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No mundo, 850 milhões têm doença renal. Você é uma delas?

Artigo escrito por Enio Marcio Maia Guerra, professor do Departamento de Medicina da PUC-SP

Enio Marcio Maia Guerra

Um recente editorial da revista da Sociedade Internacional de Nefrologia apontou que o número de indivíduos com doença renal no mundo excede 850 milhões de pessoas. É um dado alarmante e extremamente significativo, quando se considera a população global de 7,7 bilhões, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU).

O número significa que, aproximadamente, 11% da população (1,1 pessoa em cada grupo de 10) têm graus variados de comprometimento da função renal, desde leve até os que necessitam de diálise para sobreviver. Para melhor exemplificarmos a importância desse número, ele representa quase o dobro dos pacientes diabéticos e mais que 20 vezes o número de pessoas com HIV/Aids no mundo. Isso torna as doenças renais uma das mais comuns globalmente.

Do ponto de vista econômico, para o Brasil, as doenças renais e algumas das principais doenças relacionadas a ela corresponderam a 13% das despesas do Sistema Único de Saúde (SUS) no triênio 2013-2015. Os gastos com o tratamento dialítico das doenças renais (hemodiálise e diálise peritoneal) dispenderam mais de 5% dos recursos do SUS. É quase uma situação de calamidade pública para um país em desenvolvimento como o nosso.

Ao ler os parágrafos acima, alguém poderia pensar que se trata de posicionamento alarmista ou exagerado.

Entretanto, as doenças renais, além de serem extremamente comuns, estão ligadas à elevada mortalidade. Em 2016, elas representaram a 13ª causa de morte no mundo e, em 2040, as previsões indicam que venham a ser a 5ª causa de perda de anos de vida.

Qual seria a explicação para esta gravidade que acabamos de apontar? A resposta está no fato de que as doenças renais constituem um amplo espectro de doenças com diversas etiologias, cursos clínicos e complexos graus de gravidade. O diabetes, a hipertensão arterial, as inflamações renais (glomerulonefrites), as infecções urinárias, as doenças congênitas, dentre inúmeras outras, constituem as que mais frequentemente conduzem o indivíduo a graus variados de comprometimento e insuficiência renal. A isso, devemos acrescentar os fatores de risco que podem ter papel relevante para agravá-las, como a obesidade, o sedentarismo e alimentação inadequada.

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O fato de a população brasileira estar aumentando sua expectativa de vida, segundo dados do IBGE, é outro fator que colabora para que estas doenças tenham maior frequência e gravidade. Em 2018, a expectativa de vida do brasileiro subiu para 76,3 anos. As mulheres têm maior longevidade (79,9 anos), quando comparadas aos homens (72,6 anos).
As doenças que levam ao comprometimento renal são, em geral, mais frequentemente observadas após a quarta década de vida. Porém, essa regra não é válida para as doenças congênitas e as inflamações renais.

Sobre a frequência ideal de consultas para avaliação de seu estado de saúde, a maioria das recomendações médicas indica uma visita anual até os 40 anos. Após essa idade, a periodicidade começa a variar, na dependência do aparecimento das doenças ou na necessidade de prevenção das mesmas. Tomem-se como exemplo a realização de mamografia para as mulheres e o exame de próstata para homens. Também a partir dessa idade começa a ser mais frequente o aparecimento dos sintomas da menopausa e a diminuição da audição e da visão, requerendo consultas mais específicas. Todas essas situações que demandam avaliação médica periódica estão bem incorporadas pela sociedade de forma geral e são temas de campanhas anuais de saúde. Constitui exceção a mulher que não realiza exames ginecológicos preventivos anuais. Os homens, apesar de algumas resistências, buscam igualmente a prevenção do câncer prostático.

Não se pode dizer o mesmo, contudo, para a busca ativa e tratamento precoce de doenças como diabetes e hipertensão arterial. Consequentemente, a doença renal, uma possível evolução destas condições, é igualmente negligenciada.

A importância e os riscos da doença renal são pouco conhecidos pela população em geral. Dessa forma, é extremamente comum, e se constitui a regra, o indivíduo só procurar atendimento médico quando a doença renal está extremamente avançada e os sintomas finalmente começam a aparecer. Nessa situação, pouco é possível fazer do ponto de vista de tratamento clínico, a não ser iniciar o tratamento por diálise, o qual se torna necessário para a manutenção da vida deste paciente.

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Outra situação agravante é que as doenças renais são frequentemente negligenciadas pelas autoridades de saúde e governos em muitos países. Mesmo nos Estados Unidos, utilizado diversas vezes como referência mundial, uma pesquisa realizada junto à população em 2016 mostrou que a consciência sobre doença renal é muito menor quando comparada a de outras doenças crônicas, como hipertensão e diabetes. De forma geral, a população relaciona o fato de urinar bem ao bom funcionamento renal. Isso não é verdade. Mesmo muito doentes, os rins conseguem continuar produzindo urina em bom volume.

Como reduzir ou evitar essa grave situação descrita? A ausência de sintomas específicos para as doenças renais torna o exame clínico insuficiente para o diagnóstico e avaliação. Deve-se lançar mão de dois exames simples e corriqueiros, disponíveis em qualquer nível de atenção à saúde: o exame de urina e a dosagem da creatinina no sangue.

O exame de urina, com seus componentes básicos, avaliação da proteína e contagem de hemácias e leucócitos, fornece ao médico informações fundamentais sobre o funcionamento dos rins. Já a creatinina é uma substância proveniente dos músculos, cuja eliminação pelo organismo depende do funcionamento normal dos rins. Quando estes começam a ser lesados, a creatinina não é totalmente eliminada e começa a aumentar no sangue. Isso permite a avaliação precisa do grau de comprometimento dos rins.

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Não há necessidade de que toda a população faça imediatamente esses exames como testes de triagem para doença renal. É recomendável, entretanto, que seu próximo check-up anual inclua esses dois exames simples e baratos. Para o SUS, o custo de um exame de urina é de R$ 3,70 e a dosagem de creatinina é ainda mais barata: R$ 1,85. Se você já tiver diabetes, hipertensão, utilizar anti-inflamatórios com frequência ou apresentar qualquer outra doença acima citada, estes dois exames são ainda mais importantes e devem ser repetidos periodicamente.

Caso o exame de urina ou a creatinina apresente alterações, mesmo que leves, seu médico deverá atuar, oferecendo-lhe as medidas adequadas que serão adotadas por você, com a finalidade de reduzir ou evitar problemas renais mais graves no futuro.

Além disso, se você conhecer a real condição de seus rins, poderá buscar informações e auxílio junto aos demais componentes da equipe multidisciplinar de saúde a saber, enfermagem, nutricionista, assistente social e psicólogo. Essa abordagem será benéfica e saudável, na medida em que o conhecimento da doença renal, em todos seus aspectos; favorecerá sua adesão ao tratamento; influenciará positivamente sua forma de encarar esta condição e poderá reduzir a velocidade de progressão da mesma.

Para finalizar, recomendo que, se for utilizar a internet para saber mais sobre doenças renais, tenha a cautela de buscar a orientação em sites confiáveis. Nesse sentido, indicaria a página da Sociedade Brasileira de Nefrologia (sbn.org.br), que dispõe de área específica para o público em geral aprimorar seus conhecimentos sobre qualidade de vida e saúde renal.

Por último, retorno à pergunta do título: “Você sabe se tem doença renal?”.

Enio Marcio Maia Guerra é professor do Departamento de Medicina da Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde da PUC-SP

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