Eu já li
Bicho poliglota
Esses dias eu soube que no Brasil há cerca de 250 línguas! Nunca me ocorreu que seriam tantas! Quem fez essa pesquisa foi o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Dentre todas essas 250 línguas, aproximadamente 160 delas são de origem indígena.
Agora calcule aí, um país com uma biodiversidade tão grande como a nossa, imagine quantas línguas mais seriam se cada espécie animal tivesse seu próprio idioma? Não daria para contar!
Existe um conto indígena sobre uma jabota que consegue superar vários desafios na floresta graças ao seu domínio das mais diferentes línguas: jacarês, oncês e outras mais. Essa antiga narrativa é trazida por Denilson Baniwa, artista indígena e grande defensor de seu povo. E faz sua estreia como escritor de livros ilustrados com “A Jabota Poliglota” .
Publicado pela Editora Boitatá, com ilustrações da artista Sophia Pinheiro, o livro nos apresenta a riqueza da biodiversidade e dos idiomas, fazendo pensar que a comunicação vale ouro num mundo em que poucos falam a mesma língua, e a esperteza do mais fraco diante do mais forte pode ser a única escapatória.
A história da Jabota começou em 2020, durante o isolamento. Ao fazer uma viagem para Manaus a fim de se reunir com a família, Denilson lembrou-se das histórias contadas pelos indígenas mais velhos, incluindo a do jabuti astuto que enganava outros animais da floresta para não ser devorado.
O autor complementa: “Ao mesmo tempo, queria que o pequeno texto instigasse a todos e a todas a pensar que o português falado no Brasil não seria o mesmo sem a inclusão do vocabulário indígena em sua estrutura”. As ilustrações de Sophia Pinheiro foram criadas utilizando três tintas feitas a partir de elementos naturais, cores que ela mesma produziu com terra, urucum e crajiru.
Vanessa Marconato Negrão, professora e sócia efetiva titular da Academia Sorocabana de Letras.