Eu já li
Entre bicos e versos
Há livros que nos convidam a conhecer mundos distantes. Outros, como este, nos ensinam a olhar com mais atenção para o mundo que já habitamos.
Liu Olivina, artista visual, ilustradora, muralista e autora de livros infantis, nasceu em São Paulo e vive atualmente em Peruíbe, entre o mar e a Mata Atlântica. Autodidata, sua produção artística é marcada pelo diálogo com a infância, a natureza, a ancestralidade e as religiosidades afro-brasileiras. É justamente desse território vivido, onde o canto das aves atravessa os dias, que nasce este livro.
As aves apresentadas em suas páginas não são criaturas exóticas ou distantes. São os passarinhos que, por aqui, no sudeste brasileiro, cruzam as janelas, ocupam os fios elétricos, visitam os quintais, os lagos, as praças e as árvores das cidades. Estão tão presentes que, muitas vezes, passam despercebidos. Ao compartilhar o livro com as crianças, a reação foi imediata: “Eu já vi esse passarinho!”, diziam, uma após a outra. O reconhecimento transformou a leitura em encontro. Nomear aquilo que já faz parte da paisagem cotidiana aproximou as crianças da fauna local e despertou um olhar mais atento.
Outro aspecto que torna a obra singular é sua materialidade. O texto foi escrito em letra cursiva pela própria autora, como se cada página carregasse um pouco da presença de suas mãos. Essa escolha confere autenticidade e delicadeza ao livro, aproximando-o de um caderno de anotações, de um diário de observações ou de cartas escritas pelos próprios passarinhos.
Entre imagens e pequenos textos, as aves compartilham mensagens que vêm da terra, das águas, dos ventos e do coração. São convites à escuta, à contemplação e ao pertencimento, lembrando que a natureza não está apenas nas florestas distantes, mas também nas árvores da rua, no quintal de casa e na ave que pousa por alguns instantes diante da nossa janela.
Lançamento da Editora Quatro Cantos, este é um daqueles livros que merecem circular por muitas mãos, escolas e bibliotecas. Mais do que apresentar diferentes espécies de aves, ele nos convida a reparar nelas. E talvez esse seja um dos maiores presentes que a literatura pode oferecer: ensinar crianças e adultos a olhar novamente para aquilo que sempre esteve ali, esperando apenas um pouco mais da nossa atenção.
Vanessa Marconato Negrão é professora e sócia efetiva da Academia Sorocabana de Letras