Turismo

Supertrilha do Oiapoque ao Chuí traz esperança para futuro da Mata Atlântica

O resultado será um corredor costeiro contínuo para animais e seres humanos
Supertrilha do Oiapoque ao Chuí traz esperança para futuro da Mata Atlântica
Pessoas tiram foto com o cenário do Rio de Janeiro ao fundo. Ian Cheibub / AFP (21/7/2019)

Luiz Pedreira caminha com outros trilheiros sob a densa cobertura vegetal da Mata Atlântica. Lá, uma supertrilha de 8 mil quilômetros entre o Oiapoque (Amapá) e o Chuí (Rio Grande do Sul) começa a ser explorada.

“Você não valoriza o que não conhece”, diz Pedreira. Ele fala com a esperança de que a criação de uma das mais longas trilhas do mundo gere conscientização sobre a fragilidade da floresta. A mata tem sido devastada por fazendeiros e madeireiros ao longo dos séculos e agora enfrenta novas ameaças com a política do governo.

Inspirada em outras trilhas de longa distância, como a Great Trail, que se estende por 24 mil quilômetros no Canadá, o projeto é apoiado pelos Ministérios do Meio Ambiente e do Turismo. Ligará a cidade de Chuí, no extremo sul do Rio Grande do Sul, na fronteira com o Uruguai, ao Oiapoque, na fronteira norte com a Guiana Francesa.

O resultado será um corredor costeiro contínuo para animais e seres humanos. Os trabalhos já estão em andamento, mas podem levar anos até serem concluídos.

A trilha “permite às pessoas se conectarem com a floresta”, diz Pedreira à AFP. A conversa ocorreu ao lado de um penhasco que oferece uma vista de 180 graus das montanhas. Elas têm densa cobertura vegetal e os monólitos de granito que dividem os bairros do Rio de Janeiro. “Se você está sempre na floresta, vai valorizá-la mais”, continua.

Supertrilha do Oiapoque ao Chuí traz esperança para futuro da Mata Atlântica
Dupla descansa durante passagem pela trilha na Mata Atlântica. Ian Cheibub / AFP (21/7/2019)

Atrativo turístico

Considerada pela ONG Fundo Mundial para a Natureza (WWF) o segundo ecossistema mais diverso do planeta, atrás apenas da Amazônia, a Mata Atlântica abriga milhares de plantas e espécies animais. Quando os portugueses chegaram ao Brasil, em 1500, a floresta cobria mais de 1,3 milhão de quilômetros quadrados do território, uma área correspondente a quase o dobro da França.

Desde então, no entanto, quase 90% da mata desapareceu. Ela foi destruída ao longo dos séculos para abrir caminho para cultivos de café, cana-de-açúcar, criação de gado, ou cidades.

Embora a taxa de desmatamento tenha diminuído nos últimos anos, segundo a Fundação SOS Mata Atlântica, teme-se que a retórica antiambientalista do governo Bolsonaro reveja esta tendência. O desmatamento da Amazônia – uma floresta tropical crucial para manter o aquecimento sob controle – disparou 278% em julho em comparação com o mesmo mês do ano passado, segundo cifras do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Este número se segue ao aumento de 90% do desmatamento em junho em comparação com o mesmo mês no ano anterior, cifras que o presidente Jair Bolsonaro chamou de mentirosas, o que acabou gerando reações do então diretor do Inpe, Ricardo Galvão, e sua posterior exoneração. “Infelizmente, este governo agora não é muito bom para o meio ambiente”, disse Yves Lahure à AFP, após concluir uma caminhada de seis horas em um trecho da supertrilha. Mas a história mostra que a floresta pode ser restaurada.

Grande parte da Mata Atlântica, que recobre o Rio de Janeiro, havia sido substituída por plantações de café no século XIX, conta Horacio Ragucci, presidente do Centro Excursionista Brasileiro, enquanto conduz um grupo pela trilha de terra aberta por escravos. Uma crise hídrica forçou o então imperador Dom Pedro II a confiscar a terra e reflorestá-la, criando o que hoje é o Parque Nacional da Tijuca.

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Ragucci diz que o número de visitantes na floresta aumentou nos últimos dez anos, muitos motivados por encontrar um cenário bonito para tirar uma selfie. “Hoje têm grupos que se reúnem pelo Facebook e juntam 50 pessoas para fazer uma trilha”, conta Ragucci à AFP.

As autoridades brasileiras esperam que a trilha de longa distância atraia mais turistas estrangeiros ao país – que já tem um forte apelo turístico -, gerando renda e trabalho, necessários para a retomada do crescimento. “Enquanto os EUA recebem 307 milhões de visitantes e faturam US$ 17 bilhões com os parques ao ano, o Brasil recebe pouco mais de 10 milhões de visitantes e fatura R$ 2 bilhões sendo o número um do mundo”, compara o ex-ministro do Turismo Vinicius Lummertz. “Esses dados não fazem sentido. Precisamos agir e virar essa página”, acrescenta.

O percurso da trilha ainda precisa ser concluído, e as autoridades tentam convencer donos de terrenos particulares na floresta a permitir que trilheiros, corredores e praticantes de “mountain bike” passem por suas propriedades.

‘Um deleite’

“Se eu puder, faço toda semana”, diz Andreza Albuquerque, enquanto ela e um grupo de trilheiros descansam da caminhada, encostados em árvores, enquanto observam a paisagem da cidade e do mar logo abaixo. “Quando chega a segunda-feira, você começa a trabalhar com uma energia totalmente diferente”, continua.

Cerca de 200 anos atrás, o naturalista Charles Darwin expressou sentimentos similares, após visitar a Mata Atlântica pela primeira vez. “Deleite, no entanto, é um termo sutil para expressar os sentimentos de um naturalista que, pela primeira vez, perambulou pela floresta brasileira”, escreveu Darwin em seu diário em 1832.

Lahure diz apoiar a ideia de uma trilha transbrasileira, embora se preocupe que a floresta possa, um dia, atrair amantes da natureza em excesso. “Vivemos em uma cidade de seis milhões de habitantes”, diz Lahure, em alusão à população do Rio. “Se todo mundo vier, a Floresta da Tijuca vai acabar”, completou. (AFP)

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