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Nilson Costa e a educação pública

Nilson Costa e a educação pública
Crédito da foto: Erick Pinheiro / Arquivo JCS (1/4/2019)

Jaime Pinsky

A morte de Nilson Costa não abalou a República, nem provocou consternação em todo o País. Contudo, muita gente já riu graças a esse sorocabano que abandonou a profissão, potencialmente rentável, de dentista, para se dedicar à escrita de piadas para os Trapalhões e outros comediantes da televisão brasileira.

Sorocabano do Além-Linha, como eu, Nilson teve toda sua formação em escolas públicas. Foi meu colega no Estadão, quando essa escola abrigava os melhores estudantes da cidade, tanto no ginásio, quanto no colégio. Entrar no Estadão não era para qualquer um. Lembro-me até hoje do primeiro elogio que recebi do meu pai, já com 11 anos. Eu estava na loja, ao lado dele, quando um freguês lhe perguntou se eu era seu filho. Meu pai sorriu, e disse “sim, é meu filho, ele acabou de entrar no Estadão”. Nilson deve ter ouvido algo equivalente do pai dele, ferroviário da Estrada de Ferro Sorocabana. Outros colegas eram filhos de operários têxteis, do sapateiro da esquina, de um médico renomado, do dono de uma pequena chácara, que vendia hortaliças em uma carroça, de um professor …

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Não eram muitos, pobres ou ricos, que conseguiam entrar no Estadão, e menos ainda os que conseguiam terminar o colégio (equivalente ao atual segundo grau, ou ensino médio). Mas a escola era boa. Claro, havia alguns professores estranhos. Todos haverão de se lembrar de um que mandava a gente ler o livro porque não se preocupava em dar aula, outro que simplesmente atirava o apagador e o giz nos alunos quando ficava nervoso, mas nós tínhamos bons professores, como o de Matemática (Nelson), História (Isabel), Física (Valério) e, principalmente, dois grandes mestres, Ruy Nunes, de Filosofia e João Tortelo, de Português. O mais importante era que ser professor do Estadão era uma coisa séria. Além dos ganhos serem bem mais razoáveis do que nos dias de hoje, o professor gozava de enorme respeitabilidade pública. O professor era não apenas nossa referencia para o conhecimento formal; era visto como o responsável pela continuidade do processo que faz com que o ser humano seja único, pois só ele, em toda a natureza, produz, armazena, organiza, transmite e consome Cultura.

Nós, Nilson, Newton, Walter, Siogi, Tufik, João Batista, Maria Helena, Sílvia, Sônia, todos sabíamos que éramos privilegiados por estudar em uma escola pública de qualidade e ter professores orgulhosos de seu trabalho, felizes em ser o elo entre gerações, entre países, entre culturas.

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Nilson, que abriu mão da odontologia para virar autor de textos para humoristas, A.V. que foi promotor, J.B.N., oncologista notável, N.P.A.S., que fez engenharia no ITA, as meninas que se transformaram em excelentes professoras, em filósofas, em pesquisadoras, todos foram frutos de uma escola pública que era muito boa, mas para poucos. Quando a escola pública se universalizou no Brasil, apesar dos esforços de muitos professores e administradores escolares, ela foi sendo deixada um pouco de lado pelos governantes. Hoje, os melhores cursos das melhores universidades são para quem frequenta escolas particulares caras, salvo raras exceções. O pai de Nilson não conseguiria pagar uma dessas escolas. Nem o meu.

Para ser um país verdadeiramente democrático não basta apenas realizar eleições livres. Cotas podem arremedar a situação, não resolver o problema. É necessário igualar brancos e negros, pobres e ricos. É fundamental ter uma escola democrática, laica e plural, que de fato conceda oportunidades iguais a todos. Depois, cada um resolve se prefere cuidar dos dentes das pessoas ou fazê-las rir.

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Jaime Pinsky é historiador, doutor e livre docente da USP, professor titular da Unicamp e autor e coautor de 30 livros (jaimepinsky@gmail.com)

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