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Há 100 anos, gripe espanhola assolava Sorocaba

Estimativa é que, em 1918, doença tenha matado cerca de 300 sorocabanos
Há 100 anos, gripe espanhola assolava Sorocaba
Em 1918, o começo da manifestação da gripe em Sorocaba foi registrado na Santa Rosália. Crédito da foto: Erick Pinheiro / Arquivo JCS

Há 100 anos, a gripe espanhola atingiu Sorocaba num momento da história do século 20 em que a cidade se recuperava dos prejuízos de uma epidemia anterior – de febre amarela -, em 1897 e 1900. Em 1918 o município vivia um processo de recuperação econômica. Foi a época em ganhou o rótulo de “Manchester Paulista” em razão da conquista recente de um parque industrial têxtil de grande importância.

Havia expectativas de progresso e desenvolvimento. Mas a gripe espanhola se instalou de outubro a dezembro de 1918 e veio para complicar os planos. E no mês de novembro daquele ano marcante – há exatos 100 anos – os sorocabanos enfrentaram o momento mais crítico da doença que matou cerca de 300 pessoas na cidade.

As tensões daquele período serviram de matéria para estudo “A gripe espanhola em Sorocaba e o caso da fábrica Santa Rosália, 1918: contribuições da história local ao estudo das epidemias no Brasil”, assinado pelos pesquisadores João Paulo Dall’Ava e André Mota. O trabalho está inserido no arquivo de pesquisas da USP. Dall’Ava e Mota são historiadores e mestres pelo Departamento de Medicina Preventiva/Faculdade de Medicina/Universidade de São Paulo (FMUSP).

Os autores citam um texto do historiador Aluísio de Almeida que resume o clima de apreensão provocado pela gripe espanhola em Sorocaba: “Médicos, prefeito, farmacêuticos, hospitais improvisados, escoteiros de bicicleta levando receitas aviadas até as casas dos doentes, fábricas paradas, um Deus nos acuda!” Com o título “Prof. Dr. José Ribeiro Neto, Sorocabano Benemérito”, o texto foi publicado pelo Cruzeiro do Sul na edição de 25 de dezembro de 1964 em homenagem a um dos médicos que participaram do combate à gripe em 1918.

Segundo o estudo de Dall’Ava e Mota, o começo da manifestação da gripe em Sorocaba foi registrado no bairro de Santa Rosália. No fim de outubro de 1918 começaram a ser noticiados os primeiros casos da doença na cidade. Eram dias em que a imprensa do País de uma forma geral negava a epidemia e insistia na tese de que os casos de gripe seriam benignos.

Proibição de sorvetes e futebol

Há 100 anos, gripe espanhola assolava Sorocaba
No dia 10 de novembro de 1918, o jornal informava que eram 8 mortes diárias e a estimativa era de que havia 3 mil gripados na cidade. Crédito da foto: Reprodução / Arte: Magno

Como prevenção contra um possível avanço da gripe, as autoridades municipais de Sorocaba proibiram até a venda de sorvetes e gelados de frutas entre as 10h e 17h. Nem mesmo clubes de futebol escaparam das medidas, sendo proibidos jogos e treinos. Sacerdotes mobilizaram nas igrejas orações específicas como proteção divina à população. Presos da cadeia local foram arregimentados para trabalhar na abertura de covas no cemitério.

No dia 6 de novembro já havia 671 casos de gripe notificados pelos médicos, e a imprensa começou a noticiar registros de mortes. Eram computados 12 óbitos pela gripe até então. No dia 10 de novembro, segundo o jornal “A Influenza”, a contagem subiu para 7 a 8 mortes diárias e a estimativa era de que havia 3 mil gripados na cidade — quantidade próxima a 10% da população.

Há 100 anos, gripe espanhola assolava Sorocaba

“O aumento dos óbitos em decorrência do impacto da epidemia elevou muito o número de enterros”, relata o estudo de Dall’Ava e Mota. “Para o tratamento dos gripados, foram utilizados o hospital da Santa Casa de Misericórdia, antigos hospitais de isolamento disponibilizados pela municipalidade e as sedes de associações filantrópicas e de mútuo socorro, que serviram como enfermarias”, informa o estudo dos dois pesquisadores.

A exemplo do que ocorria na cidade de São Paulo, a maior parte das vítimas em Sorocaba era formada por operários e muitos deles eram obrigados a continuar na ativa mesmo doentes. O estudo informa que no início de novembro de 1918 a fábrica Santa Rosália, devido ao grande número de gripados entre os operários, foi obrigada a fechar temporariamente. “Quase todos os operários da importante fábrica de tecidos Santa Rosália estão atacados de gripe. Por esse motivo aquele estabelecimento fabril fechou-se temporariamente”, descreveu um editorial jornalístico publicado em 8 de novembro.

Segundo publicação do Cruzeiro do Sul naquele período, a gripe causou mais de 300 mortes na cidade. Mas de acordo com os números oficiais, fornecidos pelo relatório do intendente municipal referente ao ano de 1918, durante a epidemia teriam ocorrido 8.213 casos de gripe e 142 óbitos, em uma cidade com população perto de 39 mil habitantes. Calcula-se que a gripe afetou 50% da população mundial, com 40 milhões de mortos. Em todo o Brasil, o cálculo de mortes abrange aproximadamente 300 mil pessoas.

Epidemia fechou fábricas da cidade por 15 dias

O estudo dos pesquisadores João Paulo Dall’Ava e André Mota também informa que a situação em Sorocaba chegou a tal gravidade no período mais crítico da gripe espanhola que, além da fábrica Santa Rosália, outras indústrias têxteis também foram obrigadas a interromper suas atividades. No dia 15 de novembro, o Cruzeiro do Sul noticiou uma reunião entre industriais e médicos locais para definir a situação das fábricas. A reunião ocorreu no dia 17, no gabinete do prefeito. Segundo o jornal, o tema da reunião era este: “Podem as fábricas reencetar os seus trabalhos já ou não?”.

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Prefeitura chegou a cogitar a formação de um cordão sanitário isolando a fábrica Santa Rosália do restante da cidade. Crédito da foto: Divulgação

Após a exposição do cenário epidêmico, o prefeito pediu ao médico Álvaro Soares que redigisse um parecer sobre a situação. Esse médico, que 18 anos antes desempenhara papel central no combate à febre amarela, afirmou em seu parecer que os gripados recém-curados e convalescentes não deveriam se expor a qualquer “intempérie sem gravame para si e para a população.” O risco tinha relação com o convívio de pessoas em ambientes fechados e por isso Álvaro Soares determinou a interrupção do trabalho nas fábricas por prazo mínimo de 15 dias.

Uma comissão de médicos assinou o parecer: João de Almeida Tavares, Odilon Goulart, Gentil Fontes, Eduardo Augusto Pirajá, Ribeiro Neto e Luiz de Almeida. Todos os industriais presentes acataram o documento de Álvaro Soares com respaldo da comissão de médicos: “Pela fábrica Votorantim, Pieri Roggieri; pela Companhia Nacional de Estamparia, Jorge Kenworthy; pela Companhia Fiação e Tecidos N.S. da Ponte, Italo Romano; pela Companhia Fiação e Tecidos Santa Maria, Eugenio Mariz”.

O estudo acrescenta que o industrial Frank Speers, coproprietário da fábrica Santa Rosália, não compareceu à reunião. Procurado pela prefeitura, o industrial declarou “não concordar com a resolução tomada pelos seus colegas, baseando-se na opinião que adrede lhe dera o médico da fábrica Sr. Dr. E. Pirajá”. Esse médico assinara o parecer de Álvaro Soares. E, com essa recusa de Frank Speers em acatar a decisão de seus “colegas” industriais, o prefeito decidiu que comunicaria todas as resoluções ao secretário do Interior e à diretoria do Serviço Sanitário.

O prefeito também alertou que, caso necessário, seria adotado um cordão sanitário para isolar inteiramente do resto do município a vila industrial de Santa Rosália: “… de cujas condições na presente epidemia, se pode avaliar, referindo que só ontem, até a hora em que são escritas estas linhas, registraram-se ali 8 óbitos devidos à gripe.”

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A notícia foi divulgada pelo Cruzeiro do Sul de 19 de novembro. O estudo observa: “Nas edições seguintes, o jornal não mencionou se de fato o isolamento ocorreu ou se foi apenas uma ameaça por parte do prefeito, nem tampouco especificou se a fábrica voltou a suspender o trabalho. Entretanto, a partir do episódio, o jornal, que era estreitamente ligado ao poder municipal, passou a noticiar os óbitos causados pela epidemia, destacando na vila operária da fábrica Santa Rosália um alto número de mortes, por meio de publicações como a do dia 20 de novembro, intitulada “Santa Rosália” (20 nov. 1918).” Ali em um mês foram 16 mortes e 900 pessoas infectadas.

O estudo também avalia que os industriais tinham grande poder na cidade naquela época e a postura de Frank Spears é uma prova dessa constatação. A decisão do empresário evidenciou uma contradição do médico Eduardo Pirajá, responsável pelo atendimento na Santa Rosália. Ao mesmo tempo que permitiu a continuação do funcionamento da fábrica durante o período crítico da epidemia, Pirajá assinou, junto aos outros médicos, o parecer de Álvaro Soares em favor do fechamento temporário das fábricas.

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“Essa contradição e a pressão velada exercida pelo Cruzeiro do Sul em seus artigos levaram Eduardo Pirajá a enviar uma carta ao jornal, na qual tentava explicar sua atitude”, analisa o estudo. Segundo o médico explicou na carta, a fábrica Santa Rosália funcionaria apenas cinco horas por dia, contando com os operários que não tiveram a moléstia e os que já tinham passado o período da convalescença e que estavam em condições de trabalhar.

No dia 30 de novembro, o Cruzeiro do Sul noticiou a reabertura das fábricas de tecidos da cidade para o dia seguinte, 1º de dezembro. Os óbitos, que em novembro eram em média de oito por dia, continuaram em dezembro com número aproximado de 1 por dia e foi registrado o fim do quadro de epidemia. (Carlos Araújo)

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