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Educação para além dos muros escolares

Ação social por meio de biblioteca transformou toda a comunidade de um bairro periférico da capital



Educação para além dos muros escolares
Além de manter a biblioteca, o projeto realiza mediação de leitura, cortejos literários, exibição de filmes, oficinas, cursos e rodas de conversa. Crédito da foto: Caminhos da Leitura / Divulgação

Quando a escola não consegue nutrir os estudantes, eles naturalmente recorrem a outros lugares. Alguns, infelizmente, desviam-se pelo caminho. No caso de um grupo de adolescentes de Parelheiros, bairro situado na periferia de São Paulo, o alimento tem sido uma biblioteca comunitária.

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Em pleno cemitério — é o único espaço que conseguiram — a Biblioteca Comunitária Caminhos da Leitura tem feito a diferença na vida não apenas desses jovens e da comunidade no entorno, mas servido de exemplo internacionalmente e é inclusive roteiro turístico.

E o que tem ali, além de livros? Alma. Alma de jovens que sonham com a inclusão. Alma de jovens que querem visibilidade. Alma de jovens que aprenderam a se posicionar e estão soltando suas vozes. Esses rapazes e moças não tinham perspectiva alguma para suas vidas. Também jamais imaginavam que seriam capazes de transformar a vizinhança, de influenciar amigos e resgatar juntos a autoestima de todo o bairro. O conhecimento adquirido em livros, como os de Carolina Maria de Jesus, Ana Maria Gonçalves, Conceição Evaristo, Chimamanda Ngozi Adichie, Lima Barreto e tantos outros, trouxe identidade e valorização para eles. E foi por meio da leitura, especificamente a literatura, que os jovens daquele bairro passaram a ver que têm perspectivas.

A transformação social ocorrida em Parelheiros foi mencionada durante o II Seminário Internacional Arte, Palavra e Leitura, promovido no Sesc Pinheiros, em São Paulo. Tudo começou em 2008, com uma ação do Instituto Brasileiro de Estudo e Apoio Comunitário (Ibeac) naquela área de patrimônio ambiental, mas onde a população vive em condições de vulnerabilidade.

Após se reunirem com moradores do local e ouvirem quais eram as demandas consideradas mais urgentes para a região, surgiu a ideia de criar uma biblioteca comunitária, com o apoio de instituições parceiras. A ação começou em um consultório desativado, dentro de uma Unidade Básica de Saúde (UBS). No entanto, um ano depois o consultório voltou a funcionar — e a biblioteca teve de migrar para o cemitério, o único espaço disponível na época. E quem ficou à frente dela foi um grupo de jovens.

Atividades diversas

Dentre as atividades voltadas à comunidade, o grupo realiza mediação de leitura para as crianças dentro das escolas, cortejos literários, exibição de filmes, oficinas, cursos e rodas de conversa sobre temas como direitos humanos e violência contra mulher.

Bel Santos, do Ibeac, afirma que num período de dez anos de projeto da biblioteca comunitária, o resultado é que três jovens concluíram a faculdade e outros 14 estão cursando. Também a comunidade foi beneficiada, já que a biblioteca é um ponto de encontro para discutir diversas questões. Após conversas sobre saúde, as mães criaram uma cozinha de alimentação saudável em Parelheiros. Ao saber da necessidade das grávidas, que tinham de se deslocar para um hospital longe dali para ter seus filhos e acabavam os perdendo por não chegar a tempo, foi criada a Casa do Meio do Caminho, que abriga as futuras mamães no período em que os bebês estão para chegar. “E começou a ir tanta gente visitar a biblioteca, que hoje a gente tem um roteiro turístico de base comunitária”, comenta Bel.

Esse roteiro inclui não apenas a visita a uma inusitada biblioteca em pleno cemitério. As pessoas também são levadas para conhecer as famílias que vivem ali, como vivem, o que plantam. “Os jovens têm orgulho de ter seus pais produzindo, fazendo alimentos orgânicos, sem veneno. Então a biblioteca possibilitou que todo mundo da comunidade voe para onde quiser, mas existe a vontade de voltar, pois entendem que nosso lugar é ali, dentro da comunidade.”

Projeto supre uma carência com a ocupação de um espaço inusitado

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“Decidimos falar de vida num lugar de morte”, resume Bel Santos. Crédito da foto: Fernando Cavalcanti / Divulgação

Bel Santos, quando lembra o que o pessoal do Ibeac e os jovens fizeram da falta de possibilidades, se emociona. Quando souberam que o único espaço para a biblioteca seria no Cemitério da Colônia, o mais antigo de São Paulo, eles não desanimaram, pelo contrário, agarraram com unhas e dentes. “Decidimos falar de vida num lugar de morte”, conta.

O começo, claro, foi difícil. “Não adianta falar para as pessoas irem até a biblioteca. A biblioteca tem de ir para a rua, então são feitos cortejos literários. Tem um grupo de meninas que sai pelas ruas para espalhar livros, cantar e declamar poemas.” Esse trabalho, aos poucos foi chamando a atenção de um número cada vez maior de pessoas, criando vínculos com a comunidade.

Bel cita Elisa Machado, uma das primeiras a pesquisar, no mestrado e no doutorado, o tema biblioteca comunitária. O estudo aponta que esse tipo de ação tem origem na ausência de políticas públicas de cultura. “Mas também nasce de um desejo da comunidade de fazer parte dessa família leitora, um desejo de povoar uma comunidade com livros, histórias.”

Numa comunidade onde os jovens não tinham perspectiva de um futuro diferente, não se viam com a possibilidade de concluir os estudos, fazer uma faculdade, esse foi outro desafio. Bel conta que tinha muita gente fora da escola. Aos poucos, foram entendendo a importância de estudar, se convencendo que é um direito e que tinham de lutar por isso. “Uma biblioteca fala de tudo, sobre nossa existência, nossa humanidade. Não é só a profissionalização, não é uma ação pontual. Hoje eu vejo o que a literatura fez.”

Para Bel, bibliotecas comunitárias em geral são os espaços mais democráticos que conhece. “É um espaço que você tem livros, pessoas, conversas, histórias… Não é um lugar só para os livros, mas para as pessoas. É um lugar de encontro, de evento, de fala. E muitas delas não exigem que você tenha endereço, faça inscrição”, por exemplo. Ela conta que em São Paulo, na época de construção do Plano Municipal do Livro e da Leitura, um dos pedidos das crianças era que a biblioteca não exigisse documento, para que pudesse receber os moradores de rua. Isso porque eles viam sempre os moradores de rua e pensavam que, se eles não têm endereço, como é que poderiam emprestar livros? “A gente constrói com encontros, ouvindo, falando, com sensibilidade. O sentido de comunidade é esse, de partilhar com o outro. Precisamos cuidar uns dos outros. A ideia é: nenhum a menos.”

Ainda de acordo com Bel, “tanto faz se a gente demora pra chegar, o que importa é chegar junto”. É o que chama de Pedagogia do Cafuné. “A gente precisa fazer tudo o que a gente pode para acolher o outro. A gente pega, explica, mastiga, repete, até que pertença a todo mundo.”

Literatura ensinou Ketlin sobre empoderamento e identidade

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Estudante de Pedagogia, Ketlin faz parte do grupo Jovens Escritureiros. Crédito da foto: Fernando Cavalcanti / Divulgação

O grupo que atua na Biblioteca Comunitária Caminhos da Leitura, conhecido como Jovens Escritureiros, é formado, entre outros, pela estudante de Pedagogia Ketlin Santos, que contou sua trajetória aos presentes no seminário.

Ketlin falou que conheceu a literatura lá na biblioteca. E por falar na biblioteca, ela conta que lá os livros estão acessíveis às pessoas. Ou seja, não é como numa biblioteca pública ou de escola, em que estão organizados por número e pelo sobrenome do autor, mas sim por cores. Para que o leitor tenha autonomia de escolher o livro. “Separamos por cores porque a gente entende que nem todo mundo é alfabetizado e nem todo mundo teve acesso ao letramento.”

Foi na biblioteca que Ketlin aprendeu sobre sua própria identidade. Como mulher negra, se identificou com leituras de Carolina Maria de Jesus e Chimamanda Adichie. “O meu conhecimento está na favela, no meu corpo. Mas se existir outras vidas, quero vir de novo com o corpo negro.”

Ela conta que a literatura entrou em sua vida no viés de a mobilizar. “Não tive a presença de uma literatura eurocêntrica, tive uma literatura diversificada que me possibilitou uma reflexão crítica do meu eu, do outro, então eu consigo entender esse lugar de fala, de protagonismo. Então hoje, se eu consigo falar que sou a Ketlin, mulher negra, periférica, estudante de pedagogia, é porque a literatura me possibilitou isso.”

Outra questão, que Ketlin diz caber muito na fala de Chimamanda, é do quanto o machismo está impregnado e velado na sociedade. “Na literatura dela eu consegui identificar isso no meu cotidiano e ressignifico para quem não entende o que está escrito, porque também pode ser pintado, estar no grafite, na poesia, na arte, para que essa literatura chegue para todos e não apenas para alguns.”

Conforme ela, mesmo entre os negros, os homens estão à frente. “Não tem igualdade pelo simples fato de ser negro. Cabe à nossa sociedade olhar para isso e abarcar todas as diversidades, não podemos ser ridículos a ponto de não conseguir enxergar as múltiplas violências.”

Ketlin conta que nesses anos aprendeu uma coisa muito importante no que se refere às mulheres: a força da união. E quando uma está alcançando posição de destaque, está também representando as outras. “Quando uma sobe, puxa a outra.”

A menina, ainda tão nova, tem consciência que hoje ocupa um lugar que nunca ninguém sonhou para ela: universitária, palestrante, ativista social. Ela deixou um conselho para os jovens: “não se limitem, questionem, busquem informação. Não tenham vergonha, não peçam desculpas por serem quem são. Meu grande erro era me silenciar, porque o outro me silenciou e eu acabei me sabotando, por acreditar que o meu lugar era o de não fala, não questionamento. Quando tive empatia por mim mesma e passei a entender todo esse sentimento que existia dentro de mim, consegui enxergar o mundo diferente. Olhar o outro de forma diferente. Então se olhe e se veja.”

Seminário

O II Seminário Internacional Arte, Palavra e Leitura ocorreu nos dias 19, 20 e 21 de março e foi resultado de parceria entre o Itaú Social, Sesc Pinheiros, Comunidade Educativa Cedac e Instituto Emília. A reportagem esteve presente a convite do Itaú Social. (Daniela Jacinto)

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