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A angústia de quem não consegue atuar

10 de Abril de 2021 às 00:01
Vinicius Camargo [email protected]

A angústia de quem não consegue atuar Crédito da foto: Fábio Rogério

Em um terreno baldio na avenida Ipanema, no Jardim Maria Eugênia, zona norte de Sorocaba, caçambas de caminhões coloridas, com desenhos de palhaços, e uma lona vermelha, branca e amarela indicam a presença de um circo ali. Porém, ao se aproximar do local, nota-se um cenário diferente do habitual. Há algum tempo, a lona principal, onde ocorrem os espetáculos, assim como o letreiro com o nome da atração, estão guardados em um caminhão. A situação do palco é a mesma. As fantasias, maquiagens e acessórios usados pelos artistas também permanecem nos armários dos trailers de cada um. Esta é a realidade do circo Global Max. Devido à pandemia de Covid-19, os espetáculos estão suspensos há mais de um ano. Desta forma, a alegria circense deu lugar à incerteza, à insegurança e aos obstáculos.

O Global Max foi fundado em novembro de 2015, na cidade de Itajubá, em Minas Gerais, pela trapezista Rizia Moura de Oliveira Signorelli, de 34 anos. Ela já trabalhava em circos desde os 27 anos de idade. Naquele ano, juntamente com o marido, decidiu criar o seu próprio. Além do casal, a atração começou com apenas mais sete integrantes, sendo a maior parte familiares de Rizia e do marido. Hoje, são 34 membros. No decorrer de seis anos, o picadeiro já passou por cerca de 2.800 cidades brasileiras, em diversos estados.

Desde a abertura, a atração havia ficado fechada apenas uma vez, em 2016. Na época, estava em Alto do Rio Doce, em Minas, quando um temporal atingiu a cidade e derrubou a estrutura. Consequentemente, a lona rasgou e, por isso, as apresentações foram interrompidas durante sete dias. Após uma semana, ela foi substituída e tudo voltou à normalidade. Ao contrário desse episódio, a atual situação vivenciada pelo Global não pode ser revolvida tão facilmente, nem tem prazo para acabar. Com a pandemia de coronavírus e as recomendações de distanciamento social, os oito espetáculos semanais estão suspensos desde o dia 16 de março de 2020. Com isso, os artistas estão sem renda e enfrentam dificuldades.

Segundo Rizia, atualmente, há 27 pessoas, incluindo seis crianças e uma idosa, no terreno, divididas em dez famílias. As demais foram para casas de parentes. Elas se mantêm com doações financeiras e de alimentos. Alguns artistas ainda vendem pipoca, maçã do amor e bolas, para terem renda. Mas, a verba obtida com as vendas é insuficiente para suprir todas as necessidades. As doações, igualmente, não são frequentes. “A gente não sabe como será o dia de amanhã. Hoje, a gente recebeu ajuda, a população ajudou, a Prefeitura ajudou. E amanhã? A gente fica naquela incerteza, naquela insegurança sobre como vai ser o amanhã”, fala.

A falta de recursos financeiros impede, inclusive, o circo de ir para outras cidades e prejudica até a manutenção das instalações. Rizia diz ter recebido, recentemente, uma doação em dinheiro. No entanto, o valor foi suficiente só para pagar o aluguel do terreno. De acordo com ela, os artistas não têm outra profissão e se sustentam exclusivamente com os recursos oriundos do picadeiro. Por esse motivo, a indefinição sobre o futuro preocupa. “A gente vive do circo, vive do público. Então, ver tudo isso parado, sem podermos trabalhar, dá muita angústia”, desabafa.

A agonia também é compartilhada pelo marido de Rizia, Raul Fernando Signorelli, de 31 anos. Um dos motociclistas do globo da morte, Raul é o quarto da família a desempenhar essa função. O bisavô, o avô e o pai já o faziam. Ele nasceu no circo e, aos 2 anos de idade, começou a acompanhar o pai nesse número. Sentado no colo dele, vivia a aventura de fazer manobras com uma motocicleta, dentro de um enorme globo. Desde então, não parou mais.

Em 31 anos inserido no universo circense, esta é a primeira vez em que o fundador do Global vivencia um cenário desse tipo. “Nunca vivemos nada parecido, nem quando houve a gripe suína. (Naquela época), só pediram para pararmos uma ou duas semanas. Depois, já voltamos a trabalhar”, conta, referindo-se ao surto de 2009.

Para tentar amenizar os problemas, Signorelli vendeu um caminhão e um carro do circo. Diante dessas circunstâncias, quem antes levava diversão às pessoas, hoje se mostra desanimado e tem a tristeza estampada no olhar. “A gente acaba se sentindo como se não fôssemos nada. Por causa de ficar parado e dessa incerteza, eu já pensei várias vezes em desistir. Mas só sei fazer as coisas dentro do circo, não tenho outra profissão”, pontua, cabisbaixo.

Yugo Feitosa de Sousa, 25 anos, se considera privilegiado por ser um dos personagens mais clássicos: o palhaço. Ele tornou-se artista circense aos 10 anos de idade. Também cresceu no circo e se tornou palhaço por influência do avô e do pai. Hoje, interpreta Danoninho. O personagem, entretanto, não faz o público gargalhar há mais de um ano. Nesse período, o rosto pintado e as roupas coloridas são só uma lembrança para quem lhe dá vida.

Casado e pai de três filhos — de 8 meses, 3 anos e 9 anos — o artista é responsável por todo o sustento da família. A preocupação, perceptível no rosto dele, em nada se assemelha ao sorriso de Danoninho. Yugo diz estar triste, não só por estar sem renda, mas, também, por não saber quando voltará a subir no palco. “O palco é o coração do circo, onde a gente se diverte, faz as pessoas se divertirem e se encantarem pela magia do espetáculo, além de tirar o nosso sustento. No palco, acabo esquecendo um pouco dos problemas. Agora, eles só vão acumulando, acumulando, acumulando”, exprime. A alegria de Danoninho faz falta na vida de Yugo. Afinal, para ele, é impossível não se entristecer com a ausência do alter-ego. “Estou um pouco mais reservado e mais silencioso”, conta.

Os olhos da trapezista Isabel Gage Arrighi, de 25 anos, se voltam para baixo e o sorriso dela some, nos momentos em que fala com saudade dos shows artísticos. Isabel ingressou no Global Max há cinco anos. Natural de Minas Gerais, deixou tudo para trás, incluindo a profissão de cabeleireira, para acompanhar o marido, também integrante da trupe. A artista conheceu o companheiro há cinco anos e, um ano após o primeiro encontro, decidiu se juntar a ele nessa aventura. Sem poder fazer o que mais ama, ela começou a trabalhar como atendente em uma adega na rua onde o circo está instalado. O esposo, igualmente, está em busca de emprego, mas, em meio à pandemia, está difícil conseguir uma oportunidade. “A gente tá parado e as contas não param de vir. Então, tem que ‘se virar’. Não tem outra solução”, destaca. O emprego e o salário amenizam as dificuldades, mas não a vontade de Isabel de voltar a fazer acrobacias no ar. “A gente fica o dia inteiro sem rumo. É muito ruim. A gente sente muita falta. A gente não quer fazer outra coisa. Queremos fazer isso, trazer alegria para todo mundo”, completa.

Vivendo de ajuda externa, artistas aceitam doações

A angústia de quem não consegue atuar A trapezista Rizia Signorelli: “Como será o amanhã?”. Crédito da foto: Fábio Rogério

O caso do Global Max veio à tona em março, após Rizia ter falado sobre as dificuldades dos artistas nas redes sociais. Nas postagens, ela também pediu ajuda. Ao saber da situação, no mesmo mês, a Prefeitura, por meio da Secretaria da Cidadania (Secid), foi ao local e fez um levantamento sobre as principais necessidades das famílias.

Depois, o Fundo Social de Solidariedade (FSS) organizou uma campanha de arrecadação de donativos para a comunidade circense. Além disso, segundo Rizia, pessoas e instituições, a exemplo de igrejas e o escritório da cidade do Sindicato dos Artistas e Técnicos de Espetáculos e Diversões do Estado de São Paulo (Sated), contribuíram diretamente.

Atualmente, os integrantes da atração se mantêm com as doações. Por isso, precisam continuar a receber cestas básicas, produtos de higiene, leite e fraldas descartáveis nos tamanhos G e XG. Eles também aceitam recursos financeiros. Para contribuir, o interessado deve entrar em contato pelo telefone (15) 99169-7373, com a própria Rizia.

Esperança de voltar à estrada mantém chama do circo acesa

A angústia de quem não consegue atuar Sem seu alter-ego Danoninho, Yugo tenta não sucumbir à depressão. Crédito da foto: Divulgação

Há mais de um ano vivendo em Sorocaba, a maior vontade de Rizia é voltar a percorrer as estradas Brasil afora. Almeja, ainda, vestir roupas e acessórios brilhantes, fazer um penteado diferenciado, uma maquiagem caprichada, subir no palco e observar os olhares atônitos da plateia, enquanto faz acrobacias em tecidos. Enquanto não é possível, a proprietária do Circo Global se abate, mas não perde a esperança de voltar a vivenciar tudo isso.

Uma das formas de manter viva a sua paixão por essa arte é planejar o futuro. Rizia já até começou a costurar novas bandeiras para as hastes de cada ponta da lona e a bordar os seus figurinos. Ela quer preparar tudo para os espetáculos retornarem da melhor forma possível.

Outra maneira encontrada por Rizia para não deixar a tristeza se potencializar é resgatar as lembranças. “De vez em quando, a gente se maquia, para lembrar (dos espetáculos)”, conta, com um sorriso enorme. A trapezista igualmente mostra, com orgulho, os trajes cuidadosamente guardados em seu trailer, aguardando para serem novamente usados.

Também saudosista, Yugo mantém as roupas de Danoninho limpas e dobradas com carinho. Assim como para a colega de profissão, as peças e a maquiagem tem um significado particular e especial, pois representam a si e as suas trajetórias. “Dá saudade de pintar o rosto, mas não sei quando vou fazer isso (novamente)”, diz o palhaço. (Vinicius Camargo)