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Crianças de Sorocaba fazem amizades por intermédio das cartas

Mesmo distantes, crianças de Sorocaba e Araçoiaba se tornaram amigas trocando correspondências

Num mundo apressado, em que as pessoas trocam mensagens instantâneas, por meio de aplicativos como WhatsApp e Messenger, reservar um tempo para escrever uma carta é inviável, mesmo porque a mensagem demoraria para chegar e a resposta, mais ainda. Mesmo assim, algumas pessoas ainda mandam cartas, mas para situações específicas. Esse meio de comunicação acabou adquirindo uma outra função, que não está ligada à pressa, mas sim a um mimo.

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Trocar cartas nos dias de hoje é trocar delicadezas, é mostrar ao outro que você dedicou um tempo a mais para ele, que você fez questão de colocar sua letra em um papel e ainda caprichar para que a mensagem seja entendida. Trocar cartas é dar um pouco de si, e nesse sentido, vale caprichar num desenho, escolher um papel perfumado ou colar adesivos.

É preciso ainda saber direitinho como se escrevem as palavras para não encher de erros. A verdade é que escrever carta exige conhecimento, afinal há algumas regras importantes. Tem de colocar data, fazer parágrafo e não esquecer das vírgulas em seus devidos lugares. Tem também o jeito certo de preencher o envelope, pois há o lado da identificação do remetente (você) e o do destinatário (para quem está endereçando). Enfim, dá um trabalhão, mas como vale a pena.

Se você um dia trocou cartas com alguém, já sentiu essa emoção: a melhor parte é quando vem a resposta. Receber uma carta é quase como ganhar um presente daqueles que você esperava há muito tempo.

Amizades que nasceram com as cartas
A professora Melissa Baccelli Michelacci. Crédito da foto: Fábio Rogério

Como atualmente são poucas as pessoas que escrevem cartas, foi com o objetivo de proporcionar aos seus alunos essa vivência que a professora Melissa Baccelli Michelacci desenvolveu com eles um projeto bem legal. Como Melissa leciona em uma escola de Araçoiaba da Serra e em outra de Sorocaba, ela incentivou os estudantes de cada unidade de ensino a trocarem correspondências, mesmo sem nunca terem se visto.

Depois de seis meses escrevendo cartas e já formado uma grande amizade, as turmas das duas escolas municipais — Professora Maria Mizue Nagaishi Florenzano, de Araçoiaba da Serra, e Professor Paulo Fernando Nóbrega Tortello, de Sorocaba –, se reuniram na segunda-feira passada para enfim se conhecerem pessoalmente. Imagina só: a emoção foi muito grande. Não faltaram abraços, sorrisos e trocas de presentes. Aliás, teve até música.

Samuel Douglas Ribeiro Romani, 10 anos, de Araçoiaba, surpreendeu ao levar o saxofone. Ele fez questão de tocar para os novos amigos: Miguel Honório de Andrade, 10 anos, e Mateus Oliveira Hipólito, 11 anos.

O trio parecia bem afinado, não apenas no sentido musical — a afinidade se fez presente nos gostos. Quando Samuel foi tocar para eles, imediatamente Miguel passou a segurar a partitura, enquanto Mateus assumiu como maestro. Os três mostraram a todos um exemplo de companheirismo. E deram um show bonito de se ver.

Mas e com relação às cartas? Bem. Não foi assim tão fácil no começo. Principalmente no caso de Samuel, que tinha de responder duas cartas por vez. Isso aconteceu porque na escola de Sorocaba tinha mais alunos do que na de Araçoiaba, então alguns estudantes se propuseram a falar com mais de uma pessoa. “Deu um pouco de trabalho. Às vezes passava o dia todo escrevendo carta”, contou Samuel. Também teve dificuldade com a pontuação e com os assuntos que iria falar.

Amizades que nasceram com as cartas
Todos capricharam na hora de preparar as cartas para os amigos. Crédito da foto: Divulgação

A professora levava e trazia as correspondências. No entanto agora, se quiserem continuar, é por conta de cada um. Os três amigos pretendem continuar se falando, mas pela internet. Samuel justifica: “Não passa carteiro no meu bairro”, disse. “Mas foi uma experiência gostosa escrever carta, valeu a pena.”

Miguel confessa que também tinha dificuldade em puxar os assuntos. Uma coisa interessante é que quando não conhecemos alguém, ficamos imaginando como é a pessoa. Miguel pensava que seu amigo de Araçoiaba fosse loiro e mais alto. Ele disse que foi bem legal poder conhecer como o Samuel realmente é.

Já o Mateus disse que durante a troca de cartas com Samuel, gostava de saber o estilo dele, o gosto, a marca das coisas que usa e os lugares que frequenta. Em uma dessas cartas, descobriu que o amigo tocava. Os dois acabaram descobrindo algo em comum: pertencem à mesma religião.

Questionado sobre a experiência de escrever cartas, Mateus disse que considera prático conversar pelo telefone, mas por carta é mais legal. “A gente fica ansioso para ver o que a pessoa vai responder, mas tinha dias que a resposta não chegava”, comentou.

Ainda conforme Mateus, ele sentiu diferença em como ficou sua escrita, pontuação e parágrafo depois de escrever cartas. “Melhoraram. Até a professora notou isso.”

Mateus fez questão de deixar um recado para os leitores do Cruzeirinho: “Queria falar que não precisa ficar só na internet. Escrever carta desenvolve a escrita, a leitura, e você aprende um modo antigo de quando não tinha tecnologia. É uma boa experiência”, recomenda.

Trocas de presentes

Amizades que nasceram com as cartas
Samuel e Emilly gostaram de, enfim, se encontrar pessoalmente. Crédito da foto: Fábio Rogério / Arquivo JCS (11/11/2019)

Samuel Henrique Silva Fernandes, 9 anos, de Araçoiaba, e Emilly Ramos da Silva, 11 anos, de Sorocaba, também comemoravam a amizade. “Eu pensava que o Samuel fosse um pouco mais alto do que eu”, disse. Eles acharam bem legal verem que são do mesmo tamanho.

Amizades que nasceram com as cartas
Luiza e Rayzza trocaram bijuterias e comemoraram a amizade. Crédito da foto: Fábio Rogério / Arquivo JCS (11/11/2019)

Vaidosas, Luiza Helena Arruda Gomes, 9 anos, de Araçoiaba, e Rayzza Vieira de Almeida, 11 anos, de Sorocaba, trocaram bijuterias. “Aprendi muita coisa com ela, é uma pessoa especial para mim”, disse Rayzza. Ambas planejam continuar se comunicando, mas não sabem se o farão pela internet ou cartas.

Amizades que nasceram com as cartas
Gabriel ganhou uma medalha. Crédito da foto: Divulgação

Gabriel Rodrigues, 10 anos, ganhou um presente bem significativo do seu novo amigo Kauê Henrique da Silva, 10 anos, de Araçoiaba: uma medalha, resultado de uma conquista que o Kauê teve e quis compartilhar. “Foi muito legal ter conhecido ele”, disse, feliz.

Amizades que nasceram com as cartas
Pietro foi o que mais escreveu cartas. Crédito da foto: Divulgação

Já Pietro Gabriel Nascimento Miranda, 10 anos, da escola Paulo Tortello, escrevia todos os dias. Aliás, de toda a sua turma, ele foi um dos que mais escreveu cartas.

Bilhetes, diário e até karaokê

Amizades que nasceram com as cartas
Sophia Maciel de Sousa, 10 anos. Crédito da foto: Divulgação

Na hora de aprender bem a escrita e a leitura, vale tudo. Foi isso o que a professora Melissa pensou na hora de ensinar os seus alunos. Mas quis desenvolver algo que fosse significativo para eles. Tudo começou com o Painel de Bilhetes. Cada estudante criou um envelope com seu nome, para serem depositados recados entre eles. Melissa explicou que um bilhete é como um SMS, para mensagens curtas.

Em seguida, veio o Caderno de Perguntas, com questionários a respeito de si mesmos, como nome, idade, que cor preferida… Na sequência, a professora leu com os alunos o livro “Diário de um Banana”, de Jeff Kinney. Foi quando sala de aula ganhou um diário para os meninos e outro para as meninas. “Tem o dia certo de cada um levar para casa e contar suas experiências”, disse Melissa.

As palavras ainda foram trabalhadas de um outro jeito divertido: por meio de karaokê. “Ao ler as letras da música para ir cantando, a criança começa a prestar atenção em como se escrevem as palavras”, disse.

Por fim, é que vieram as cartas. Esse trabalho, afirmou Melissa, foi baseado em uma experiência de vida, de quando era criança e lia o Cruzeirinho. “Tinha uma seção que as crianças deixavam endereço para correspondências. Eu chegava da escola e tinha muitas cartas para mim”, lembra. Melissa contou isso para seus alunos e todos ficaram com muita vontade de trocar cartas.

Escreva também!

Nesta reportagem já demos alguns detalhes de como escrever uma carta, mas se você ainda ficou com dúvidas pode perguntar para alguém da família ou mesmo consultar no YouTube, onde há vários vídeos sobre o tema. Que tal começar escrevendo cartas para o Cruzeirinho? Anote nosso endereço: Aos cuidados da equipe do Cruzeirinho. Avenida Engenheiro Carlos Reinaldo Mendes, 2.800, Alto da Boa Vista. CEP 18013-280, Sorocaba, São Paulo. Estamos esperando suas correspondências! (Daniela Jacinto)

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