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Nova fórmula para o tratamento de infecções bacterianas que atingem a pele de animais

Além da piodermite, fórmula pode tratar outras infecções

04 de Maio de 2022 às 12:02
O primeiro passo da pesquisa foi identificar e isolar a bactéria Staphylococcus intermédias, que a pesquisadora coletou a partir de amostras de feridas de cães e cavalos
O primeiro passo da pesquisa foi identificar e isolar a bactéria Staphylococcus intermédias, que a pesquisadora coletou a partir de amostras de feridas de cães e cavalos (Crédito: Paulo Ribeiro / Arquivo-Uniso)

Quem tem cachorro já deve ter visto o pobre bichinho sofrer com aquelas infecções na pele, que abrem buracos no meio dos pelos, causam feridas e dão uma tremenda coceira. Por trás deste problema está uma bactéria chamada Staphylococcus intermedius, responsável por essas infecções na pele de animais, conhecidas como piodermites.

Geralmente, as piodermites são tratadas com antibióticos, mas o uso indiscriminado deste medicamento fez com que a bactéria criasse resistência. Assim, tornou-se comum que os animais com piodermites sofram constantes recaídas, com o reaparecimento frequente das infecções. Mas uma pesquisadora da Universidade de Sorocaba (Uniso) encontrou uma nova forma para tratar as piodermites nos animais. Erica Cristina Santos Silva desenvolveu, durante seu Mestrado em Ciências Farmacêuticas, uma fórmula com elevado potencial de sucesso no tratamento da doença, que atinge vários tipos de animais, principalmente cachorros e equinos. Ela criou um gel com um coquetel de bacteriófagos (palavra de origem grega que significa “comedor de bactérias”).

A pesquisa resultou em um gel com um coquetel de bacteriófagos para tratar as piodermites nos animais, principalmente cachorros e equinos - Paulo Ribeiro / Arquivo-Uniso
A pesquisa resultou em um gel com um coquetel de bacteriófagos para tratar as piodermites nos animais, principalmente cachorros e equinos (crédito: Paulo Ribeiro / Arquivo-Uniso)

Trocando em miúdos, a pesquisadora desenvolveu uma formulação com um vírus, que infecta apenas a bactéria Staphylococcus intermedius, e um agente que facilita a penetração do medicamento na pele. “Os bacteriófagos são altamente eficazes no tratamento de infecções bacterianas e são uma alternativa aos antibióticos convencionais.

“O objetivo da minha pesquisa foi desenvolver uma formulação em gel, contendo geranato de colina, que é um sal líquido que facilita a penetração do medicamento na pele. Esse gel, que recebeu um coquetel de partículas bacteriofágicas, apresentou um grande potencial para o tratamento de animais com piodermite”, explica Silva.

A pesquisa resultou na dissertação intitulada “Isolamento, caracterização e estabilização de bacteriófagos líticos para Staphylococcus intermedius: aplicação veterinária no tratamento de piodermites por permeação transdérmica”, aprovada pela banca examinadora da Uniso em fevereiro de 2020. Ela teve a orientação do professor doutor Victor Manuel Cardoso Figueiredo Balcão e a coorientação da professora doutora Marta Maria Duarte Carvalho Vila.

Silva comemora os resultados obtidos durante a realização da pesquisa: “O trabalho ainda nem tinha sido concluído e já foi apresentado em dois importantes congressos científicos internacionais (Congresso Brasileiro de Virologia/Encontro de Virologia do Mercosul e Congresso Internacional de Ciências Farmacêuticas, realizados em 2019 e 2018, respectivamente). Os resultados obtidos pela pesquisa ainda deram origem à preparação de um manuscrito científico, que se encontra atualmente em processo de publicação em uma revista científica internacional. Tudo isso comprova a qualidade e a importância dos resultados obtidos no meu trabalho de pesquisa”, comenta.

Uma longa caminhada

O processo para desenvolver o novo medicamento para combater as piodermites em animais foi longo e cheio de desafios. O primeiro passo, segundo Silva, foi identificar e isolar a bactéria Staphylococcus intermedius, que ela coletou a partir de amostras de feridas de cães e cavalos. “Foram isolados dois fagos líticos (o tal vírus que combate apenas as bactérias) a partir de águas residuais do hospital veterinário da Uniso. Os dois fagos foram caracterizados por uma série de avaliações biológicas, misturados com o geranato de colina e transformados num gel de hidroxietilcelulose”, relata Silva.

Depois de pronto, o gel também foi avaliado por análises físico-químicas e apresentou uma composição homogênea e uma viscosidade adequada, além de ser fácil de se espalhar pela pele. “A fórmula permitiu a estabilização estrutural e funcional das partículas bacteriofágicas e favoreceu a sua permeação na pele dos animais", resume a pesquisadora.

Silva conta que a dificuldade de usar bacteriófagos no combate às infecções bacterianas está, justamente, em fazer o vírus ultrapassar a barreira da pele. “É necessário o uso de facilitadores de permeação, e o geranato de colina faz bem esse papel. A formulação desenvolvida apresenta elevado potencial para utilização em terapia fágica no tratamento de infecções piodérmicas em animais, permitindo evitar a utilização de antibióticos convencionais”, detalha.

Novas pesquisas podem melhorar e ampliar o uso do medicamento

Ao final da dissertação, Silva sugere uma série de propostas para trabalhos futuros, com o objetivo de melhorar a fórmula desenvolvida e ajudar a combater essa infecção bacteriana que ataca vários tipos de animais. Mais do que isso, a fórmula pode ser modificada para combater outros tipos de infecções bacterianas.

“As piodermites são uma das mais importantes patologias em veterinária. Desenvolvemos uma fórmula que tem um grande potencial de sucesso no tratamento dessa doença, mas podemos melhorar a abrangência terapêutica do medicamento, visando aplicações mais diversas na área da saúde animal, combatendo, por exemplo, outros tipos de bactérias”, conclui.

Com base na dissertação “Isolamento, caracterização e estabilização de bacteriófagos líticos para Staphylococcus intermedius: aplicação veterinária no tratamento de piodermites por permeação transdérmica”, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas da Universidade de Sorocaba (Uniso), com orientação do professor doutor Victor Manuel Cardoso Figueiredo Balcão e coorientação da professora doutora Marta Maria Duarte Carvalho Vila. A dissertação foi aprovada em 27 de fevereiro de 2020.

Texto: Marcel Stefano

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