Eu já li
Como você vai à escola?
Artigo escrito por Vanessa Marconato Negrão
Meu avô foi bem pouco a escola, aprendeu a ler “mais ou menos” e a assinar seu nome, como ele mesmo dizia. Quando íamos à cidade (morávamos no sítio), ele corria os olhos nos letreiros das fachadas, lia sílaba por sílaba e quando decifrava cada uma delas, proferia a palavra inteira em voz alta, imensamente orgulhoso da sua compreensão.
Em seguida à leitura vinha a história de como se deu a sua alfabetização. Ele contava que a escola era longe, e ele ia a cavalo com os irmãos, mas a Revolução de 1932 impediu que eles continuassem os estudos, já que o conflito fez com que uma ponte fosse queimada bem no caminho da escola. A conversa era sempre arrematada com a frase: “Se eu pudesse, tinha estudado mais”.
“Amanhã”, de Lúcia Hiratsuka, conta uma história parecida com a do meu avô, sobre como era ir para a escola tempos atrás. A autora nos presenteia com as memórias de três gerações de sua família: a da sua avó, que imigrou para o Brasil e frequentou a escola no Japão, a da sua mãe, que durante a Segunda Guerra -- bem como outros filhos de imigrantes japoneses -- foi proibida de estudar japonês; e a sua própria experiência numa escola do interior de São Paulo entre eucaliptos perfumados.
As ilustrações são tão lindas e suaves que quase é possível ouvir o cantar da água quando as crianças atravessam o riacho. Obrigada, Lúcia, por compartilhar conosco suas memórias nesse registro precioso. Uma publicação da Pequena Zahar.
Vanessa Marconato Negrão é professora e apaixonada pela literatura infantil