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Relatório da ONU aponta importância das mulheres na luta contra a fome

Se as mulheres tivessem mesmo acesso aos recursos produtivos que os homens, rendimento de terras cultiváveis seria maior
Elas podem reduzir a fome
Em muitas comunidades rurais, as mulheres têm um papel ativo no cultivo de alimentos para a família. Crédito da foto: pixabay.com

Se uma quantidade maior de terras cultiváveis estivessem nas mãos das mulheres, a fome no mundo seria um pouco menor. É o que aponta o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), relatório elaborado pela Organização das Nações Unidas (ONU) que foi publicado na última semana. Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) se as mulheres tivessem o mesmo a acesso aos recursos produtivos que os homens, elas poderiam aumentar de 20 a 30% o rendimento de sua exploração. “Aumentos de produção desta envergadura poderiam reduzir de 12 a 17% o número de pessoas que passam fome no mundo”, calcula a FAO.

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As mulheres estão entre as principais vítimas da mudança climática, mas também podem ser a chave para ajudar a limitar seus efeitos. “Há uma falta de reconhecimento dos direitos das mulheres às terras, oficial e tradicionalmente”, constata Hindou Oumarou Ibrahim, coordenadora da Associação de Mulheres de Povos Autóctones do Chade. “Os homens possuem tradicionalmente as terras, e quando chega a hora de distribui-las, são dadas aos meninos e não às meninas”, continua ela.

Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), as mulheres representam mais de 40% da mão de obra em países em desenvolvimento. Nos países desenvolvidos, têm um papel importante nas explorações agrícolas, mas foram durante muito tempo relegadas ao papel de “acompanhante”. “Menos de 20% dos proprietários rurais deste mundo são mulheres”, indica a FAO.

O Grupo Intergovernamental de especialistas da ONU sobre Mudança Climática (IPCC) avalia o uso das terras e acesso à alimentação. O objetivo é descobrir como alimentar uma população que pode chegar a 10 bilhões de habitantes em meados do século, mas limitando o aquecimento climático e a degradação da natureza. “Nas populações, as mulheres, os mais jovens, as pessoas idosas e os pobres são os mais expostos às consequências da mudança climática”, destaca parte do resumo do informe.

Acesso aos recursos produtivos

“Em muitos países em desenvolvimento e nas comunidades rurais, as mulheres têm um papel ativo no cultivo de alimentos para a família”, mas também no abastecimento de água potável, afirma a espanhola Reyes Tirado, pesquisadora para a ong Greenpeace.

Quando se complica o acesso à água por culpa da mudança climática, mulheres e meninas se vêem diretamente impactadas, adverte.

Na agricultura, as mulheres enfrentam outras dificuldades: têm “menos possibilidades que um homem de ser proprietárias de terras ou de gado, de adotar novas tecnologias, de ter acesso a créditos ou a outros serviços financeiros, ou de se beneficiar de uma formação”, detalha a FAO.

Mais poderes para elas

Elas podem reduzir a fome
Se as mulheres tivessem o mesmo a acesso aos recursos produtivos que os homens haveria aumento de 20 a 30% no rendimento de sua exploração. Crédito da foto: pixabay.com

O informe do IPCC põe em evidência a importância de dar mais poder às mulheres. A primeira coisa que se deve fazer é reconhecer suas especificidades, estima Teresa Anderson, da ong ActionAid. “Os dirigentes costumam partir do princípio de que o homem é o ser humano padrão e isso se aplica aos agricultores”, ironiza. “Mas as mulheres fazem as coisas de forma diferente e enfrentam desafios específicos.”

“Na maioria das vezes, as agricultoras são quem alimenta as comunidades, enquanto os homens vendem” sua produção, acrescenta Hindou Oumarou Ibrahim. “São as mulheres que alimentam seus filhos, então deem a elas uma maior parcela de terra e as ajudem”, aconselha.

Outra medida eficaz é a formação de cooperativas de mulheres, para que elas tenham mais voz, segundo a coordenadora. Assim, as mulheres podem contribuir para modificar as práticas agrícolas e os costumes alimentares, elementos importantes na luta contra o aquecimento climático e a degradação dos solos.

São as mulheres que se ocupam quase sempre dos filhos. “O IPCC aponta que necessitamos de mudanças transformacionais no setor alimentar. As mulheres têm um papel-chave na educação (…) e na evolução dos hábitos de consumo”, explica Fernanda Carvalho, da WWF.

Uso e cultivo da terra precisa ser sustentável

O planeta precisa mudar urgentemente a maneira de usar e cultivar suas terras para garantir a segurança alimentar de seus habitantes e lutar contra a mudança climática, alertam os especialistas da ONU sobre o clima.

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) pediu, em um relatório publicado em Genebra, ações em curto prazo contra a degradação dos solos, o desperdício de alimentos ou as emissões de gases que provocam o efeito estufa pelo setor agrícola.

Elas podem reduzir a fome
O informe da ONU examina como a mudança climática afeta os solos. Crédito da foto: Emidio Marques / Arquivo JCS

As delegações dos 195 países membros do IPCC examinaram durante cinco dias o relatório, que tem como título “A mudança climática, a desertificação, a degradação dos solos, sua gestão sustentável, a segurança alimentar e os fluxos de gases do efeito estufa”.

O informe examina como a mudança climática afeta os solos utilizados para o cultivo, para o gado ou para os bosques, assim como questões de segurança alimentar, as práticas agrícolas e a maneira como o desmatamento modifica o clima.

Uso não é sustentável

A conclusão principal é que “nosso uso dos terras […] não é sustentável e contribui para a mudança climática”, afirmou a copresidente do IPCC, Valérie Masson-Delmotte.

Os sistemas alimentares geram, em seu conjunto, “até um terço de nossas emissões” de gases de efeito estufa, ressaltou Eduardo Calvo Buendía, copresidente do IPCC.

O documento afirma que não resta mais tempo, pois o aquecimento das terras emergidas alcançou 1,53°C, o1 dobro do aumento global da temperatura (incluindo os oceanos).

Os riscos de instabilidade em termos de abastecimento alimentar poderiam ser “muito elevados” a 2ºC, explicou Masson-Delmotte.

A margem de manobra é muito pequena se os países desejam limitar a mudança climática e seus efeitos sobre as terras e, ao mesmo tempo, alimentar corretamente uma população que mundial que no fim do século pode superar 11 bilhões de pessoas.

“Temos que pensar de maneira muito mais exaustiva como utilizaremos cada hectare. As terras têm que permitir cultivar nossa comida, proporcionar biodiversidade e água doce, dar trabalho a bilhões de pessoas e capturar bilhões de toneladas de carbono”, indicou Piers Forster, professor da universidade de Leeds (Reino Unido).

O relatório do IPCC publicado nesta quinta-feira é o segundo de uma série de três “informes especiais”. O primeiro, divulgado no ano passado, abordou a questão da possibilidade de conter o aquecimento global a 1,5°C. O terceiro e último, previsto para setembro, examinará os oceanos e a criosfera (geleiras, etc). (Da Redação, com informações da AFP)

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