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Viagens

Isolamento longe de casa vira opção para não ‘pirar’

Tendência turística surgida com a pandemia também exige precauções

27 de Abril de 2021 às 00:01
Da Redação com Estadão Conteúdo
Trocar grandes centros por lugares onde o distanciamento social é naturalmente mais fácil ajuda a combater o coronavírus com redução dos inconvenientes.
Trocar grandes centros por lugares onde o distanciamento social é naturalmente mais fácil ajuda a combater o coronavírus com redução dos inconvenientes. (Crédito: DIVULGAÇÃO)

Foi viajar para dar um tempo: era como se dizia antigamente sobre a pessoa que, cansada da rotina, tinha ganhado a estrada -- e até o mundo. Atualmente, por causa da situação crítica em que se encontra o Brasil em relação à Covid-19, o máximo que se pode fazer é planejar o futuro. Sem desbravar destinos, explicam os especialistas, a gente ajuda a diminuir os números da pandemia e tem a vida (e as viagens) de volta o quanto antes. Até lá, dar um tempo só se for com a gente mesmo, em turismo de isolamento.

“Isso pode ser seguro sim. Posso me transferir de um grande centro populacional para um lugar onde o distanciamento social é naturalmente mais fácil. É uma opção interessante para quem tem condições, e até recomendável para a pessoa não pirar, mas desde que tomadas algumas precauções importantes”, afirma Fernando Aith, professor titular do Departamento de Política, Gestão e Saúde da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP). “Casa alugada é mais seguro do que hotel ou pousada porque você tem domínio de quem está entrando e não é obrigado a cruzar com mais pessoas.”

Segundo Aith, é indicado levar produtos de limpeza de casa. “Mas a carga viral nos ambientes vai diminuindo em 72 horas. Já sabemos que o maior problema da contaminação é pelo ar, no contato com os outros.”

Alternativa combina lazer com trabalho e dia a dia em família - DIVULGAÇÃO
Crédito: DIVULGAÇÃO / Descrição: Alternativa combina lazer com trabalho e dia a dia em família

O aluguel de imóveis onde se possa estar na natureza, mantendo o distanciamento, passa a ser uma opção em tempos em que a interação entre seres humanos é proibitiva. Enquanto a vacinação em massa não ocorrer no Brasil, o que infelizmente é esperado, na melhor das hipóteses, só para o segundo semestre de 2021, casas no litoral ou no campo surgem como alternativa para um turismo de isolamento.

Diante desse cenário e da possibilidade de trabalho remoto, Guilherme Finotti saiu da capital paulista e alugou uma casinha na cidade mineira de Gonçalves, há pouco mais de um mês. “Hoje tem uma infraestrutura que não existia, e a chegada do 5G vai mudar radicalmente a nossa relação com o campo”, afirma o advogado, que atua como mediador na área jurídica. “Como viajo muito, a minha ideia é ter uma base em um lugar onde eu goste de estar e usar o Airbnb quando for a São Paulo ou para passar uma semana na praia, em Ubatuba.”

Ele conta que, antes da pandemia, não via isso ocorrendo a curto ou médio prazo.”A minha profissão em particular exige um contato humano, não só analítico. Houve a necessidade de adaptação, e a gente percebeu que dá para fazer isso sem perder qualidade. Em um ano, foram mais de 10 mil reuniões na empresa onde trabalho. Isso foi crucial para me dar segurança”, conta.

Workcation ou flexcation..., tanto faz

Anywhere office veio para ficar, assim como os protocolos sanitários - DIVULGAÇÃO
Crédito: DIVULGAÇÃO / Descrição: Anywhere office veio para ficar, assim como os protocolos sanitários

Na era da Covid, tudo muda em uma velocidade espantosa. No entanto, assim como o trio composto por máscara, álcool em gel e distanciamento social, o conceito de anywhere office parece ter vindo para ficar. O escritório, que na expressão em inglês era atrelado ao espaço físico de casa (home), agora pode ser realizado de qualquer lugar com conexão à internet. Dessa tendência nasceram variações específicas para o turismo, que juntam vacation (férias) com work (trabalho) ou flex (flexível): workcation e flexcation.

De acordo com levantamento da Booking.com, dois em cada cinco (44%) brasileiros estão interessados em combinar trabalho com férias, e quase metade (47%) fez isso ao menos uma vez em 2020. A pesquisa online foi realizada em novembro com 47.728 pessoas em 28 países, sendo quase 2 mil do Brasil. Enquanto a praia é o lugar predileto para workcation para 63% dos brasileiros, 56% desejam ficar em um lugar de natureza onde possam ir a parques. A acomodação divide opiniões: 22% escolhem hotéis e pousadas; 22%, resorts; e 21%, apartamentos, casas ou vilas.

Espaço controlado

No meio de 2020, a professora Helena Costa alugou por duas semanas uma chácara perto de Brasília, na região rural de Paranoá, para curtir as férias dos filhos, Clarice e Eduardo, hoje com cinco e dois anos, respectivamente. “A gente teve de esperar porque as casas estavam sempre com muita demanda. As crianças correram soltas. Só o fato de ter mais espaço... A gente olhava a imensidão do cerrado, fazia geleia das frutas do pomar”, diz a coordenadora do Laboratório de Estudos de Turismo e Sustentabilidade da Universidade de Brasília (LETS/UnB).

“Nem todo mundo precisa sequer estar de férias. Bruno, meu marido, conseguia ir trabalhar porque dá em média meia hora de carro.” A experiência rendeu pinturas feitas por Helena, que voltou com a família em setembro para mais três semanas. “As donas da casa têm duas aquarelas minhas na parede.” Atualmente, como o contexto da Covid no Brasil mudou drasticamente, Helena diz que a situação pede que não se viaje no momento. “Temos de ter nossa parcela de responsabilidade.” A coordenadora do LETS/UnB, no entanto, acredita que muitas pessoas seguirão em trabalho remoto em 2021, o que possibilita hospedagens longas quando a pandemia estiver mais controlada.

Foi o que motivou Larissa Castro, professora de Direito Constitucional da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), a sair de Goiânia em janeiro, em busca de autoconhecimento e saúde mental. “Tirei do papel o plano de virar nômade”, conta. Em 2020, ela faria um ano sabático para dar a volta ao mundo, mas veio a pandemia. Ficou em casa até setembro. Quando os números da Covid caíram no Brasil, Larissa botou o carro na estrada e se mudou para Arraial do Cabo, no litoral norte do Estado do Rio.

“Escolhi lá porque tinha barreira sanitária: só entrava morador e quem alugou casa. Depois, fiquei em Itamambuca (SP) para aprender a surfar e me mudei para Paraty (RJ) para aprender a velejar. Nem ao centro eu vou”, diz a professora, a bordo do veleiro onde ficou por uns dias. “Meu critério é boletim epidemiológico. Os casos aqui estão subindo. Vou voltar para Arraial.” 

Quanto mais isolado, melhor

Busca por casas no campo vem crescendo há 11 meses. - REPRODUÇÃO / INTERNET
Crédito: REPRODUÇÃO / INTERNET / Descrição: Busca por casas no campo vem crescendo há 11 meses.

Apesar da impossibilidade de viajar e da consequente monotonia que toma conta de praticamente todos os destinos desde o início de 2020, a maioria dos turistas e os empreendedores do setor ressaltam a importância do distanciamento social neste momento de crise sanitária mundial provocada pela pandemia do novo coronavírus. “É isolamento. Tem coisas que dá para conciliar, e outras, não. O hospital mais próximo de Gonçalves está a 80 quilômetros. É importante que a gente tenha a noção de que precisa preservar a população da Covid”, diz Guilherme Finotti, que trocou a capital paulista por uma casinha alugada na pequena cidade do interior mineiro há pouco mais de um mês.

O Airbnb lançou uma página neste mês para vizinhos de imóveis alugados pela plataforma denunciarem aglomerações e festas. Com a pandemia, a empresa reduziu para 16 o máximo de pessoas, mesmo em casas capazes de acomodar mais. Desde maio de 2020, cresceu a procura por lugares no campo ou na praia, a até 300 quilômetros dos centros urbanos, com infraestrutura para conciliar férias e trabalho.

Para quem busca algo assim, há também hotéis que oferecem casas separadas ou preferem receber uma única família. Mas o professor Fernando Aith, titular do Departamento de Política, Gestão e Saúde da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP), lembra que é fundamental perguntar sobre a taxa de ocupação e as refeições. “É melhor não ter buffet. E o café da manhã nem é na mesa, é no quarto.” (Da Redação com Nathalia Molina - Estadão Conteúdo)

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