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Pensamento avaliativo em prol da transformação

Baseado na prática reflexiva e devolutivas em curto prazo, conceito moderniza medição de índices da educação
Pensamento avaliativo em prol da transformação
Seminário Internacional de Avaliação reuniu educadores para debater o tema, em agosto. Crédito da foto: Serjão Carvalho

De um lado, o professor aprende a avaliar o estudante em todas as suas potencialidades, captando indicadores de avanço e sinais de preocupação. De outro, o estudante aprende a se autoavaliar e avaliar os outros, e descobre a importância de analisar o contexto para tomar decisões a respeito de sua própria vida. Esse é um resumo do que o pensamento avaliativo pode fazer pela Educação. O tema foi discutido no 14º Seminário Internacional de Avaliação — Pensamento Avaliativo e Transformação Social, que foi realizado no dia 15 de agosto no Centro Cultural São Paulo (CCSP).

Resultado de iniciativa conjunta entre o Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (Gife), Itaú Social, Fundação Roberto Marinho e Instituto C&A, o evento teve Paulo Freire e a obra “Pedagogia do oprimido”, que comemora este ano o seu cinquentenário, como destaque nas discussões.

A base de tudo

Pensamento avaliativo é diferente de ficar fazendo provas e mais provas para medir índices da educação. “O pensamento avaliativo não é avaliação, é prática reflexiva”, explicou o pesquisador americano Michael Patton, criador da metodologia da “Avaliação Focada no Uso”, que dedicou os últimos cinquenta anos a pensar na interface entre avaliação e aprendizagem.

Pensamento avaliativo em prol da transformação
Patton dedicou os últimos cinquenta anos a pensar na interface entre avaliação e aprendizagem. Crédito da foto: Serjão Carvalho

Patton é considerado um dos pais da avaliação como disciplina e campo profissional. É um dos palestrantes e consultores mais requisitados em todo o mundo na área de avaliação. Ex-presidente da Associação Americana de Avaliação, Patton é também autor de vários livros que são referência básica para avaliadores e pesquisadores sociais.

A metodologia que criou se destaca porque propõe a avaliação não apenas no final de um projeto, mas inclui reflexões ao longo de sua execução, com devolutivas em curto prazo não mais que um mês no começo — para que se possa rapidamente fazer adaptações. “A avaliação não pode ser engavetada. O mundo gasta dinheiro com avaliações para ficar tudo dentro de um armário”, critica.

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Para Patton, a avaliação torna-se relevante e proporciona melhorias para os projetos sociais e políticas públicas quando é levada em conta durante a implementação, e não apenas ao final do processo. O objetivo é fazer uma interação entre os envolvidos, criando um cenário em que todos se beneficiam, tanto do processo avaliativo como dos resultados da avaliação.

A metodologia de Patton permite correções de rota ao longo do percurso e pode ser usada tanto em programas sociais como salas de aula. Ela vem ao encontro de um esforço maior em tornar ações sociais e políticas públicas mais assertivas. “Estar envolvido no processo cria um diálogo. O pensamento avaliativo não é uma política empresarial ou social, é algo a se usar no dia a dia para tomar melhores decisões”, disse.

Michael Patton, que tem como base de seu trabalho o livro “Pedagogia do Oprimido”, de Paulo Freire, aproveitou a ocasião para lançar a obra “Pedagogia da avaliação e Paulo Freire: Incluir para transformar”, organizada por ele e Vilma Guimarães, gerente geral da área de educação e implementação da Fundação Roberto Marinho.

Patton lembrou que o que o trouxe ao Brasil, foi a pedagogia da avaliação. “‘Pedagogia do oprimido’, de Paulo Freire, é o livro mais disseminado do mundo, é usado em vários países. Para mim, o livro traz exemplos práticos de alta avaliação e como sou alguém que dá aulas disso, eu vim em busca de exemplos.”

Conforme Patton, nos últimos cinquenta anos, passamos da avaliação de atividade para a avaliação de resultado, depois para a avaliação de impacto e agora temos que passar para a avaliação de transformação. “A ciência do pensamento avaliativo tem a ver com as intervenções para o mundo mudar e o raciocínio avaliativo começa com perguntas”, diz, acrescentando que o ideal é ter um espaço dialógico.

Para o pesquisador, o pensamento avaliativo é a base de tudo, inclusive da vida pessoal. Mas estamos dispostos a pensar nas coisas que estão acontecendo no mundo, a analisar contextos, a nos avaliar?

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Patton cita a alemã Hannah Arendt, autora do livro “Eichmann em Jerusalém”, cujo subtítulo é “um relato sobre a banalidade do mal”. Nessa obra a alemã fala sobre a trivialização da violência, que para ela corresponde ao vazio de pensamento, e é aí onde a banalidade do mal se instala. “Ela concluiu que o que permitiu que o mal perdurasse é que as pessoas não têm disposição, não querem pensar”, disse Patton. Por isso é que ele acredita que o processo do pensamento deve ser estimulado, depois interpretado.

“Um estudo muito rigoroso mostra que as informações falsas nas redes sociais chegam a um número maior de pessoas. Já as notícias verdadeiras levam seis vezes mais tempo para atingir o público. O pensamento avaliativo tem a ver com esse mundo.”

Patton afirma que a “Pedagogia do oprimido” dá a instrução: nunca explique nada para as pessoas, faça perguntas. “Nós caímos na armadilha de nos acharmos especialistas diante dos outros”, critica, acrescentando que o que realmente as pessoas precisam é de um pensamento sistêmico, em que um conjunto de situações é levado em consideração no processo avaliativo.

Na sua visão, a sociedade tem se transformado aos poucos e isso faz parte de um processo avaliativo. “Tudo começa nas pequenas mudanças, como essa discussão que tivemos. Aliás, se fosse há alguns anos, teria somente homens conversando sobre isso. Essa é uma transformação social”, disse.

‘Os índices não podem colonizar os currículos’

“Paulo Freire dizia que mudar o mundo e mudar as pessoas são processos interligados. A educação transforma as pessoas para elas mudarem o mundo”, disse o filósofo e pedagogo Moacir Gadotti, presidente de honra do Instituto Paulo Freire.

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Pensamento avaliativo em prol da transformação
Gadotti defende que avaliação da pedagogia. Crédito da foto: Serjão Carvalho

Gadotti é doutor em Ciências da Educação pela Universidade de Genebra, doutor Honoris Causa pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Atualmente é professor aposentado pela USP e tem diversos livros publicados.

Gadotti observa que deve-se investir na avaliação como pedagogia e não para índices. “Avaliação é um processo contínuo para ser feito durante e depois das aulas. E para que seja emancipadora, é preciso escutar a necessidade das pessoas que participam. É uma filosofia, uma forma de pensar.”

Conforme ele, se os alunos não participarem do próprio processo de aprendizagem, não aprenderão. “Os índices não podem colonizar os currículos, não devem fazer com que o professor seja um mero preparador de exames. Devemos passar da pedagogia da avaliação para a avaliação da pedagogia, são coisas diferentes”, disse.

Na última mesa do seminário, que teve o patrono da educação brasileira, Paulo Freire, como tema central, participaram do debate Patton, Vilma Guimarães, Gadotti e Thomaz Chianca, consultor técnico desta edição do evento. Gadotti usou as experiências e o conhecimento adquirido durante os 23 anos em que conviveu com Paulo Freire para comentar a relação do educador com a avaliação e como a questão é abordada no livro de Patton. “Embora Paulo Freire não tenha escrito um livro ou artigo sobre avaliação, essa foi uma preocupação constante em sua vida e obra, simplesmente porque se não avaliamos aquilo que se faz, não sabemos se atingimos o resultado que queremos.”

A reportagem participou do seminário a convite do Instituto Itaú Social. (Daniela Jacinto)

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