Futebol
A Copa do Mundo 2026 transformou o mercado de apostas brasileiro em números nunca vistos
A Copa do Mundo, com seu novo formato, foi o primeiro grande torneio internacional disputado com o mercado brasileiro de apostas já totalmente regulamentado, e os números que começam a surgir não deixam margem para dúvidas: o impacto foi histórico.
A fase de grupos, disputada entre 11 e 27 de junho, movimentou entre R$ 2,95 bilhões e R$ 4,43 bilhões no mercado nacional de apostas esportivas. Junho foi o melhor mês registrado desde a regulamentação do setor, em janeiro de 2025. Julho, com o mata-mata até o final, somou mais R$ 3,64 bilhões. Juntos, os dois meses movimentaram R$ 8,08 bilhões, crescimento de 17,1% em relação ao mesmo período de 2025. O mercado regulado brasileiro fechou todo o primeiro semestre de 2026 com R$ 17,83 bilhões em receita. A Copa sozinha respondeu por quase metade desse número em dois meses. É difícil encontrar outro evento que tenha sido mexido tanto com o setor em tão pouco tempo.
O apostador brasileiro migrou para o celular
O comportamento dos apostadores mudou durante o torneio de uma forma que poucos tinham antecipado. Os acessos via navegador caíram em junho, registrando 1,99 bilhão de visitas, número 6,5% abaixo de maio e 4,7% abaixo da média dos cinco primeiros meses do ano. Os aplicativos, por outro lado, explodiram.
Nos dias em que a Seleção entrou em campo pela fase de grupos, a Betano e a Bet365 figuraram entre os aplicativos mais baixados do Brasil, com cerca de 70 mil downloads cada, superando redes sociais, bancos e serviços de streaming. O apostador brasileiro apostou em tempo real, descobriu mercados que não conhecia e fez isso pelo celular, com a mesma naturalidade com que assistia ao jogo. Quem ainda perdeu que as apostas eram coisa de nicho precisou rever essa ideia durante a Copa.
Cinco plataformas responderam por mais de 50% de todos os acessos durante junho: Betano liderou com 21,7%, seguida de Superbet com 11,5%, Brazino777 com 6,7%, Bet365 com 6% e 7games.bet com 5,3%. As casas que investiram em promoções durante o torneio saíram claramente na frente. Muitas ofertas ofereceram códigos promocionais de apostas exclusivos para os jogos do Brasil, com bônus de cadastro, apostas grátis e odds aumentadas que atraíram milhões de novos registros de quem nunca tinha apostado numa plataforma regulamentada.
O que aconteceu no resto do mundo
O Brasil não esteve sozinho neste movimento, e os números globais ajudaram a perceber a dimensão real do que aconteceu. Estimativas da firma de análise Macquarie apontam que o torneio movimentou mais de US$ 60 bilhões em apostas globalmente. Dois fatores estruturais explicaram o salto face às edições anteriores: o número de partidas aumentou de 64 para 104 com a expansão para 48 seletivas, e os mercados regulamentados cresceram de forma expressiva, sobretudo nos Estados Unidos.
Cerca de 65% da população americana teve acesso a plataformas legais de apostas durante a Copa de 2026, contra apenas 40% na edição do Qatar. Pela primeira vez, o maior mercado consumidor do planeta esteve em grande parte dentro do sistema regulado durante um Mundial. O volume refletiu isso, e não foi pouco.
No Brasil, a Copa acelerou também a migração do apostador do mercado ilegal para o legal. O relatório Fora do Radar 2.0, da LCA Consultoria Econômica, publicado em agosto de 2026 a pedido do Instituto Brasileiro do Jogo Responsável, mostra que a participação do mercado ilegal caiu de 46% em 2025 para 41% em 2026. Milhões de brasileiros que nunca tiveram conta em uma plataforma licenciada fizeram isso durante a Copa, atraídos pela facilidade, pelos bônus e pela cobertura ao vivo dos jogos.
Os números que o governo não esperava
A arrecadação fiscal também bateu recorde, e aqui os valores falam por si. Com a alíquota de 13% aplicada sobre a receita bruta das operadoras em 2026, apenas o mês de junho gerou entre R$ 384 milhões e R$ 576 milhões em impostos. O governo federal estima arrecadar R$ 4,4 bilhões adicionais em 2026 com o conjunto de medidas fiscais sobre o setor, e a alíquota está prevista para atingir 15% até 2028.
O dado mais revelado, porém, vem do Ministério da Fazenda: 94% do valor apostado pelos brasileiros retorna em forma de prêmios. De cada R$ 100 apostados, R$ 94 voltam para os jogadores. É um número que contraria a narrativa mais comum sobre apostas e que, convenhamos, surpreende mesmo quem acompanha o setor de perto. Apostar numa plataforma regulamentada não é apenas mais seguro do que numa ilegal. É estruturalmente diferente.
A Copa de 2026 acabou, mas o mercado que ela ajudou a moldar ficou. O Brasileirão, as Eliminatórias para a próxima Copa, a Liga dos Campeões, a Libertadores. O calendário esportivo não para, e o apostador que descobriu as plataformas reguladas durante o Mundial naturalmente vai abandoná-las. Os números do segundo semestre dirão se essa transformação é firmeza. Tudo indica que sim.