Cruzeirinho

Uma conversa sobre princesas, príncipes, super-heróis e seres humanos

Cada pessoa tem o seu jeito de ser. Qual é o seu?
Uma conversa sobre princesas, príncipes, super-heróis e seres humanos
Alice adora lutas e a Mulher-Maravilha. Crédito da foto: Fábio Rogério

Filmes e livros sobre príncipes e princesas são bem legais, mas a gente sabe que eles fazem parte do mundo da fantasia, né? No entanto, algumas ideias passadas nessas histórias podem influenciar as pessoas ao nosso redor, como por exemplo o fato do príncipe ser obrigado a ter coragem e enfrentar muitos desafios para ficar com a princesa. Será mesmo que todos os homens têm coragem? E quem disse que as meninas precisam ser como nos filmes, parecendo frágeis e precisando de alguém que as defenda?

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Hoje o Cruzeirinho vai falar um pouco sobre esse tema, que muitos estão chamando de “desprincesamento”, ou seja, deixar de pensar como princesas e príncipes para ver as coisas de uma forma mais verdadeira, como na vida real. E olha que bacana o que a gente descobriu: muitas crianças não estão nem aí para essas ideias. Meninos e meninas sabem que existem muitos tipos de comportamento e que eles podem ser aquilo que quiserem.

Alice Rocha é uma dessas crianças. Ela tem apenas 4 anos e gosta é de luta, como jiu-jitsu, que seu pai pratica, e o muay thai, praticado pelo primo. Ela tem luvas, uniforme e vive brincando disso. Por enquanto não pode frequentar uma academia para aprender esses esportes porque não tem idade, mas aguarda ansiosa pelo momento. Por gostar de luta, Alice prefere brincar de super-heroína do que de princesa. “Não sou uma princesinha, sou a Mulher-Maravilha”, disse. Apesar de ser vaidosa, de gostar de passar batom e viver fazendo penteados, Alice não é do tipo frágil. Ela se diz forte e guerreira, daquelas que não tem medo das coisas. Conta que até tem bonecas das princesas da Disney, mas prefere mesmo a Monster High. “Porque ela é forte.”

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Victor não gosta de brincadeiras violentas e prefere o lego. Crédito da foto: Fábio Rogério

Victor Trevisan de Souza, 9 anos, conta que não gosta muito de bonecos de príncipes e nem de super-heróis. “Olha, eu tinha quando era menor”, afirma. Para ele, não tem essa de se parecer com um príncipe ou mesmo herói. “Várias pessoas falam que sou muito gentil, essas coisas, mas nem sempre sou assim, e também nem sempre obediente. Outro dia minha mãe mandou fazer lição mas eu demorei um pouco”, lembra. Para Victor, essas ideias de ser sempre perfeito são do mundo da fantasia. “E a realidade não é igual à fantasia. Os filmes mostram príncipes, princesas sempre com as mesmas personalidades, nunca mudam e no dia a dia nem sempre é assim”, comenta.

Outra coisa que Victor já sabe é que os homens não precisam ser sempre corajosos ou gostar de brincadeiras de lutas e de violência. “Eu, por exemplo, gosto de brincar de Lego. Tenho um com peças retangulares que dá pra fazer muitas coisas. Uma vez consegui montar uma montanha russa”, diz, sobre o seu feito, que aliás foi bem difícil.

Cada um tem seu jeito

Clara Filosi Cesar Morais de Castro, 12 anos, afirma que geralmente as pessoas associam princesas às meninas, mas cada menina tem seu jeito de ser, que muda de pessoa para pessoa. Já nos filmes e livros, as princesas e príncipes sempre aparecem com o mesmo tipo de personalidade. “A gente não vê uma variação. As princesas geralmente estão associadas a comportamentos como gentileza, são sempre educadas e bondosas, isso é bom, mas está ligado à inocência, a garotas delicadas, sabe?”, questiona Clara, acrescentando que ser delicada não é o seu caso. “Sou uma menina que gosta bastante de esporte, de história, filmes de ação, suspense e magia, já se eu tivesse uma personalidade de princesa iria preferir filmes românticos”, diferencia.

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Clara diz que as pessoas têm personalidades diferentes. Crédito da foto: Fábio Rogério

Clara afirma que é uma garota educada, mas também tem os seus momentos de “ogra”. “Tenho algumas bonecas, mas são da Barbie, da época que eu era mais menininha, mais para princesa. Agora elas ficam num canto como decoração e memória”, conta. As brincadeiras preferidas de Clara são jogos de tabuleiro, dançar e cantar, além de esportes como vôlei e basquete. “As pessoas deveriam parar de dizer que menina não deveria gostar de jogar bola e menino não pode brincar de boneca, essas coisas.” Clara lembra que umas amigas, que estudaram em escolas estaduais, falaram que nessas escolas costumam separar meninos e meninas na aula de educação física. “Na minha escola não é assim. Sempre procuram equilibrar os times.”

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Augusto afirma que não tem problema gostar de bichos de pelúcia. Crédito da foto: Fábio Rogério

Augusto, 10 anos, irmão de Clara, pensa a mesma coisa. Para ele não tem nada a ver isso de dizer que homem não chora, por exemplo. “Sou bem sensível na verdade. Não gosto de agressão, de violência e nem de brincadeiras de luta”, conta. Augusto prefere brincar com videogame, dinossauros e bichos de pelúcia, que aliás adora. “Não vejo o menor problema nisso”, diz, acrescentando que também gosta de programas de ciências e de astronomia, e de desenhar e escrever textos.

O tema é bem atual

“Desprincesamento” virou assunto de palestras e oficinas. Tem inclusive gente especializada no tema, como a pedagoga Larissa Gandolfo e a jornalista Mariana Desimone, que estão visitando algumas cidades para falar sobre isso para crianças e também adultos.

Mariana, que é mãe do Nícolas, 8 anos, e Letícia, 6 anos, costuma explicar para as pessoas que não tem porque proibir uma criança de brincar do que ela quiser, seja de comidinha ou de jogar futebol. “A gente mostra que tem diversos caminhos para seguir. As meninas não precisam gostar de rosa porque é de princesa, elas podem usar as cores que quiserem, podem gostar de esporte, de boné…”, afirma.

De acordo com Mariana, a proposta é mostrar que existem outras formas de ser. “E não tem problema se você gosta de rosa, de princesas. O que queremos mostrar é que não existe apenas isso, não é a única opção. A gente tem escolha. Espero que as meninas e meninos possam ajudar o mundo onde a gente vive ser um lugar mais justo, tanto para meninas como meninos.” (Daniela Jacinto)

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