Eu já li
‘Assim fica demonstrado’
Desde pequena, eu acreditava em tudo o que me diziam. Lembro-me bem de quando ouvi, muito seriamente, que se eu mexesse com objetos cortantes, faria xixi na cama. Aquela advertência ficou gravada em mim por anos — a ponto de eu evitar qualquer faca como quem foge de um feitiço. Quando já era uma criança mais crescida e precisei usar talheres, o pensamento teimava em voltar, como uma superstição antiga mal arranjada.
Ao abrir “Assim fica demonstrado”, de Nicolás Schuff e Pablo Picyk, reencontrei essa criança ingênua que eu fui — mas agora, pela lente do humor e da curiosidade. Os autores propõem uma deliciosa interface entre ciência, cultura e fantasia, desmistificando “verdades” que tantas vezes aceitamos sem pensar. A cada página, o livro convida o leitor a pesquisar, acompanhando os argumentos que desmontam ideias tão conhecidas quanto absurdas, como a de que contar ovelhas dá sono ou de que mentir faz o nariz crescer.
A leitura é risada fácil e reflexão. Ao dizer, por exemplo, que “se as nuvens fossem de algodão, os gigantes usariam para encher seus travesseiros e dormir melhor”, o texto brinca com o literal e o figurado, abrindo espaço para que as crianças pensem sobre como as metáforas, às vezes, se transformam em “verdades” dentro do imaginário infantil. Essa sutileza transforma o livro em uma ferramenta preciosa para alimentar a dúvida — e, com ela, o pensamento crítico.
Ler “Assim fica demonstrado” foi, para mim, como revisitar a infância e rir das crenças que um dia me pareceram inquestionáveis. Mas mais do que rir, foi compreender que, por trás dessas histórias, há uma sabedoria: a de que imaginar, duvidar e perguntar são atos profundamente humanos.
Um convite à investigação e ao tempo livre — um tempo de descobrir que nem toda crença precisa ser levada tão a sério, e que o riso também pode ser uma forma de aprender. Publicação da editora Gato Leitor.
Vanessa Marconato Negrão é professora e sócia efetiva da Academia Sorocabana de Letras