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Projeto do trem turístico deve ser concretizado em dezembro de 2019

Linha entre Sorocaba e Votorantim promete promover a memória ferroviária e fomentar a economia
O trem turístico será conduzido pela Locomotiva 58 e, inicialmente, terá vagão de passageiros com 60 lugares. Crédito da foto: Erick Pinheiro

A implantação do trem turístico Sorocaba-Votorantim é um plano ambicioso e comentado cada vez mais entre os sorocabanos, principalmente quando têm a oportunidade de ver a Locomotiva 58 deslizar pelos trilhos que cortam a área urbana, em datas festivas, como ocorreu na quarta, dia 15, aniversário de Sorocaba. As duas cidades trabalham com expectativas de que o projeto vai promover a memória ferroviária e fomentará o turismo e a economia. Acreditam que o trem trará benfeitorias para o entorno das regiões atendidas e será polo agregador de outros serviços.

Os trilhos da antiga via férrea cortam o centro de Sorocaba, com início na rua Paula Souza, transpõem o rio Sorocaba e seguem até Votorantim. A programação para as diversas etapas do projeto prevê viagens experimentais já para este ano e o ano que vem, com a finalização dos trabalhos e inauguração das viagens turísticas em dezembro de 2019.

Acordo de cooperação

A comissão criada pelo prefeito José Crespo (DEM) para trabalhar no projeto é formada por representantes das prefeituras de Sorocaba e Votorantim e da Associação Movimento de Preservação Ferroviária do Trecho Sorocabana. Esse grupo vai acompanhar um acordo de cooperação firmado entre essas partes e mais a Votorantim Cimentos. Outra tarefa da comissão será tratar da transferência às prefeituras de Sorocaba e Votorantim das áreas (faixa de domínio da ferrovia), imóveis (estações) e materiais (trilhos, locomotivas, etc.) de propriedade da Votorantim Cimentos e que são necessários à implantação do projeto.

Estrada de Ferro Elétrica Votorantim (EFEV) tem trechos danificados e será recuperada com respaldo técnico. Crédito da foto: Erick Pinheiro

Também será necessário assegurar a recuperação da Estrada de Ferro Elétrica Votorantim (EFEV) — antigo nome da via férrea –, com respaldo técnico da Associação Movimento de Preservação Ferroviária do Trecho Sorocabana, para receber o futuro serviço ferroviário não-regular com finalidade turística.

E caberá à comissão garantir a manutenção, conservação e funcionamento periódico da Locomotiva a Vapor nº 58 durante a fase prévia ao início do serviço ferroviário não-regular de transporte de passageiros em passeios turísticos entre Sorocaba a Votorantim, bem como a execução das modernizações necessárias para atender aos requisitos vigentes de segurança do serviço.

Outra providência, por meio de leis específicas, será a criação do Consórcio Intermunicipal e do Fundo Intermunicipal do Trem Turístico Sorocaba a Votorantim. O consórcio receberá das prefeituras das duas cidades os ativos oriundos da Votorantim Cimentos e ficará responsável por eleger uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) a quem caberá a exploração do serviço ferroviário não-regular com finalidade turística entre os dois municípios.

A Votorantim Cimentos já informou que tem interesse em doar parte da malha ferroviária e alguns imóveis que são de sua propriedade às prefeituras de Sorocaba e Votorantim.

Recuperar a linha férrea

O jornalista Eric Mantuan, gerente operacional da Associação Movimento de Preservação Ferroviária do Trecho Sorocabana, informa que dos 13 quilômetros de extensão da via férrea, 8 serão utilizados para a implantação do trem turístico. Nesse trecho, 6,5 quilômetros atravessam zona urbana de grande adensamento. Da estação Paula Souza, em Sorocaba, até à divisa com Votorantim, são 4,5 quilômetros, e a partir daí, na cidade vizinha, são mais 3,5 quilômetros até o bairro Votocel.

O jornalista Eric Mantuan. Crédito da foto: Arquivo Secom Sorocaba

Há trechos em que a ferrovia apresenta erosões, há dormentes e trilhos com problemas de deterioração. “Toda a ferrovia vai passar por processo de recuperação e manutenção”, diz Mantuan. No caso de erosão, ele informa que está programado desentupimento de córrego de água pluvial na avenida reverendo Manuel da Conceição: “Será feita substituição de dormentes em todo o trecho e manutenção para que ela atinja níveis de segurança operacional para transportar passageiros.”

Mantuan adianta que o trem vai funcionar com a Locomotiva 58, que fica baseada na estação Paula Souza e, inicialmente, com mais um vagão de passageiros com capacidade para 60 lugares.

Para atender às necessidades de custos, neste ano, em Sorocaba, existe uma emenda parlamentar de R$ 100 mil. Já para 2019, está previsto orçamento de R$ 350 mil na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO).

Transporte regular inviável

A Prefeitura de Sorocaba informou que, no plano do trem turístico, não foi considerada a possibilidade de utilizar a ferrovia também para transporte de carga e de passageiros em seus deslocamentos no cotidiano. O acordo de cooperação entre os envolvidos públicos e privado, no momento, deverá atender exclusivamente o setor de turismo na região norte-sul da cidade. Ressalta que esse segmento de ferrovia é um patrimônio privado, que apresenta limitações físicas que inviabilizam a operação de um sistema de transporte de cargas e passageiros.

A quantidade elevada de cruzamentos em níveis entre esta ferrovia e as vias públicas gera conflitos e insegurança para a circulação do trânsito, acrescenta a Prefeitura. Outro fato que inviabiliza essas operações refere-se à limitação dos deslocamentos pela existência de uma única linha férrea, o que impossibilita a circulação simultânea nos dois sentidos, comprometendo a frequência esperada desse sistema.

Outros projetos

Segundo a Prefeitura de Sorocaba, essas questões merecem uma análise mais aprofundada para que o transporte de cargas e passageiros seja viabilizado nesse segmento. “A Prefeitura prioriza a utilização da ferrovia para o projeto do VLT (Veículo Leve sobre Trilho), que utilizará outras ferrovias existentes interligando as regiões leste-oeste do Município.”

Franciele Garcia: uma forma de preservar a história. Crédito da foto: Erick Pinheiro

O jornalista Eric Mantuan informa que o acordo com a Votorantim Cimentos é exclusivo para transporte de passageiros com finalidade turística. Lembra que os 8 quilômetros do projeto atravessam zona urbana de grande adensamento populacional. “A operação de um trem de carga nessas condições, além do empecilho para a população, é perigosa”, avalia. “Um trem transportando combustível, produto químico ou inflamável dentro de zona urbana, em caso de acidente o desdobramento seria muito sério.”

Mantuan lembra que há no trecho cerca de 10 passagens de nível (na comunicação com o trânsito urbano de veículos). Uma operação de passageiros exigiria vários horários durante toda a semana, enquanto que o trem turístico concentrará horários esparsos nos fins semana.

Vanderlei Balbino também defende o aproveitamento da linha. Crédito da foto: Erick Pinheiro

Munícipes aprovam reativação

A secretária Franciele Garcia, 25 anos, aprova o plano do trem turístico: “Seria legal, porque Sorocaba não tem muito disso. Tem um museu. Mas não são pontos visitados.” Ela acredita que o trem vai contribuir para satisfazer a curiosidade em torno da história da ferrovia: “É uma forma de preservar a história.”

O casal de namorados Rafael Publinato, 29 anos, e Aya Yoshimoto, 27 anos, também manifestaram expectativa. “‘É uma opção a mais de locomoção”, afirmou Rafael, enquanto Aya lembrou: “Crianças gostam dessas coisas (trens).” Da mesma forma, o ajudante geral Vanderlei Balbino, 55 anos, aprovou a reativação da linha férrea por considerar que ela está desativada, sem uso. Na sua visão, o projeto “dá uma finalidade” aos trilhos que atualmente só representam a memória de tempos antigos.

Para Rafael e Aya deverá ser uma opção a mais de transporte. Crédito da foto: Erick Pinheiro

Para o cozinheiro Davi Barbosa, de 46 anos, o aproveitamento da linha férrea deveria ser feito não só para finalidade turística, mas também para transporte público de passageiros e de mercadorias. “Já que vão colocar a linha em funcionamento, por que não?”, disse, referindo-se à ideia de ampliação de finalidade. “Se usassem a ferrovia para o transporte de pessoas, o custo seria bem menor, não precisaria ser tão traumático, e (a linha férrea) não deixaria de ser uma atração para as duas cidades”, justificou Davi.

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