Eu já li
Tú hablas espanhol?
Você sabe o que é portunhol? Portunhol é quando a gente mistura palavras do português com palavras do espanhol — uma misturinha de línguas, quase sempre para conseguir se comunicar.
Isso pode acontecer quando alguém ainda está aprendendo espanhol, quando pessoas de países diferentes tentam se entender ou, às vezes, só para fazer graça mesmo. Acho que, no caso deste livro, o que melhor define o portunhol é justamente uma mistura de todas essas possibilidades.
“Era uma vez em la Fronteira Selvagem”, publicado pela Edições Barbatana, traz sete contos que (dizem) foram ouvidos na fronteira entre o Brasil e o Paraguai. Coerentes com essa identidade meio misturada, meio escorregadia, os textos são escritos em portunhol.
Seu autor, Douglas Diegues, vive na fronteira entre o Mato Grosso do Sul e o Paraguai, lugar que ele mesmo chama de Fronteira Selvagem. Ele escreve em Portunhol Selvagem, defendendo a ideia de que uma língua não existe apenas porque é oficial ou reconhecida pelo Estado, mas porque vive na fala e na escrita das pessoas. Como o próprio autor diz:
“Tomara que las crianzas também descubram que no existem línguas superiores nem línguas inferiores, porque todas las línguas têm sua beleza”.
Os sete contos são igualmente surpreendentes e vêm acompanhados das ilustrações de Ricardo Costa, que dialogam com o humor e a força das histórias. O meu preferido é “La danza del tamanduá”, que conta como os tamanduás ensinaram “el índios” a dançar.
Vanessa Marconato Negrão é professora e sócia efetiva da Academia Sorocabana de Letras.