Cruzeirinho

Crianças contam como lidam com os erros que cometem

Errar faz parte do processo de aprendizagem. É chato, mas não é o fim do mundo
Como você lida com o erro?
“Se você fez algo errado, corra atrás e tente reparar, não deixe isso para trás”, ensina a Antonella. Crédito da foto: Fernando Rezende

“Quando faço algo de errado, eu tento reparar. Tipo quando brigo com alguma amiga, eu tento fazer as pazes. Já na escola, quando não vou bem e erro, eu estudo e tento, até acertar. Não desisto fácil.” É assim que age em sua vida a Antonella Ferreira Cioccari, de 11 anos. Antonella sabe que errar faz parte do processo de aprendizagem de todo o ser humano. É claro que é muito chato quando falhamos, a gente fica se sentindo mal, mas não é o fim do mundo. Há alternativas como pedir desculpas ou fazer algo por quem desapontamos.

Leia mais  Uma conversa sobre princesas, príncipes, super-heróis e seres humanos

 

A Antonella lembra que já brigou com uma amiga muito querida e quando isso aconteceu. Ela reconheceu que tinha falhado, procurou a menina e fizeram as pazes. “Me sinto bem triste quando falho, mas se eu consigo consertar, isso me faz ficar feliz, aí fico realizada”, afirma. Conforme ela, reconhecer que errou e pedir desculpas faz parte de seu jeito de ser, já desde pequenininha. “Sempre fui assim”, conta.

Também quando erra na escola, principalmente na prova, ela procura melhorar. “Quando estava no segundo ano, tirei nota vermelha na prova. Eu tinha acabado de mudar de escola e essa era mais forte do que a anterior, mas aí me esforcei mais e na próxima prova tirei nota maior.”

Para todos os que estão lendo esta reportagem, Antonella deixa um recado: “Se você fez algo errado, corra atrás e tente reparar, não deixe isso para trás.”

Pedro faz desenho e escreve bilhetes

O pequeno Pedro Augusto Oliveira Lima Granado, de apenas 5 anos, também já tem consciência sobre suas atitudes. Quando faz algo de errado, ele afirma que pede desculpa, faz cartão — inclusive com colagens! — e desenho para agradar as pessoas. Quando apronta alguma “arte”, a mamãe pede para ir para o quarto, para pensar no que fez. “Aí eu fico lá pensando. Às vezes penso que fiz uma coisa ruim.”

Como você lida com o erro?
Pedro entupiu a pia do banheiro com uma moeda. Crédito da foto: Fernando Rezende

Outro dia, Pedro jogou uma moeda da sua coleção no ralo da pia e o resultado é que entupiu. Ele também já chegou a riscar a parede com lápis de cor. Para reparar, ele então faz carinho na mamãe. “Um dia fiz tudo o que ela gosta: coceirinha na cabeça e massagem”, conta. Ainda conforme Pedro, sua mãe e sua tia conversam bastante com ele a respeito das coisas. Apesar de tentar consertar quando falha, Pedro sabe que errar é normal.

Gustavo usou o próprio dinheiro para repor algo que não era seu

Para Gustavo Tavares Narzisi, 6 anos, o que vale é contar a verdade. Ele pegou, escondido, um chocolate de sua irmã, Gabriela, de 2 anos, mas depois falou para a família o que tinha acontecido. “Eu estava no carro, aí peguei a sacola de compras, abri meu ovo de chocolate e comi, mas a surpresa era de menina e então eu peguei o outro, que era da minha irmã, por causa da surpresinha, mas acabei comendo o dela também”, disse.

Na realidade Gustavo pegou primeiramente o da irmã, acreditando que era o seu. O outro, então, ficaria para a menina, mas aí ele concluiu que a surpresa de menino estava no ovo dela. “Depois falei para a minha tia Patrícia o que tinha acontecido, porque ela iria procurar os ovos e não ia encontrar. É melhor falar a verdade do que a mentira”, conclui.

Como você lida com o erro?
Gustavo aprendeu que o mais importante é contar a verdade. Crédito da foto: Fábio Rogério

Gustavo justificou que comeu o ovo da irmã porque aí já estava aberto. “Tive de comer porque senão ia estragar, sujar, e eu não queria que minha irmã ficasse doente”, disse.

Quando contou a verdade, a tia perguntou se ele achava justo comer o chocolate da irmã e ele respondeu que não. Então a mãe, que estava junto, ensinou que ele poderia comprar outro chocolate, com o seu dinheiro do cofrinho, para dar para a irmã. A primeira reação de Gustavo não foi positiva. Ele ficou contrariado, mas depois achou que era o certo e disse que agora está se sentindo melhor. A foto registra o momento que ele deu o ovo para a irmãzinha.

Para em Miguel, pedir desculpas é uma forma de respeito

E quando aquilo que você faz de errado acontece na casa dos outros? Pois o Miguel Escames Martins, 10 anos, passou por uma situação dessas. Ele lembra que uma vez estava na casa de um amigo e chegou a quebrar algo. “Naquele momento eu pedi desculpa, falei que eu tinha dinheiro e se eu poderia comprar outro, mas ele e os familiares falaram que não precisava. Eles aceitaram minhas desculpas”, lembra.

Como você lida com o erro?
Miguel aprendeu com seus pais a se desculpar quando erra. Crédito da foto: Arquivo Pessoal

Miguel afirma que aprendeu a pedir desculpas com os seus pais. “Olha, eu peço desculpa porque a desculpa para mim não é uma forma vergonhosa de falar para outra pessoa, é uma forma de respeito.”

E deixa um conselho: “Errar é coisa de humano, todo mundo erra. Mas aí você tem de se esforçar mais para melhorar e se você acreditar, acontece.”

Não precisa ter medo de errar

Por falar nos erros cometidos na escola, a professora Daniela Aranha Machado, que dá aulas para turmas de alfabetização, do 1º ano do ensino fundamental, afirma que gosta de trabalhar com seus pequenos justamente com isso, com o erro. Mas como? Por meio de atividades de escrita e revisão. Ou seja, o aluno escreve e depois compara sua escrita com a convencional e assim vai percebendo o que faltou, o que está diferente, o que está igual, enfim, o que precisa ser revisto, reparado, ajustado. “Dessa forma o aluno vai compreender que seu ‘erro’ foi apenas um ‘degrau’ para o acerto e não se preocupará com isso, não se limitará em continuar com as tentativas”, disse a professora.

Viu só, você fica preocupado com as coisas da escola e às vezes é isso mesmo que seu professor ou sua professora quer. Que você aprenda justamente errando! Olha só o que a professora Daniela ainda fala: “Acredito que a tentativa é parte importante na construção de todo o aprendizado, seja de disciplinas escolares ou da vida. Não se aprende a andar sem cair. Por isso, a importância da avaliação como meio e não como fim de processos. O erro é tentativa de acerto, aprender com os erros é garantia de aprendizado em todos os setores da vida do ser humano.”

A professora ainda acha engraçado que, para aprender a andar de bicicleta, as crianças erram muito, caem muito até aprender. Para aprender um jogo novo no videogame, perdem muitas vidas até alcançarem as metas, mas na escola, não aceitam errar. “Tudo devido a essa visão antiquada na qual o erro é encarado como fracasso, e não parte do como processo de aprendizagem.”

Sempre aprendendo

A psicóloga Carla C. Denari Consul Ayres, especializada em atendimento a crianças, lembra que todo mundo está sempre em aprendizagem. “É tentando várias vezes que se aprende, como acontece quando alguém vai montar um jogo do tipo Lego. Não pode desistir, tem sempre de tentar.”

Carla lembra que muitas vezes a gente erra sem querer, como por exemplo derrubar o shampoo da mãe, o prato de comida, um copo. “Tem muita coisa que acontece e que não é de propósito, mas por falta de coordenação, então não precisa ter medo de errar, pois isso é coisa que acontece.” E se você fizer algo assim, tem de explicar para seus pais que foi sem querer. Você pode pedir desculpas e começar a ter mais cuidado. “É como errar na prova, depois que vê a resposta certa, aí aprende.”

Todas as atitudes que temos na vida, ressalta a psicóloga, têm um resultado. Então é preciso entender que bater no irmãozinho não é bom, porque dói e pode machucar. Quando você quiser fazer bagunça no quarto, é melhor pedir para seus pais se pode brincar com os cobertores e espalhar os brinquedos, assim eles não se surpreenderão se entrarem de repente no quarto e estiver tudo em desordem. “Você também pode convidá-los pra fazer bagunça junto, pode ser bem divertido!”, diz a psicóloga.

Carla reforça que todos devem ter em mente que errar é importante. “É muito bom, nos deixa mais capazes, mais espertos com a vida. Errar faz a gente crescer. Não existe ninguém perfeito, todo mundo erra. O que vale é tentar novamente.” (Daniela Jacinto)

Comentários