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Kanarana

17 de Outubro de 2026 às 17:23
Da Redação [email protected]
KANARANA
KANARANA (Crédito: DIVULGAÇÃO)

Durante muito tempo, em muitas comunidades indígenas, a função de cacique foi ocupada principalmente por homens. Nos últimos anos, porém, as mulheres vêm conquistando cada vez mais espaço na liderança de seus povos. Um exemplo é a Cacica Pequena, do povo Jenipapo-Kanindé, reconhecida como uma das pioneiras da liderança indígena feminina no Brasil. Mais recentemente, outras comunidades elegeram suas primeiras mulheres caciques, mostrando o fortalecimento da presença feminina nas decisões e na representação de seus povos.

E é uma mulher que ocupa o centro de "Kanarana". Forte e generosa, ela é cacica da aldeia Muiratinga, líder de um povo guerreiro e guardiã de saberes ancestrais. Kanarana carrega um maracá que parece ter vida própria. Em um de seus caminhos pela floresta, ela encontra Waynapitã, a majestosa Mãe da Mata, e dela recebe uma missão: proteger a natureza e tudo que nela vive.

Quando homens estranhos começam a derrubar as árvores, Kanarana não enfrenta o perigo sozinha: reúne seu povo, os animais e os encantados da floresta. Nessa coletividade, sua força se realiza. A liderança não está relacionada só ao poder de comandar, mas à capacidade de cuidar, proteger e reconhecer os conhecimentos daqueles que vieram antes.

Com texto de Márcia Kambeba e ilustrações de Nat Grego, o livro ganha ainda outro significado. Márcia é uma escritora indígena do povo Kambeba e traz para a história as formas indígenas de compreender as relações entre seres humanos e natureza. A floresta não aparece apenas como cenário ou como um conjunto de recursos que precisam ser preservados: ela é território da vida.

Essa perspectiva é especialmente importante quando pensamos na literatura oferecida às crianças. Durante muitas gerações, os povos originários foram apresentados nos livros escolares e infantis de maneira genérica e estereotipada: o "índio" como uma figura única, pertencente ao passado, vivendo em uma floresta distante. Uma imagem que apaga a enorme diversidade dos povos indígenas e ignora sua presença no Brasil contemporâneo.

Livros como Kanarana ajudam a desmontar esse imaginário: os povos indígenas existem no presente de culturas vivas, que continuam sendo produzidas e transformadas.

Pouco a pouco, uma nova geração de crianças pode construir um imaginário diferente daquele que marcou tantas gerações anteriores. Um imaginário mais honesto, cuidadoso e plural, formado também por livros escritos por autores indígenas e por histórias nas quais os povos originários deixam de aparecer como personagens genéricos para ocupar o lugar de sujeitos de suas próprias narrativas. Kanarana participa desse movimento ao colocar no centro da história uma mulher indígena forte, cercada por sua comunidade, por seus ancestrais e pela floresta.

Uma publicação da Editora Pequena Zahar.

Vanessa Marconato Negrão é professora e sócia efetiva da Academia Sorocabana de Letras

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