoas vão associar museu a coisa velha, entendendo que a pesquisa verdadeiramente nova e inovadora estava acontecendo não mais nos museus, mas nos laboratórios”, ela destaca. Como essa percepção impactava no volume de recursos financeiros disponíveis para os museus, a alternativa que as instituições encontraram para sobreviver foi apostar em seus programas de comunicação, ou seja, nas exposições para o público e no marketing. Museu virou sinônimo de entretenimento cultural, o que fez com que outras disciplinas, além da História Natural, passassem a entender que essa era uma oportunidade. É daí que surgem os centros de ciência — que muitas vezes nem queriam ser chamados de museus.
Por outro lado, foi também no século XX, nesse mesmo período em que a percepção pública sobre museus estava em baixa, que aconteceu a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, a famosa “Rio 92”. A partir dessa conferência, começou-se a discutir mais intensamente as questões relacionadas ao desenvolvimento sustentável e à biodiversidade. “E quais eram as instituições historicamente responsáveis pela salvaguarda da biodiversidade? Justamente os museus!”, enfatiza Landim. “É nesse período que surge o termo ‘megadiversidade’ para reconhecer os países mais ricos em biodiversidade no mundo, entre os quais está o Brasil, em primeiro lugar, com 20% da biodiversidade do planeta. Então nós passamos a viver um outro momento, no Brasil, que era considerado um país megadiverso; vimos aqui, por exemplo, políticas públicas voltadas ao estudo de animais e plantas. Isso porque a biodiversidade da Europa já estava praticamente toda descrita, naquele momento, mas a nossa ainda não, e a gente precisava começar a correr contra o tempo.”
A forma científica de pensar e as perguntas que ainda não foram feitas
O que todas essas configurações diferentes de museus têm em comum, especialmente a partir do século XVIII, é a forma de pensar o tratamento da informação: uma forma baseada na coleta, no processamento, na documentação e na divulgação de informação a partir de evidências materiais, que é aplicável a uma série de disciplinas, não somente à História Natural — mas também à Arte, à Antropologia etc.
“Os museus estão incluídos na lógica de produção do conhecimento científico. Eles são, na verdade, grandes instrumentos coletivos que se prestam a esse fim e vêm perdurando durante gerações de seres humanos, com o intuito de preencher as lacunas do conhecimento no tempo e no espaço, seja sobre a biodiversidade ou outras temáticas. Uma vez preservada toda essa evidência material, garante-se que ela possa ser reinterpretada a qualquer momento, inclusive a partir de novas tecnologias que ainda não existem, que vão suscitar perguntas que ainda não foram feitas”, defende Landim.
Exemplo disso é o uso das coleções para tentar explicar a origem da pandemia de Covid-19, em 2020: “No início da pandemia, o que os pesquisadores fizeram foi visitar coleções de História Natural, para saber quais eram os animais repositários dos vírus da linhagem mais próxima possível à do SARS-CoV-2, de modo a tentar traçar a sua árvore filogenética. Se você preserva um animal quando ele morre, você está preservando, também, os micro-organismos que estavam ali e, no caso de uma nova doença, o que você vai fazer é pegar os tecidos dos animais onde esses vírus geralmente se alojam e tentar detectar ali a sequência do gene do vírus.”
Pensando de forma utilitária, essa é uma das aplicações contemporâneas das coleções museológicas, mas não a única. “Você tem milhões de possibilidades de acessar essas informações. Conforme novas tecnologias vão surgindo, a gente vai processando essas coleções de uma forma diferente. E aí elas vão estar disponíveis para novas perguntas que ainda não foram feitas, mas que serão relevantes no futuro. As coleções são, assim, fundamentais; elas são um patrimônio incomensurável para a humanidade”, conclui Landim.
Texto: Guilherme Profeta