fbpx
Cruzeirinho

Crianças dão exemplo de amor ao próximo com gestos de solidariedade

Mesmo com pouca idade, meninos e meninas são capazes de grandes gestos de amor ao próximo
Solidariedade entre as crianças
Feliz da vida com a boa ação, Thierry mostra como ficou seu novo visual. Crédito da foto: Fábio Rogério / Arquivo JCS (24/9/2019)

Ele queria muito deixar os cabelos crescerem, inicialmente para copiar o estilo de um jogador de futebol que admirava. Mas certo dia, Thierry Lorenzo Sato, 8 anos, teve vontade de cortar porque, infelizmente, passaram a tirar sarro e chamá-lo de menina.

Leia mais  A solidariedade que anda de bicicleta não importa quantos quilômetros

 

Em conversa com a mãe, Élica, veio a sugestão de esperá-los crescer mais um pouco e doá-los, depois de cortados, para o hospital Gpaci. Esse hospital se dedica ao tratamento do câncer infantil e aceita doações de cabelos para confeccionar perucas para crianças que ficam carecas.

Isso acontece porque é um efeito da medicação que elas precisam receber. Depois de curadas, seus cabelos voltam a crescer, mas na fase do tratamento, muitas crianças — principalmente as meninas — preferem usar perucas.

Thierry então aguentou ainda muito sarro e foram dias difíceis, até que chegou o momento de cortar os cabelos. Ele conta que estava muito feliz, porque sabia que tudo o que passou foi por uma boa causa. “Eu quis esperar crescer mais para fazer a doação, estou contente”, disse ele, que aguardou um ano e meio para deixar os cabelos no tamanho ideal de corte.

A reportagem acompanhou o Thierry até o salão de cabeleireiro e foi interessante ver como é o procedimento para quem deseja cortar para doação. A primeira orientação é que os cabelos não devem ter produtos químicos, ou seja, não podem ser cabelos com tintura ou descoloridos — eles precisam ser naturais.

Antes do corte, o cabeleireiro divide em mechas, já separando para a doação. “Esse é um dia muito especial para mim, porque além de fazer a doação, estou mudando meu visual”, disse Thierry. Pela primeira vez, ele quis os cabelos bem curtinhos e com um risco na lateral, para ficar bem moderno.

“Pensar no próximo é muito bom, nos últimos dias foi mais difícil por causa do calor, além de algumas pessoas acharem que eu era menina”, contou. Após o corte, ele fez questão de tirar uma foto mostrando as mechas que seriam doadas. Quando levou ao Gpaci, Thierry ganhou até um certificado.

Solidariedade entre as crianças
Thierry resistiu por bastante tempo à vontade de cortar os cabelos para poder doá-los. Crédito da foto: Fábio Rogério / Arquivo JCS (24/9/2019)

Quem recebe fica muito feliz

Quando o Gpaci recebe as mechas, encaminha para um profissional que irá costurar e preparar as perucas. Esse serviço é feito de forma gratuita para os pacientes, que recebem perucas de vários modelos. Tem opções com cabelos curtos, compridos, loiros, castanhos e até com mechas (feitas com produtos específicos).

Há perucas para mulheres e para homens, mas conforme a psicóloga Evelin Melissa de Araújo, durante esses nove anos em que trabalha no local, apenas um menino quis usar peruca. “Eles não dão bola”, disse. Já as meninas são mais vaidosas e, por gostarem de se enfeitar, não querem ficar sem cabelos.

Com uma peruca dá para mudar o visual de loira para morena em instantes, combinar cor e corte do cabelo com o estilo das roupas e até ver que corte fica melhor.

Rayane Vitória Feliciano do Nascimento, 13 anos, conta que durante o período de tratamento contra o câncer, que durou um ano, teve vários modelos de perucas, mas devolveu ao Gpaci. Guardou apenas uma. Quando está calor, ela já não coloca mais peruca, afinal seus cabelos começaram a crescer. Mas se está frio ou ela quer um novo visual, aí prefere usar.

Solidariedade entre as crianças
Mesmo com os cabelos crescendo, Rayane gosta de usar esta peruca porque foi a primeira que ganhou. Crédito da foto: Fábio Rogério / Arquivo JCS (7/10/2019)

Essa que Rayane guarda e que fez questão de falar com a reportagem usando é a peruca que ganhou logo no início do tratamento. “Ela faz parte da minha história e não pretendo dar para ninguém. Gosto de usar porque representa muito para mim.”

Ela, que tinha cabelos pelos ombros, disse que foi um pouco difícil cortar. “Depois que eu soube que poderia usar peruca, fiquei feliz”, disse. Afastada da escola durante um ano, Rayane afirma que agora está recuperada e não vê a hora de voltar ao convívio dos amigos. “Falta apenas fazer fisioterapia para voltar a andar”, complementa.

Rayane elogia a atitude de quem deixa os cabelos crescerem para fazer doação. “Acho muito bom fazerem isso, porque tem muitas meninas querendo usar peruca, muitas se abalam quando o cabelo cai, então é bom ter cada vez mais pessoas doando, para que tenha perucas suficientes para todos que precisam.”

Assim como Rayane, a Jamile Vitória Ferreira Lopes, 11 anos, também ficou um ano em tratamento contra o câncer. Ela mora em Sarapuí e tinha de viajar uma hora para chegar a Sorocaba para se tratar.

Jamile conta que tem três perucas — uma loira com mecha azul e rosa, uma com cabelos pretos e outra castanhos. “Quis ficar com elas para guardar de lembrança”, afirma. Ela também curte muito usar lenços e desses tem vários, são 30!

Solidariedade entre as crianças
Jamile tem três perucas. Esta, da foto, ela emprestou especialmente para sair nesta reportagem. Com o fim do tratamento, seus cabelos estão voltado a crescer. Crédito da foto: Fábio Rogério / Arquivo JCS (7/10/2019)

Há dois meses, Jamile voltou para a escola, mas para sua surpresa, os colegas estão tirando sarro de seus cabelos curtos. “Ficam me chamando de moleque, fico triste”, desabafa. Ela comenta que não vai à escola de peruca, porque ao brincar bastante e suar, a peruca fica pinicando. Ela prefere ir com os lenços.

A mãe de Jamile contou que tem dias que ela volta nervosa para casa, passando mal. Quando os professores souberam que estavam tirando sarro dela, tentaram conversar com os alunos, mas eles continuam. Para evitar essa situação, ela decidiu que irá colocar um aplique e pronto, assunto superado!

Enquanto umas crianças, como seus colegas de escola, tiram sarro, outras crianças, como o Thierry, que Jamile nem conhece, têm atitudes mais nobres. Ela ficou sabendo do bullying que Thierry também passou ao deixar seus cabelos crescerem para doação e achou bem legal a atitude dele, de não desistir. “Também penso em deixar meu cabelo crescer para doar”, planeja.

Doações de perucas são para todos

Solidariedade entre as crianças
Na hora de cortar, os cabeleireiros já fazem de um jeito certo para preservar os cabelos.

O Grupo de Pesquisa e Assistência ao Câncer Infantil (Gpaci) tem 60 perucas e as doações são feitas não apenas aos pacientes atendidos pelo hospital.

Crianças e até adultos que estejam em tratamento contra o câncer, em qualquer instituição, podem ir até o Gpaci e solicitar uma. Para mais informações, basta ligar de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h, no telefone (15) 2101-6555.

Para doar os cabelos, também basta cortá-los — na hora de fazer isso, avise o cabeleireiro, que normalmente já sabe como fazer — e levá-los até o hospital. O Gpaci fica na rua Coronel José Pedro de Oliveira, 678, Jardim Faculdade. (Daniela Jacinto)

Comentários