Buscar no Cruzeiro

Buscar

VIDA DE BICHO

Você já ouviu, mas sabecomo vive uma cigarra?

Inseto que embala as tardes quentes passa anos debaixo da terra antes de cantar por poucas semanas

31 de Outubro de 2026 às 19:33
Camila Santos [email protected]
Só os machos cantam: o som é produzido por membranas no abdômen que vibram centenas de vezes por segundo
Só os machos cantam: o som é produzido por membranas no abdômen que vibram centenas de vezes por segundo (Crédito: Ricardo Pichler )


Você pode nunca ter visto uma, mas com certeza já ouviu. Basta o calor apertar para que as árvores da cidade comecem a emitir aquele chiado agudo e contínuo, um "zziiiiiiii" que sobe, se sustenta e parece não ter fim, lembrando o apito de uma chaleira. É o canto da cigarra, trilha sonora clássica da primavera e do verão no Brasil.

Por trás do barulho existe um dos ciclos de vida mais curiosos do mundo dos insetos.

Quem canta é o macho

Só os machos cantam, e não é com a boca. Eles têm, nas laterais do abdômen, duas membranas chamadas timbais, que vibram centenas de vezes por segundo com a contração de músculos. O abdômen, quase oco, funciona como caixa de ressonância e amplifica o som.

O objetivo é conquistar as fêmeas. Cada espécie tem um canto próprio, e é por ele que machos e fêmeas da mesma espécie se encontram. Algumas cigarras chegam a ultrapassar os 100 decibéis, volume comparável ao de uma motosserra, o que faz delas um dos insetos mais barulhentos do planeta.

O calor também influencia: as cigarras são mais ativas nos dias quentes e ensolarados, o que explica por que o coro fica mais intenso nas tardes de verão.

Anos no escuro

A maior parte da vida de uma cigarra acontece longe dos olhos e dos ouvidos. Depois do acasalamento, a fêmea deposita os ovos em pequenos cortes que faz nos galhos das árvores. Quando os ovos eclodem, as ninfas (filhotes) caem no chão, cavam a terra e se instalam perto das raízes, de onde sugam a seiva para se alimentar.

Ali elas permanecem por anos, crescendo devagar. Na maioria das espécies, essa fase dura de dois a cinco anos. Na América do Norte, as chamadas cigarras periódicas são as recordistas: passam 13 ou 17 anos enterradas e emergem todas ao mesmo tempo, aos milhões.

Quando chega a hora, a ninfa sai do solo, sobe em um tronco ou parede e passa pela última muda (troca de pele). A pele antiga se abre nas costas, e de dentro sai o adulto, com asas. A vida adulta é curta: dura apenas algumas semanas, tempo suficiente para cantar, acasalar e recomeçar o ciclo.

Ela não estoura de tanto cantar

Quem cresceu no interior provavelmente ouviu que a cigarra canta até estourar. A prova seriam as "cascas" vazias e rachadas presas nos troncos das árvores. Mas a história é outra: essas cascas são a pele que a ninfa deixa para trás quando vira adulta. Ou seja, em vez de sinal de morte, a casca marca justamente o começo da fase do canto.

Inofensivas para as pessoas

As cigarras não picam, não mordem e não transmitem doenças. Elas se alimentam de seiva com um aparelho bucal em forma de estilete e, em geral, não causam grandes danos às plantas. Há exceções na agricultura: no Brasil, algumas espécies são conhecidas como pragas do café, porque as ninfas enfraquecem a planta ao se alimentar das raízes por longos períodos.

Preguiçosa? Nada disso!

A fama de preguiçosa vem da fábula "A Cigarra e a Formiga", em que ela passa o verão cantando enquanto a formiga trabalha. Mas, sabendo que a cigarra passa anos debaixo da terra para ter poucas semanas de canto, dá para dizer que ela trabalhou bastante antes de ganhar o direito ao palco.