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Sabiá Dendê

31 de Outubro de 2026 às 19:30
Da Redação [email protected]
Sabiá Dendê
Sabiá Dendê (Crédito: DIVULGAÇÃO)

Sou passarinheira. E uma das coisas que mais me alegram nesta época do ano é acordar com o canto dos sabiás. Tenho por eles uma afeição antiga, dessas que transformam encontros em acontecimentos extraordinários. Sinto os sabiás como grandes amigos, que me saúdam e me agraciam com sua presença, anunciando, com sua cantoria, que a vida continua acontecendo lá fora.

Faço questão de apresentá-los às crianças, de compartilhar com elas a alegria de reconhecer seu canto e observar seus movimentos. Neste ano, as intempéries do tempo, as chuvas insistentes deste início de primavera, tornaram esses encontros mais difíceis. Os ninhos parecem menos numerosos, estão mais escondidos e, até agora, não consegui mostrar às crianças nenhum filhote ensaiando seus primeiros voos. Continuamos ouvindo-os, mas nem sempre conseguimos encontrá-los.

Foi então que me deparei com o livro de Paty Wolff, uma autora tão jovem e já tão consolidada no meu coração. Suspirei aliviada diante da possibilidade de voltar a falar dos meus amigos pássaros, agora pelas páginas de uma obra que aumenta nossas ideias sobre aquilo que os pássaros representam nas relações que sustentam a vida.

Nessa história, um sabiá transporta uma semente, gesto pequeno mas cheio de significados. Seu voo atravessa uma paisagem amazônica em transformação, onde a expansão das palmeiras do dendê (um óleo muito usado na culinária) ameaça a diversidade ambiental e também a existência das comunidades tradicionais daquele lugar.

O avanço das plantações modifica territórios e principalmente interfere em práticas muito antigas de produção do azeite, realizadas na maioria das vezes, por mulheres e crianças daquela região.

A denúncia que se impõe na história, reside na ideia que não separa a vida dos pássaros da vida das pessoas, e também não apresenta a natureza como paisagem distante. Ao contrário, o que fica claro é que sementes, árvores, animais, crianças e comunidades participam de uma mesma história. A ameaça à floresta é também uma ameaça à memória, à cultura, e a liberdade.

As ilustrações, produzidas com recortes, colagens e pinturas sobre papelão, trazem a obra uma materialidade muito particular, com texturas que nos fazem demorar nas páginas, perceber detalhes e reconhecer, na própria linguagem visual, uma metáfora da diversidade da vida.

Volto, então, aos meus sabiás. Aos que me acordam, aos que procuro entre as árvores e aos que desejo continuar apresentando às crianças. Talvez uma das maiores belezas deste livro esteja em nos lembrar que nenhum voo é insignificante e que uma semente carregada no bico de um pássaro pode guardar um universo.

Enquanto espero a oportunidade de mostrar às crianças um filhote de sabiá descobrindo o mundo, Paty Wolff me oferece outra forma de compartilhar com elas a presença desses amigos. E, talvez, de compreender que proteger as condições para que continuem cantando é também defender as muitas formas de vida com as quais compartilhamos a existência.

Vanessa Marconato Negrão é professora e sócia efetiva da Academia Sorocabana de Letras