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Animações podem ser aliadas na sala de aula

Desenhos ajudam na hora de dar exemplos e mostrar contextos em várias disciplinas, aponta o professor Claudio Pinto
Animações podem ser aliadas na sala de aula
“Monstros S.A.” é excelente para abordar detalhes sobre o mundo do trabalho com os alunos – Foto: Divulgação

Os desenhos animados, geralmente pensados para o público infantil, guardam um acervo rico que pode ser trabalhado nas disciplinas escolares. São importantes para exemplificar e contextualizar, além de tornar as aulas mais dinâmicas. O Papa-léguas já serviu de exemplo sobre a geomorfologia norte-americana; “Monstros S.A.” é excelente para História e Sociologia; “Fuga das galinhas” para Matemática e “Universidade monstros” ajuda bem com a Língua Portuguesa.

É o que afirma o professor Claudio Pinto, graduado em História e Pedagogia, com especialização em Geografia e Artes. Estudioso do tema, Cláudio — que é autor de três livros sobre o assunto — usa muito os filmes em suas próprias aulas.

Uma de suas alunas, Carolina Maria Ruy, lembra o quanto marcou quando, na aula de Geografia, o professor citou o desenho animado Papa-léguas, da Warner Bros. “É pelas montanhas rochosas que o Papa-léguas corre e o Coiote cai e se esborracha”, disse o professor enquanto falava sobre a geomorfologia norte-americana.

“O exemplo do professor me fez ver o óbvio: desenhos animados acontecem em um contexto histórico e geográfico. Mais do que isso, sua produção técnica está em consonância com os avanços de seu tempo”, escreveu anos depois, no prefácio do livro dele, intitulado “Desenhos animados — olhar além da tela”. No livro, o professor se concentra mais em fazer uma análise da sociedade por meio da animação. Mas em entrevista ao Educare ele falou sobre a importância dos desenhos animados na aprendizagem. E citou alguns que podem ser trabalhados na escola.

Claudio afirma que “Monstros S.A.” é excelente para aulas de História, Geografia e Sociologia, porque aborda uma série de coisas do mundo do trabalho, como o fordismo e o toyotismo. “Esse filme mostra conhecimentos, habilidades e competências que o trabalhador precisa dominar”, afirma. O filme conta a história da maior fábrica de sustos existente.O local constrói portais que levam os monstros para os quartos das crianças, onde eles poderão lhes dar sustos e gerar a fonte de energia necessária para a sobrevivência da fábrica.

Entre todos os monstros que lá trabalham, o mais assustador de todos é James P. Sullivan, um grande e intimidador monstro de pêlo azul e chifres, que é chamado de Sully por seus amigos. Seu assistente é Mike Wazowski, um pequeno ser de um olho só, com quem tem por missão assustar as crianças, que são consideradas tóxicas pelos monstros e cujo contato com eles seria catastrófico para seu mundo. Porém, ao visitar o mundo dos humanos a trabalho, Mike e Sully conhecem a garota Boo, que acaba sem querer indo parar no mundo dos monstros.

“Trata-se de uma fábrica que se utiliza do trabalho em equipe pelo método fordista de produção.” Claudio afirma que, no filme, os trabalhadores não precisam pensar, refletir, mas acaba ocorrendo um problema no processo. “Uma criança sai do mundo dos humanos e entra no mundo dos monstros e aí ela acaba bagunçando aquele mundo, no sentido positivo, porque desmonta esse tipo de processo de produção.”

Durante todo o filme, Claudio afirma que é possível observar a concorrência, a busca por atingir a meta. Já o toyotismo pode ser observado nos últimos sete minutos, diz o professor. “A fábrica precisa se reinventar e então a criança fica amiga dos monstros e ocorre uma realocação do trabalhador, que muda de função”, conta.

O monstro gigantesco que assustava as crianças perde a função e o monstro pequeno, que é divertido, vai até as crianças, mas com a missão de fazê-las rirem. “A energia para manter tudo funcionando não vem mais dos gritos de susto das crianças, e sim de suas risadas, ou seja, modernizou”.

Há opções para todas as disciplinas

Para aulas de Língua Portuguesa, o professor Claudio Pinto afirma que o filme “Universidade monstros” é ideal. Continuação de “Monstros S.A.”, a história mostra quando Mike Wazowski e James P. Sullivan se conheceram, na universidade. Mike era estudioso, mas não muito assustador, e Sully era o cara popular e arrogante, graças ao talento para o susto. Após um incidente durante um teste, os dois são obrigados a participar da mesma equipe na Olimpíada dos Sustos.

Neste filme, afirma Claudio, eles aprendem a teoria de tudo o que farão na prática depois. Aprendem o que terão de fazer para serem excelentes trabalhadores, por isso são cobradas habilidades deles como comunicação e expressão, criatividade (tão necessária para uma redação), oralidade. “Mas os dois personagens são reprovados porque não têm essa habilidade. São cobradas deles a produção escrita, a análise crítica de imagem, a interpretação de charges, que são cobradas no Enem.”

Animações podem ser aliadas na sala de aula
“Fuga das galinhas”: possibilidade de trabalho em Filosofia, Sociologia e Matemática – Foto: Divulgação

Na área de Ciências da Natureza, o filme que cumpre a função de exemplo é “Os sem-floresta”. Durante a primavera, os animais da floresta despertam da hibernação. Ao acordar, eles têm uma surpresa: surgiu ao redor de seu habitat natural uma grande cerca verde. Inicialmente eles temem o que há por detrás da cerca, até que RJ revela que foi construída uma cidade ao redor da floresta em que vivem.

RJ diz ainda que no mundo dos humanos há as mais diversas guloseimas, convencendo os demais a atravessar a cerca. Entretanto, esta atitude desagrada o cauteloso Verne, que achava melhor permanecer onde estavam inicialmente. “Esse filme ajuda a trabalhar a questão do consumismo, da alimentação e também do meio ambiente, ao falar do avanço dos condomínios, dos bairros e o quanto isso afeta a natureza.”

Filosofia e Matemática

Para as aulas de Filosofia, Sociologia e Matemática, Claudio indica “Fuga das galinhas”. Na história, a Sra. Tweedy é a dona de um galinheiro no interior da Inglaterra, onde a maior parte das aves vive uma vida limitada a produzir ovos e terminar na panela. Mas quando Rocky, um galo vindo dos Estados Unidos surge voando por cima da cerca da granja, as coisas começam a mudar. Rocky se apaixona por Ginger e os dois arquitetam um plano para conseguir liberdade.

Com relação à Filosofia e Sociologia, o filme fala sobre utopia e distopia. “O sonho deles de fugir da prisão onde se encontram, e que os levará à morte, tem uma relação com o campo de concentração nazista. Mas a busca por um outro mundo pode ser relacionada à obra ‘Utopia’, de Thomas Morus, que propõe uma sociedade melhor”, diz o professor. Já para quem trabalha com a Matemática, o filme proporciona análise de gráfico, estatística, cálculo de produção de compra de matérias e de produto final. “Existem quatro passagens específicas no desenho sobre isso”, diz Claudio.

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“Vida de inseto” fala da possibilidade de união de grupos sociais diferentes – Foto: Divulgação

Por fim, ele cita “Vida de inseto”, também para Sociologia. Todo ano, os gafanhotos exigem uma parte da colheita das formigas. Mas quando algo dá errado e a colheita é destruída, os gafanhotos ameaçam atacar e as formigas são forçadas a pedir ajuda a outros insetos para enfrentá-los numa batalha. “Ali é passada uma ideia de cultura superior e inferior, mas também fala da possibilidade de união de grupos sociais diferentes ou de classes, para se libertar de um inimigo comum.”

Professor de História no ensino médio em escolas da rede pública e particular do Estado de São Paulo, Claudio é membro da Associação Brasileira de Cinema de Animação (ABCA) e autor de mais dois livros: “Trabalho e capitalismo global — o mundo do trabalho através do cinema de animação”, volumes 1 e 2.

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