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Elas chegaram ao topo

Grandes empresas apostam nas mulheres em cargos de liderança para alavancar os negócios
Elas chegaram ao topo
Nice van Oorschot está à frente da Diretoria de Operações do grupo BestBuy Hotel, que tem seis quadros gerenciais, quatro deles ocupados por mulheres. Crédito da foto: Divulgação / Assessorias de Imprensa

Guerreiras, determinadas e ousadas, sem perder a feminilidade e o foco na carreira profissional. São vários os exemplos de mulheres que conquistaram cargos de chefia ou até mesmo a presidência de empresas, num universo corporativo dominado por homens, e, ainda, são responsáveis por resultados financeiros e institucionais sem precedentes nas organizações onde trabalham.

Com uma agenda de mais de 10 anos em prol da equidade, a Unilever Brasil tem hoje um quadro de mulheres que já ultrapassa os 50%. Reforço nos processos seletivos, área de recrutamento independente e formalizada e programas de desenvolvimento e mentoria específicos para as mulheres são algumas das iniciativas da empresa para garantir um acesso mais equilibrado. “Aqui praticamos a diversidade com inclusão de fato”, afirma a diretora de Recursos Humanos Carolina Mazziero. A forte presença feminina tem também relação com a ambição da empresa como negócio. “Ter o mercado consumidor refletido entre nossos colaboradores é estratégico e influencia diretamente os resultados.”

Com 17 anos de casa, a executiva entende pessoalmente a importância das intervenções e políticas afirmativas. Suas duas licenças-maternidade foram na Unilever. “Tive todo o suporte, além de flexibilizações como cargo compartilhado, que agora é uma política da empresa”, relembra.

Com um quadro de 70 colaboradores, a BestBuy Hotel, operadora que atende agentes de viagens fazendo reservas de hotéis on-line, tem 6 quadros gerenciais, 4 deles ocupados por mulheres. “Atualmente, de forma orgânica, as mulheres são maioria nas funções estratégicas da empresa”, diz Nice van Oorschot, à frente da Diretoria de Operações.

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Chieko Aoki é a dona da rede Blue Tree Hotels, onde as mulheres ocupam 109 dos 195 postos de liderança. Crédito da foto: Divulgação / Assessorias de Imprensa

Para ela, contar com ambos os gêneros em cargos de liderança contribui para a criação de um ambiente mais pluralizado, democrático e humano. “É também uma sinalização para o mercado de que estamos em sintonia com as expectativas da sociedade atual, que está cada vez mais atenta às boas práticas corporativas quando o assunto é diversidade.”

Quando se tornou Diretora de Marketing e depois presidente da rede de hotéis Caesar Park no final dos anos 1990, Chieko Aoki, hoje dona da Blue Tree Hotels, era uma das raras mulheres no Brasil a chegar ao topo da pirâmide corporativa. De lá para cá, a empresária enxerga o maior preparo como alavanca para o início das mudanças. “As mulheres passaram a dar mais continuidade aos estudos do que os homens, fazendo pós-graduação, MBA”, observa. “Essencial também é a inspiração em lideranças femininas de referência, como Luiza Trajano, do Magazine Luiza.”

O olhar corporativo direcionado à equidade de gêneros, no entanto, foi determinante para que o movimento ganhasse musculatura. “Alguém precisava dar um empurrão para mudar a situação e aqui a iniciativa partiu do setor privado”, testemunha. Na rede Blue Tree, as mulheres estão presentes em 109 dos 195 postos de liderança. “Temos uma cultura muito forte de alta performance com olhar humano, uma mentalidade que tem enorme afinidade com o jeito de pensar das mulheres.”

Minoria

Carolina Mazziero é diretora de Recursos Humanos da Unilever, na qual trabalha há 17 anos. Crédito da foto: Divulgação / Assessorias de Imprensa

Apesar de representarem mais da metade dos trabalhadores brasileiros (51,7%), as mulheres ainda são minoria no topo da hierarquia dos setores público e privado. Somente 37,8% dos cargos gerenciais existentes no País são ocupados por mulheres, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

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Desde o início dos anos 2000, países com sociedades historicamente mais horizontais vêm firmando leis para garantir a equidade de gêneros em cargos de liderança. A Noruega foi pioneira, ao aprovar em 2003 a lei que determina que ao menos 40% dos membros do conselho de administração das empresas sejam mulheres. França, Espanha, Holanda, Bélgica, Estados Unidos e Itália vieram na sequência, incluindo também a paridade salarial entre as regras do jogo.

No Brasil, onde não há políticas públicas que regulamentem a questão, pesquisa mostrou que, dentre 532 empresas entrevistadas, não houve evolução no número de CEOs mulheres em relação a 2018. De acordo com o estudo Panorama Mulher 2019, realizado pela consultoria de recrutamento Talenses em parceria com o Insper, elas eram 13% nesse cargo nas empresas, enquanto em 2018 chegavam a 15%. Para outros níveis hierárquicos, os resultados são um pouco melhores: as mulheres ocupam 26% posições de diretoria (em 2018, eram 14%) e 23% seguem em cargos de vice-presidência (em 2018, eram 20%), dentre as empresas pesquisadas.

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Em relação ao salário, as mulheres em grupos de diretores e gerentes ganham o equivalente a 71,3% do recebido pelos homens, segundo dados do IBGE. Entre os profissionais das ciências e intelectuais, a proporção cai para 64,8%, mesmo com uma participação feminina majoritária entre as cadeiras (63%).

Entraves

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Luiza Trajano comanda a rede Magazine Luiza e é referência em liderança feminina. Crédito da foto: Divulgação / Assessorias de Imprensa

O desafio para mudar esse cenário ainda está nos séculos de uma educação dedicada fundamentalmente aos homens. “Hoje cabe às organizações trabalhar as lideranças e cultivar equidade, diversidade e inclusão”, explica Mara Turolla, gerente de desenvolvimento de talentos e diversidade na Lee Hecht Harrison (LHH). “O desequilíbrio vem de fatores históricos e culturais. Se as condições não são iguais desde a base, como pode haver competição ou se falar em meritocracia?”

Segundo a especialista, o movimento das grandes corporações neste sentido é fundamental. Além de fixarem políticas internas eficientes, são estas as organizações que influenciam pequenos e médios gestores a transformar a cultura de suas empresas. “Essa diversidade não é só uma boa prática social, mas também um ponto estratégico para a saúde financeira dos negócios”, relata
De fato, o último relatório “A diversidade como alavanca de performance”, da McKinsey, que abrangeu mais de mil empresas em 12 países, observou que corporações com diversidade de gênero em suas equipes executivas são 21% mais propensas a ter lucratividade acima da média do que as outras. (Da Redação, com Bianca Zanatta – Estadão Conteúdo)

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