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Desenvolver criatividade é função da escola

Juntamente com o pensamento crítico, competências devem ser estimuladas em sala de aula
Desenvolver criatividade é função da escola
Camila Garcia trabalha o pensamento crítico com alunos do 7º ano no Estadão. Crédito da foto: Fábio Rogério (12/3/2020)

Camila Garcia, professora de Língua Portuguesa da Escola Estadual Julio Prestes de Albuquerque, o Estadão, está trabalhando com os alunos do 7º ano do ensino fundamental o tema “Pequenas corrupções, digam não”. A tarefa é fazer uma lista de coisas relacionadas ao assunto e que acontecem no dia a dia escolar, com os próprios estudantes. Eles tabularam os problemas, criaram gráfico, produziram uma notícia a respeito e fizeram uma análise crítica e reflexiva sobre a situação, o que também se traduz em autoanálise e provavelmente mudança de comportamento. A aula de Camila está alinhada com as competências propostas pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e inserida em um dos mais importantes papeis da escola atual, que é ensinar o desenvolvimento do pensamento crítico e da criatividade.

Para se ter ideia do tamanho da importância, de acordo com o diretor de Educação da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), Andreas Schleicher, o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes — Pisa 2021 — passará a avaliar o pensamento criativo dos estudantes. O Pisa é um programa desenvolvido pela OCDE e no Brasil é coordenado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Andreas anunciou o novo critério de avaliação quando esteve no Brasil no dia 5 de março, participando do Seminário Internacional Criatividade e Pensamento Crítico na Escola, realizado pelo Instituto Ayrton Senna com apoio da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, a Unesco. Ao todo, 18 especialistas de diversos países participaram do evento. Andreas Schleicher afirma que o Pisa 2021 é uma experiência inicial, que vai confrontar os alunos com questões relacionadas à sua vida real, assim como fez a professora Camila.

O seminário foi inspirado no projeto “Desenvolvendo e avaliando criatividade e pensamento crítico em educação”, encampado pela OCDE e que envolveu 11 países, incluindo o Brasil. O objetivo foi identificar consensos e propor uma linguagem comum entre a comunidade internacional de educação sobre o que significa desenvolver e avaliar essas competências em sala de aula. O projeto conta com um documento traduzido em português, onde constam conceitos e exemplos de pedagogias estruturadas no tema, além de materiais de apoio para professores, como um portfólio de planos de aulas e metodologias. O documento pode ser acessado em https://is.gd/FB900u. Também foi lançado um guia para os educadores trabalharem o tema em sala de aula, que pode ser conferido em https://is.gd/AKP1LA. As publicações são resultado de parceria entre o Instituto Ayrton Senna e a Fundação Santillana.

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Documento norteador

Durante cinco anos (incluindo dois anos escolares de trabalho de campo e coleta de dados) a OCDE coordenou e trabalhou com uma rede internacional de escolas e professores em 11 países, o que representa uma grande variedade de culturas e abordagens educacionais. Os recursos apresentados no documento “Desenvolvimento da Criatividade e do Pensamento Crítico dos Estudantes – O que significa na escola” foram desenvolvidos e testados no Brasil, França, Hungria, Índia, Rússia, Eslováquia, Países Baixos, Espanha, Tailândia, Reino Unido e Estados Unidos.

De acordo com a publicação, no dia a dia, seja em casa ou no mercado de trabalho, as pessoas terão de melhorar a capacidade de imaginar novas soluções, identificar novas possibilidades, fazer novas conexões e transformá-las em novos produtos ou modos de viver melhor.

Com a possibilidade de que a inteligência artificial e a robótica acarretem a automação de parcela significativa da economia, as competências menos fáceis de automatizar, como a criatividade e o pensamento crítico, ganharão ainda mais valor.

O documento proporciona aos professores e às escolas novas ferramentas para construir ambientes de aprendizagem. A obra também oferece aos gestores públicos inspirações sobre como apoiar os docentes no aprimoramento de suas práticas e como tornar seus sistemas educacionais mais embasados em evidências.

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Compreensão dos conceitos é importante para o educador

O documento aborda os conceitos de criatividade e pensamento crítico, entendimento importante para o educador. No senso comum, a criatividade é vista, muitas vezes, como um dom ou talento inato, pertencente a poucas pessoas que teriam o privilégio de ter nascido com ela. Com base nessa crença, não se esperava que todas as pessoas pudessem ter algum tipo de criatividade ou receber estímulos para isso.

No entanto, criatividade é uma competência complexa e híbrida, pois surge da composição de elementos distintos, tais como conhecimentos e saberes, capacidade de resolução de problemas e domínios socioemocionais — como autogestão e abertura ao novo.

Um modo de definir a criatividade é entender que sua expressão envolve a elaboração de ideias, processos e/ou produtos que apresentam algum grau de ineditismo (ainda que apenas para a própria pessoa, quando pensamos no campo da educação) e que tragam soluções efetivas a alguma problemática. É importante lembrar que todo ato criativo é, em certa medida, um ato autoral, muitas vezes resultado de um pensamento divergente.

Já com relação ao pensamento crítico, muitas vezes ele é associado a ter posturas negativistas, resistentes a qualquer informação ou posição diferente, e até mesmo ao ceticismo puro. Também é essencial ampliar essa compreensão. Assim como na criatividade, no caso do pensamento crítico não se pode considerar que é apenas uma competência “nata”, e sim algo que pode ser estimulado entre todos, e que tem efeitos notáveis no dia a dia em uma sociedade que demanda, cada vez mais, tomadas de decisão embasadas, análise de informações de todos os tipos e construção de posicionamentos sobre as mais diversas temáticas.

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O pensamento crítico é uma competência que habilita a pessoa a se posicionar de modo racional e analítico frente a situações do cotidiano e, portanto, se manifesta sempre que alguém se depara com alguma informação, situação ou atitude de outras pessoas e busca fazer uma análise de sua validade (compreendendo os fatos, a lógica, a coerência argumentativa etc.), sua origem (quem e o que motivou a construção e divulgação da informação) e finalidade (a quem a informação pretende chegar e com qual objetivo). Aproxima-se do pensamento filosófico (lógica, por exemplo) e científico, pois é entendido como uma expressão de racionalidade.

Quando o pensamento crítico se mostra bem desenvolvido, também é caracterizado pela superação de binarismos, simplificações e egocentrismos: uma informação não é categorizada simplesmente como boa ou má, adequada ou inadequada, algo que alguém gosta ou não gosta. O pensamento crítico se expressa pela problematização, decomposição e ressignificação da informação ou situação. Dessa forma, ao invés de ser o único centro detentor de respostas, o professor estimula questionamentos e a construção conjunta do conhecimento. (Daniela Jacinto)

Pedagogias relacionadas ao tema

1. Parcerias criativas
2. Design thinking
3. Ensino dialógico
4. Pedagogia metacognitiva
5. Movimento Modern Band (educação musical)
6. Montessori (todas as áreas)
7. Orff Schulwerk (educação musical)
8. Aprendizagem baseada em projetos (educação científica, todas as áreas)
9. Aprendizagem baseada em pesquisa (educação científica)
10. Studio Thinking (educação em artes visuais)
11. Teaching for Artistic Behavior (educação em artes visuais)

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