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Vacina contra Covid vira ‘destino turístico’ para brasileiros

25 de Maio de 2021 às 00:01
Da Redação com Estadão Conteúdo
Pacotes de 20 dias para cidades que imunizam visitantes, como Nova York, Orlando e Miami, custam a partir de R$ 15 mil por pessoa.
Pacotes de 20 dias para cidades que imunizam visitantes, como Nova York, Orlando e Miami, custam a partir de R$ 15 mil por pessoa. (Crédito: CHANDAN KHANNA / AFP)

Nova York, Orlando e Miami sempre estiveram entre os destinos preferidos dos brasileiros. Agora, por conta da pandemia, ganharam mais um atrativo: a vacina contra a Covid-19. Após a divulgação da notícia, o buscador Kayak registrou alta de até 719% na procura por voos para essas cidades em maio de 2021, na comparação com o mês anterior. Além disso, o chamado turismo da vacina já deu origem até a produtos criados para isso.

Formatado pela BWT, operadora com quase 2 mil agências credenciadas, o pacote de 20 dias custa a partir de US$ 2.799 (cerca de R$ 15 mil) por pessoa, com parte aérea e hotel no México e nos Estados Unidos.

Assim como o passaporte de vacina, esse tipo de turismo é criticado por questões éticas, já que privilegia quem tem dinheiro. Confira abaixo as respostas para essa e outras questões.

Veja onde e como se vacinar no exterior

Brasileiros cumprem quarentena em outros países antes de ir para os EUA. - REPRODUÇÃO / INTERNET
Brasileiros cumprem quarentena em outros países antes de ir para os EUA. (crédito: REPRODUÇÃO / INTERNET)

Tire dúvidas sobre a vacinação de turistas no exterior.

1. Em quais destinos o turismo da vacina vem sendo mais comum?

Brasileiros têm ido aos Estados Unidos. Hotéis de luxo como os da rede Four Seasons, em Nova York, já percebem aumento de hóspedes do Brasil desde a divulgação do turismo da vacina, especialmente após a declaração do prefeito da cidade, Bill de Blasio, de que ofereceria o imunizante em pontos turísticos. “Com a notícia de vacinação em Nova York e na Flórida, a gente recebeu tanta demanda que formatou um pacote e já teve venda nesta semana”, explica Gabriel Cordeiro Strobel, gerente-geral da BWT Operadora.

Outros destinos, como Cuba com a sua Soberana, também são lembrados quando o assunto é turismo da vacina, mas a ilha divulgou que doaria doses para países sem recursos. “A Rússia está vacinando com a Sputnik sem burocracia, mas tem de ficar lá pelo menos três semanas”, explica Roberto Haro Nedelciu, presidente da Associação Brasileira das Operadoras de Turismo (Braztoa). Na Romênia, quem vai ao Castelo do Drácula toma vacina e visita a atração de graça.

“Tem as Maldivas. Estive lá e vão vacinar depois que atingirem 70% da população vacinada. Eles querem usar a vacinação como um marketing para atrair turismo, que é 90% da economia local. Vão usar o plano 3V: visit, vaccine e vacation (visita, vacina e férias)”, diz.

2. Quais países vêm sendo destino de quarentena antes dos Estados Unidos?

Os brasileiros têm de permanecer 14 dias em outro país fora da lista americana de bloqueio sanitário, antes de ir para os Estados Unidos. “O pessoal fica 15 dias nesses destinos e depois vai para Miami ou Nova York porque são os lugares onde eles não estão pedindo comprovação de residência”, afirma o presidente da Braztoa. Segundo ele, o México é o país mais procurado por brasileiros, mas outros também aparecem nos roteiros, caso de Panamá, República Dominicana, Costa Rica e Anguilla. Resorts na mexicana Cancún, como os da rede Palladium, estão nos pacotes da BWT.

De acordo com Simone Mariote, vice-presidente para a América Latina da Preferred Hotels, selo global de hotelaria de luxo, a notícia de imunização para viajantes aqueceu as reservas. “A gente tem visto aumentar o número de brasileiros que viajam para o México para fazer quarentena. Muito acabam trocando de hotel para curtir dois ou três diferentes”, conta.

3. Quanto custa o pacote para ir aos Estados Unidos em busca de vacina?

“Com 15 dias de hotel no México, sem ser all inclusive, mais cinco dias em Nova York e passagem aérea via Panamá, dá em torno de R$ 20 mil de preço mínimo”, afirma Nedelciu. Segundo o presidente da Braztoa, a maior parte dos brasileiros que vêm embarcando tem alto poder aquisitivo. “São pessoas de mais idade que já se vacinaram e querem vacinar os filhos com 30 anos ou menos. E tem casos extremos, que a gente sabe por operadores, como o de avião fretado para uma família.”

4. Quais outras despesas o viajante deve considerar?

Além do valor do pacote, é preciso levar em conta alimentação, transporte e exames. Se a pessoa testar positivo para Covid-19 no exterior, o custo sobe com diárias extras de hotel, refeições e diferenças tarifárias nos trechos aéreos (caso a passagem esteja mais cara na nova data em relação ao voo inicial).

Para esses casos, resorts do México criaram uma oferta para garantir a hospedagem sem custo adicional. ‘A gente tem hotéis que oferecem ao cliente a garantia de que, se o PCR der positivo, ele tem 14 noites gratuitas, numa ala separada, com todo o conforto e comida incluída‘, diz Simone, da Preferred.

Garantia e ética estão entre as principais dúvidas

Castelo do Drácula, um dos maiores atrativos da Romênia, oferece vacina grátis. - REPRODUÇÃO / INSTAGRAM
Castelo do Drácula, um dos maiores atrativos da Romênia, oferece vacina grátis. (crédito: REPRODUÇÃO / INSTAGRAM)

Apesar do crescente número de adeptos, o turismo da vacina ainda gera muitas dúvidas. Os principais questionamentos são com relação aos locais onde a vacinação de turistas contra a Covid-19 está ocorrendo, se há garantias de que os visitantes são vacinados, o que pode acontecer caso o viajante se contamine com o novo coronavírus durante o passeio e, principalmente, se é ético se vacinar dessa maneira. Veja o que dizem os especialistas a esse respeito:

5. Em Nova York e na Flórida, onde os viajantes estão sendo vacinados?

Roberto Haro Nedelciu, presidente da Braztoa, afirma que passageiros brasileiros já foram imunizados em Nova York em lugares como Empire State Building, Times Square, Brooklyn e Central Park. “As lojas da Publix e as farmácias da CVS também estão vacinando”, diz. Segundo Gabriel Cordeiro Strobel, gerente-geral da BWT, o pacote da operadora tem Miami como destino, onde um funcionário recebe o viajante no aeroporto. “Ele leva o passageiro até a farmácia para tomar a vacina. O agendamento é feito pelo site.”

De acordo com Simone Mariote, vice-presidente para a América Latina da Preferred Hotels, os empreendimentos de Miami estão fazendo campanhas voltadas para os viajantes latinos. “Eu estive na semana passada num hotel com shutle para o Aventura Mall, onde os estrangeiros podem tomar vacina. Eles estão realmente promovendo o turismo da vacina, e o resultado tem sido bem promissor. A gente está com bastante solicitação para Miami e Nova York também. É uma tendência e, se a fronteira americana finalmente abrir no meio do ano, a gente vai ter um número considerável de brasileiros viajando para se vacinar”, afirma.

6. E se o viajante testar positivo ao longo da roteiro?

Strobel, da BWT, ressalta que o passageiro tem de estar ciente da possibilidade de estender a viagem, caso teste positivo para Covid-19 em alguma das etapas. “No México, o viajante faz um exame antígeno ou PCR porque os Estados Unidos aceitam os dois. Se a pessoa contraiu a doença lá, tem de ter tempo disponível para seguir de quarentena”, diz. “Depois, o passageiro faz o PCR dois dias antes da voltar para o Brasil. Caso dê positivo, precisa prorrogar a viagem.”

7. A imunização dos viajantes é garantida?

Nedelciu e Strobel ressaltam que não há garantia de que os turistas serão vacinados durante viagens aos destinos que prometem isso. “Busquei informação sobre a vacina em Nova York, mas não consegui identificar como está sendo esse procedimento”, diz Jessé Reis Alves, médico do Ambulatório de Medicina do Viajante do Hospital Emílio Ribas. “Lá, é a vacina da Janssen, que tem efetividade atribuída não tão alta quanto a da Pfizer e da Moderna, mas tem a vantagem de ser de dose única. Entretanto, não achei nada que informasse definitivamente se esse indivíduo vai ser vacinado.”

8. Por que há críticas ao turismo de vacina?

Assim como o passaporte de vacina (possível exigência de comprovação de imunização para entrar em alguns países, como os da União Europeia), o turismo da vacina recebe críticas pela questão ética. “É complexo, é um tema que precisa ter uma abordagem múltipla. Eu sou bastante favorável à publicação da OMS (Organização Mundial da Saúde), que faz uma análise ética e científica”, afirma Alves. “Aquelas pessoas que têm dinheiro conseguem se vacinar antes da própria população do local. Você gera algum tipo de privilégio num momento de pandemia, em que isso realmente não poderia ocorrer”, diz o infectologista. (Da Redação com Estadão Conteúdo)

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