Buscar no Cruzeiro

Buscar

O recomeço do pequeno Allan

15 de Agosto de 2020 às 00:01
Vinicius Camargo [email protected]

O recomeço do pequeno Allan Pela internet, Laís ficou sabendo que Allan precisava de um transplante de fígado. Crédito da foto: Arquivo Pessoal

O pequeno Allan Henrique Canossa Tomaz, de 1 ano e 9 meses, de São José do Rio Preto, e a auxiliar de produção Laís Francielle da Silva, 29, de Sarapuí, estarão, literalmente, eternamente ligados um ao outro. Graças a Laís, que lhe doou uma parte do fígado, o bebê ganhou uma nova chance de viver.

“A gente costuma falar que ela é a nossa ‘anjinha’ e que ele ganhou uma segunda mãe, pois ela salvou a vida dele”, diz a técnica em enfermagem Letícia Camila Barboza Canossa, 21 anos, mãe do menino, sobre a iniciativa de Laís.

O filho, conta ela, nasceu saudável. Mas, aos 15 dias de vida, a cor de seu corpo tornou-se bastante amarelada. Em uma consulta médica, foi diagnosticado com atresia de vias biliares (doença do fígado e ductos biliares). A partir daquele momento, apesar da pouca idade, ele enfrentaria, juntamente com a mãe, uma árdua batalha.

Menos de dois meses após o nascimento, Allan passou por uma cirurgia no órgão, para tentar corrigir o problema. A operação, porém, não obteve êxito. Nesse caso, a única solução era o transplante. Letícia e os familiares não poderiam ser os doares, pois não eram compatíveis. Além disso, durante a busca por um doador veio a pandemia de Covid-19 que enrijeceu os protocolos para a captação de órgãos em pessoas falecidas. As mudanças tornaram ainda mais difícil as buscas por um doador.

Busca pelo anjo

O recomeço do pequeno Allan O menino recebeu parte do novo órgão em 25 de maio deste ano. Crédito da foto: Arquivo Pessoal

Em 9 de outubro de 2019, a mãe iniciou, nas redes sociais, uma campanha para encontrar “o anjo da guarda do filho”, como ela se refere a quem faria a doação. O “anjo” não demorou a aparecer. No mesmo dia, Laís se ofereceu para ser a doadora. A moradora de Sarapuí conheceu o caso do bebê pelas redes sociais. Prontamente, se sensibilizou e decidiu ajudá-lo. A sua maior motivação foi a filha de 2 anos. Isso porque, se fosse a menina quem estivesse naquela situação, ela gostaria muito que alguém se disponibilizasse a salvar a vida dela.

Inicialmente, Letícia não acreditou na intenção de Laís em auxiliar o seu bebê, pois muitas outras pessoas já o haviam feito, mas desistiram. “Só fui ter certeza quando a vi pela primeira vez e ela falou: ‘estou aqui, em frente ao hospital.’ Naquele momento, pensei: ‘agora é verdade, é real, vai dar certo’”, relata.

[irp posts="273087" ]

 

O transplante

O processo para a cirurgia começou em 3 dezembro, no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo. No primeiro atendimento, Laís realizou os exames necessários. No segundo, a boa notícia: a sua saúde estava em perfeitas condições, ela era 100% compatível com o menino e o tipo sanguíneo dos dois era o mesmo: A+. A partir de então, a futura doadora passou a realizar, semanalmente, acompanhamentos médico e psicológico até a data da operação.

Inicialmente, o transplante foi marcado para o final de fevereiro deste ano. No entanto, em razão da pandemia do novo coronavírus, o procedimento foi temporariamente adiado. Os médicos informaram à doadora que, devido ao vírus, os riscos seriam triplicados. Contudo, como ela mesma disse, aquela era a sua missão e não havia margem para medo ou desistência. Corajosa, decidiu se submeter à operação, mesmo com o alerta dos especialistas.

O recomeço do pequeno Allan Allan nasceu saudável. A doença se manifestou aos 15 dias de vida. Crédito da foto: Arquivo Pessoal

Em 24 de maio, ela e o menino se internaram na unidade de saúde e, no dia 25, o transplante foi realizado. A cirurgia durou cerca de oito horas, quatro a menos do que a previsão, e foi um sucesso. O pós-operatório, igualmente, foi bastante positivo. Os dois se recuperaram rapidamente e tiveram alta antes do previsto. “Eu me sinto realizada de saber que deu certo. A pediatra disse que o meu fígado foi perfeito e feito para ele, porque não teve rejeição”, informa. Depois do transplante, nos primeiros dias, ela sentiu dificuldades para respirar, mas, com o auxílio da fisioterapia, o problema foi resolvido. Já o bebê não teve qualquer complicação.

Depois daquelas oito horas, a luta do filho chegara ao fim e, para Letícia, foi aliviador. Segundo ela, a jornada foi cheia de percalços. Precisou se mudar para da sua cidade natal para a capital paulista. Lá, não conhecia nada nem ninguém, mas, na mala, levou a coragem, a determinação, a fé e a enorme vontade de ver Allan curado. Como o marido não podia sair de São José do Rio Preto, por conta do emprego, a mãe a acompanhou. Também recebeu o apoio dos amigos e familiares. “Mesmo com tantas lutas, sempre mantivemos a fé e Deus nos deu a vitória. Foi um ano e sete meses de luta, mas, agora, a nossa vitória é para o resto da vida”, diz, emocionada.

Cerca de dois meses após o transplante, o menino leva uma vida normal. Brinca, corre, pula, se alimenta normalmente e faz todas as atividades das quais era privado pelas fortes dores. Atualmente, toma apenas alguns medicamentos para evitar infecções e a rejeição do novo órgão. Para a mãe, ele representa o verdadeiro significado da palavra milagre, além de ser um verdadeiro guerreiro. “O que ele passou em 1 ano e 9 meses eu não passei em 21 anos. Eu costumo falar que ele é um professor para mim, porque me ensina a superar novas coisas.” Agora, Allan tem duas datas de aniversário. A primeira é o dia do seu nascimento, 19 de outubro de 2018, enquanto a segunda refere-se a data do transplante, quando, aos 1 ano e 7 meses, ele “renasceu”.

O recomeço do pequeno Allan A mãe, Letícia e a doadora, Laís. A família cresceu. Crédito da foto: Arquivo Pessoal

[irp posts="266043" ]

Duas mães

A relação entre as famílias se mantém mesmo após o transplante. Elas trocam mensagens todos os dias. De acordo com Letícia, o filho é bastante tímido. Mas, quando conheceu Laís, gostou dela desde o início. Por isso, eles pareciam realmente estar predestinados. O menino ganhou uma segunda mãe e Letícia, uma irmã, conta. Até a mãe dela passou a considerar a doadora como filha, conta. Laís também se considera a nova integrante da família Canossa. Diz ter ganhado novos parentes, especialmente, mais um filho. “Eu o [Allan] considero como um filho do coração.” As marcas dessa relação jamais poderão ser esquecidas ou apagadas, pois estão bem gravadas nas cicatrizes nos abdomens dos dois. “Ver a cicatriz me faz lembrar o motivo pelo qual ela tá ali. Só eu sei o significado e o sentimento que ela tem”, pontua a doadora. (Vinícius Camargo)