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Estudo diz como salvar 71% das espécies

24 de Outubro de 2020 às 00:01

Estudo diz como salvar 71% das espécies

O Brasil, por ter vários biomas, como a Mata Atlântica, aparece com alta relevância para restauração. Crédito da foto: Divulgação

Com o avanço das mudanças climáticas e das previsões de que o planeta pode enfrentar em algumas décadas uma grande extinção de espécies, especialistas têm defendido não apenas a necessidade de conservar as florestas ainda existentes como a de restaurar as que foram desmatadas ou degradadas.

Esse desafio, tido como complexo e caro, acaba de receber uma ferramenta que pode torná-lo mais factível. Um grupo internacional de 27 pesquisadores de 12 países, liderado por um brasileiro, fez um mapeamento dos ecossistemas do planeta e calculou que a restauração de 30% deles, em áreas prioritárias, pode evitar mais de 70% das extinções de mamíferos, anfíbios e pássaros. Além disso, pode também absorver quase metade do carbono acumulado na atmosfera desde a Revolução Industrial, ou 466 bilhões de toneladas de gás carbônico.

Terras agrícolas

O trabalho, publicado este mês na revista Nature, estima que, em todo o mundo, 2,87 bilhões de hectares de ecossistemas foram convertidos em terras agrícolas. Dessas áreas, mais da metade (54%) era originalmente floresta; 25% eram pastagens naturais; 14%, estepes; 4%, terras áridas; e 2%, pântanos.

A ideia não é que isso tudo retorne às condições naturais -- até porque há importantes cultivos agrícolas nessas regiões --, mas focar a restauração onde ela seria mais efetiva tanto em termos de custo quanto de resultados ambientais. Ou seja, salvar mais espécies e ainda retirar mais carbono da atmosfera. Na tarefa, os pesquisadores mapearam os ecossistemas e os dividiram conforme sua importância.

Estudo diz como salvar 71% das espécies

Pesquisadores são liderados pelo brasileiro Bernardo Strassburg. Crédito da foto: Divulgação

De acordo com o líder do grupo, o brasileiro Bernardo Strassburg, professor do Departamento de Geografia e Meio Ambiente da PUC-Rio e diretor executivo do Instituto Internacional para Sustentabilidade, o impacto é muito diferente conforme a área escolhida. Daí a importância de entender onde estão as prioritárias.

Quanto recuperar

O estudo indica o quanto e onde essas recuperações devem ser feitas no globo terrestre.

“Recuperar 5% de terras em uma ou outra região do globo, por exemplo, pode reduzir a extinção de espécies em 7% ou 43%”, diz. E o Brasil se destaca nisso, com várias áreas entre as prioritárias, principalmente na Mata Atlântica, no sul e leste da Amazônia e no Cerrado.

Pela análise, cerca de 200 milhões de hectares de vegetação nativa foram convertidos no País. Restaurar 15% disso, ou 30 milhões de hectares, nas áreas prioritárias, poderia salvar espécies simbólicas como a onça-pintada e o mico-leão-dourado. O País tem hoje cerca de 400 animais e 200 espécies de plantas ameaçados de extinção -- na lista entram o tamanduá-bandeira, o bugio-marrom, a ariranha, a palmeira-juçara, o pau-brasil, o jequitibá-rosa e a peroba.

Pantanal

No estudo, o Pantanal brasileiro não está destacado, porque o estudo foi concluído antes das recentes queimadas, quando ainda se considerava que cerca de 81% do bioma estava bem preservado. Strassburg ressalta, porém, que a região está agora entre as mais prioritárias para restauração.

“Em todo o mundo, as áreas alagadas, ou wetlands, como o nosso Pantanal, estão entre as mais importantes para a biodiversidade e para conter as mudanças climáticas -- até mais que as florestas tropicais. Se o mapa fosse refeito hoje, 1/3 do Pantanal estaria completamente vermelho (relevância de restauração)”, disse Strassburg à reportagem. O bioma, que teve quase 33 mil km2 atingidos pelo fogo neste ano -- cerca de 22% de sua área, de acordo com o Programa Queimadas, do Inpe -- era um dos últimos refúgios da onça-pintada e de espécies como a ariranha e a arara-azul.

Relevante

Estudo diz como salvar 71% das espécies

No mapa, quanto mais vermelha a marcação, maior a importância do restauro. Crédito da foto: Divulgação

“O Brasil é basicamente todo vermelho e amarelo. Tudo aqui é muito relevante para a biodiversidade e para a regulação do clima. Esse mapa deve ser olhado como um ativo estratégico se o País quiser fazer parte desse mercado internacional de serviços ecossistêmicos”, complementou o pesquisador. Ele afirma que cerca de 75% do que foi desmatado no Brasil ao longo dos séculos se transformou em pastagens, muitas delas hoje degradadas. “A rentabilidade de pastagem é muito modesta perto do que se poderia ganhar com o mercado de carbono. A maioria dos lugares tem um boi por hectare quando facilmente poderia ter três”, acrescenta.

Melhorar essas condições, avisa Strassburg, é que vai possibilitar que a restauração seja feita sem que haja interferência na produção agrícola. Essa preocupação foi levada em consideração pelo estudo, que busca respostas para muitas das ressalvas que se fazem hoje, em especial no agronegócio, sobre restauração florestal. “Resolvendo a subutilização, a subprodutividade das áreas de pastagem, e usando melhor o que já foi desmatado, é possível conciliar a produção com a conservação Podemos chegar ao desmatamento zero no mundo todo, com a restauração de até 55% das áreas já convertidas, sem afetar a produção de alimentos”, completa o pesquisador.

O trabalho foi feito sob encomenda da ONU, que elegeu o período de 2021 a 2030 como a década para a restauração de ecossistemas. Metas lançadas pela ONU em 2010 previam a restauração de 15% dos ecossistemas, mas não só se falhou em alcançar essa meta como ela já é vista como insuficiente. Estudos estimam que 1 milhão de espécies estão em risco de extinção nas próximas décadas.

Espécies raras estão cada vez mais ameaçadas

Estudo diz como salvar 71% das espécies

Sagui-de-cabeça-amarela do Brasil é uma das espécies consideradas raras. Crédito da foto: Divulgação

As espécies de animais raras estão cada vez mais ameaçadas pelas mudanças climáticas e pela atividade humana. Seu papel é fundamental para a preservação dos ecossistemas, segundo um estudo publicado nesta semana.

O sagui-de-cabeça-amarela do Brasil, o canguru australiano de Queesland, o kakapo (o único periquito do mundo que não voa), fazem parte das mais de 4.600 espécies de mamíferos terrestres e das 9.287 aves classificadas como “ecologicamente raras” por este estudo inédito, publicado na quinta-feira na revista Nature Communications.

Os autores deste trabalho gigantesco, que se apoia na análise de dados em escala mundial (“big data”), realizaram também um mapeamento preciso que leva em consideração o critério de raridade geográfica e, pela primeira vez, o de “raridade funcional”.

É único o papel que alguns animais desempenham no funcionamento de um ecossistema devido às suas características, como o tamanho, a alimentação, o habitat. Por exemplo, o Ariane de Lucy, um colibri endêmico de Honduras, que só existe em quatro áreas do país, contribui substancialmente para a polinização quando se alimenta de néctar.

Por sua vez, o macaco preto da ilha indonésia de Sulawesi -- famoso desde que um espécime tirou uma selfie em 2014 com uma câmera -- tem uma dieta (mais de 145 espécies de frutas) crucial para a dispersão de sementes das árvores.

“Tendemos a pensar que uma espécie pouco abundante contribui de maneira pouco significativa para o funcionamento de um ecossistema, ao contrário das que são mais numerosas, o que chamamos de efeitos de massa”, explica à AFP Nicolas Mouquet, pesquisador do Centro Nacional de Pesquisas Científicas da França, também responsável pelo estudo. (Giovana Girardi - Estadão Conteúdo e AFP)

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