Turismo

Tour virtual temático: a nova onda do turismo, no Brasil e no mundo

Passeios on-line permitem visitar lugares famosos e interagir com os moradores, sem sair de casa
Tour virtual temático: a nova onda do turismo, no Brasil e no mundo
Nos tours por cidades italianas, como Roma, os guias caminham mostrando as ruas ao vivo e as atrações de cada local. Crédito da foto: Divulgação / Pixabay

A dificuldade gera oportunidades. A criatividade de parte do setor de turismo mostra que essa frase vai além de um chavão empresarial. A Covid-19 tornou proibitivo o ato de viajar — ao menos fisicamente. Que tal então viver o mundo sem sair de casa?

Formado em Relações Internacionais, Alexandre Disaro trabalhou por dez anos em comércio exterior, antes de deixar Florianópolis em 2014 e virar fotógrafo em São Paulo. Sempre gostou de viajar e de se embrenhar no contexto dos destinos, mas não tinha experiência em guiar grupos ou planejar roteiros para viajantes. Tampouco pretende investir nisso quando a pandemia passar. No entanto, diante da impossibilidade de fazer turismo, terminou inventando o Viajar de Casa, já prestes a ganhar um braço para o público de língua inglesa, o Let’s Travel from Home.

“Quando viajo, gosto muito de conversar com pessoas. Vi as coisas acontecendo (na quarentena) por videochamada. Pensei que podia apresentar essas pessoas”, conta o fotógrafo, explicando como surgiu o projeto. Ele promove encontros virtuais (entre R$ 150 e R$ 200 por participante) com moradores dos lugares visitados. Por exemplo, com um mestre tecelão de ikat, técnica do Usbequistão, ou com um marroquino mostrando um kasbah, cidadela de barro murada.

Todas as experiências são em português. Quando é necessária tradução, Disaro (fluente em inglês, espanhol, francês e japonês e com nível intermediário de italiano e russo) serve de intérprete. “Sou só um facilitador, o protagonista é sempre o personagem, a pessoa que está do outro lado. Peço para fixarem na tela a imagem do anfitrião, que vai entregar a cultura local”. Ele inaugura no fim do mês uma rota para o norte da Itália, com a brasileira Adriana Veneza. Nos tours por cidades italianas (inclusive Roma), as guias caminham mostrando as ruas ao vivo. “Antes do ‘embarque’, envio uma brochura com fotos e textos. O encontro dura de três horas e meia a quatro. Depois, compartilho conteúdos como links de documentários e playlists.”

Na Inglaterra

Tour virtual temático: a nova onda do turismo, no Brasil e no mundo
Uma viagem pela Inglaterra pode começar por Londres. Crédito da foto: Divulgação / Pixabay

O cuidado para levar o viajante a essa imersão ganha um detalhe a mais no caso de Clarissa Donda, especializada em receber famílias na Inglaterra. “Eu já fazia tour para criança, educativo, e queria manter essa linha”, diz a jornalista, que mora na Inglaterra desde 2014. Ela acaba de lançar a versão digital de tours do Dondeando por Londres. “A ideia é fazer uma visita virtual pela Inglaterra de Shakespeare, da rainha Elizabeth I, por exemplo. E chamo de visita porque não é palestra nem aula”, explica. “Eu uso vídeos, fotos e um monte de recursos. Mostro como era a Inglaterra naquela época, as navegações, o nascimento de uma identidade inglesa.”

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Cada roteiro temático custa 100 libras (cerca de R$ 680) por família, independentemente do número de participantes, para uma hora de apresentação e uma hora de perguntas.

Clarissa pretende manter o projeto on-line mesmo quando os brasileiros voltarem a desembarcar correntemente em Londres. A jornalista se preparou por quase dois anos para se formar em guia de turismo. “A gente estuda todos os aspectos da Inglaterra: história, leis, arquitetura, batalhas medievais, monarquia, construções, arte, política”, conta Clarissa, que tem a certificação Blue Badge. É a mais alta do Reino Unido, única que permite guiar dentro de pontos como o Castelo de Windsor e o Palácio de Buckingham.

Na Espanha

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O templo da Sagrada Família, na Espanha, desenhado pelo arquiteto catalão Antoni Gaudí, também está nos roteiros virtuais. Crédito da foto: Divulgação / Pixabay

Há três anos e meio com a família em Barcelona, Eder Rezende começou a atuar como guia seis meses depois de chegar à cidade. Embora ofereça visitas também em inglês e espanhol, os brasileiros são seu principal público. “Até onde pesquisei, não há outro tour virtual pela Sagrada Família totalmente falado em português na internet”, diz o brasileiro, que deu a volta ao mundo com a mulher, Fabiana Guimaro. Com ela mantém o blog Quatro Cantos do Mundo — conhecem 57 países.

Sobre o tour virtual pela Sagrada Família, que custa R$ 45, Rezende já contabiliza 120 vendas desde o lançamento, no fim de junho. “Tem 26 minutos de audioguia. O viajante escuta minha voz como se estivesse aqui e não precisa ler nada”, diz ele, que prepara um tour pelo Park Güell ainda para este mês.

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Lá e cá

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No Brasil, o Masp, em São Paulo, é referência para viajantes do mundo todo. Crédito da foto: Divulgação / Pixabay

A onda de tours virtuais foi um movimento natural entre guias no Brasil também. Patrícia Ribeiro, à frente da agência Passeios Baratos em São Paulo, começou em maio com um encontro on-line sobre Vila Madalena e Pinheiros. Dos bairros paulistanos para outros temas no País não demorou. Neste fim de semana, iniciou a oferta de exterior, com Chichén Itzá, no México. Patrícia publica a programação no Instagram @passeiosbaratosemsp – os preços são R$ 20 por pessoa em destinos no Brasil e R$ 40 nos internacionais. Patrícia cria um grupo de WhatsApp e manda o link 15 minutos antes do horário marcado. Nos destinos brasileiros, o guia monta uma apresentação com fotos e vídeos. “O tour internacional vai depender do guia e de como está a situação na cidade”.

Ela embarcou em um encontro on-line sobre Lina Bo Bardi, comandando pelo guia italiano Rocco Belletti. Em português, a apresentação incluiu curiosidades e informações sobre projetos, como o Museu de Arte de São Paulo (Masp) e seus cavaletes de vidro, uma inovação da arquiteta para a exibição dos quadros. “Pretendo seguir com os tours virtuais porque as pessoas estão pedindo e os passeios presenciais não vão voltar logo”, afirma. (Nathalia Molina – Estadão Conteúdo)

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