Buscar no Cruzeiro

Buscar

EU JÁ LI

Refloresta: um samba urgente

24 de Outubro de 2026 às 23:35
Da Redação [email protected]
REFLORESTA
REFLORESTA (Crédito: DIVULGAÇÃO)

Há canções que escutamos e há canções que nos atravessam. "Refloresta", de Gilberto Gil, me atravessa. Talvez porque eu durma e acorde pensando no quanto ainda precisamos fazer pela natureza, no quanto nossas relações com ela precisam, literalmente, ser replantadas.

A canção nasceu de um pedido do fotógrafo Sebastião Salgado a Gilberto Gil. Salgado, que desenvolvia um projeto de reflorestamento em Minas Gerais, perguntou ao compositor se ele não gostaria de criar uma "Refloresta", numa referência à sequência formada por Refazenda, Refavela e Realce. Gil aceitou o pedido e partiu de uma constatação simples e urgente: já não basta somente manter a floresta em pé, mas, diante da dimensão da devastação já produzida ao longo do tempo, é preciso também devolver árvores à terra: reflorestar.

Na passagem da música para o livro, os versos de Gilberto Gil encontram as imagens de Daniel Kondo. E é nesse encontro que a obra ganha uma nova camada de leitura. Kondo define seu próprio trabalho como o de um "tradutor visual", e a expressão me parece certeira. Suas ilustrações não estão ali simplesmente para acompanhar aquilo que a canção diz. Elas fazem dos desenhos uma transcrição fluida do que ouvimos. Kondo consegue materializar o ritmo, os sentidos e as tensões da música. Vermelhos e laranjas carregam a violência da destruição, o calor do fogo e a ferida aberta na paisagem; azuis e verdes fazem respirar novamente rios e florestas. Há movimento nas páginas. Há um ritmo que parece continuar cantando mesmo quando a música termina. Aproximar as crianças de Refloresta não é apenas apresentar uma mensagem ecológica, mas oferecer um encontro com a música brasileira, com Gilberto Gil, com o samba, com a ilustração contemporânea e com a esfuziante cultura brasileira. Apresentei o livro às crianças simultaneamente à canção. E nem preciso dizer o que acontece quando crianças pequenas encontram um samba. Antes mesmo de qualquer explicação, vieram os corpos: o movimento, o ritmo, a dança, a alegria.

A consciência ambiental não precisa começar por discursos sobre o que as crianças devem fazer para "salvar o planeta". Ela pode começar pelo encantamento, pela música que movimenta o corpo, pelas imagens que prendem o olhar e pela possibilidade de perceber que a natureza também pode ser cantada, desenhada e sentida. E aí as sementes são lançadas.

Uma edição belíssima da Elo Editora.

Vanessa Marconato Negrão é professora e sócia efetiva da Academia Sorocabana de Letras