EU JÁ LI
Papai
A primeira frase desse livro é uma dedicatória que já revela sua intenção: "Aos que cuidam e oferecem o que nunca receberam", diz o autor. Essa frase já encontrou abrigo no meu peito. Passaram por mim muitas pessoas que dão amor mesmo sem nunca tê-lo recebido, e posso garantir a vocês: o amor que escolhem oferecer parece ter o dobro do tamanho.
Foi com esse pensamento que percorri as páginas de "Papai", de Christian Robinson. À primeira vista, trata-se de um livro simples, de poucas palavras e imagens marcantes. Mas, como acontece com as boas obras destinadas à infância, delicadeza e profundidade caminham juntas.
A cada página, somos convidados a enxergar que a paternidade não cabe em um modelo único. Ela se manifesta em gestos cotidianos, na presença, na escuta, na proteção, na brincadeira, no ensino e, sobretudo, na disposição de caminhar ao lado. O livro amplia nosso olhar ao reunir diferentes espécies e diferentes formas de cuidar, lembrando que o afeto é uma linguagem compartilhada por muitos seres.
As ilustrações têm cores vibrantes e um traço cheio de personalidade, dialogando com o texto de maneira perspicaz.
Uma grata surpresa: o livro acolhe as imperfeições. Não idealiza os pais nem transforma a paternidade em um lugar inalcançável. Pelo contrário, sugere que estar presente, recomeçar depois dos erros e construir vínculos diariamente talvez seja o que realmente importa.
Ao final, a obra ainda desperta a curiosidade sobre o mundo natural ao apresentar informações sobre os animais que aparecem na história. É um convite para que a leitura continue em forma de conversa, pesquisa e descoberta.
'Papai" é um livro que fala da infância ,dos filhos, mas principalmente daqueles que escolheram cuidar. É uma leitura capaz de emocionar pais, avôs, tios, professores e todos que compreenderam que amar alguém é uma decisão que se renova diariamente.
Terminei a leitura com a mesma sensação provocada pela dedicatória da primeira página: há pessoas que transformam a falta em generosidade e fazem do cuidado um legado. Talvez seja essa a maior beleza deste livro: lembrar que a herança mais valiosa que um pai pode deixar não é aquilo que possui, mas a presença que oferece.
Um lançamento da Brinque Book.
Vanessa Marconato Negrão é professora e sócia efetiva da
Academia Sorocabana de Letras