Saúde
Família denuncia falhas após morte de menino de 8 anos em Itu
Pais relatam demora na transferência e questionam condutas médicas; Secretaria de Saúde diz que criança deixou unidade antes da conclusão da avaliação e que caso será esclarecido pelo SVO
A morte de um menino de 8 anos, após atendimentos na rede municipal de Saúde de Itu, levou a família a denunciar supostas falhas na assistência prestada. O pai da criança, Patrick Anderson de Lima Abreu, afirmou que buscou atendimento para o filho, Luiz Miguel da Silva de Lima, por mais de uma vez e que acredita que houve demora na identificação da gravidade do quadro. “Eu sou um inocente que acreditou nos médicos, nos enfermeiros, no PAM da Vila Martins e na ambulância do 192. Eu acreditei que tudo ia dar certo”, relatou.
Segundo Patrick, no primeiro atendimento, a família teria recebido a informação de que o quadro não era grave. “O médico falou que era só uma simples dor do crescimento. Meu filho foi tratado como se fosse manha”, afirmou.
O pai disse que a situação mudou quando a criança retornou à unidade de saúde com piora dos sintomas. Segundo ele, foram feitas diversas tentativas para conseguir a transferência do filho para o hospital. “Eu liguei no 192, liguei em todos os lugares, liguei na Secretaria da Saúde, implorando pela vida do meu filho. E ninguém me ouviu”, declarou.
Patrick afirma que o menino aguardou cerca de três horas pela ambulância para ser levado ao Hospital Infantil da Santa Casa de Itu. Segundo o relato, durante a chegada do transporte, a equipe teria percebido que a situação era mais grave. “Quando foram medir a saturação, parecia que estava 70, 60. Tiraram ele da ambulância de novo. Eu vi tudo aquilo”, disse.
A mãe da criança, Ana Cláudia da Silva de Lima, também questionou o atendimento. Segundo ela, o filho chegou a ser avaliado com suspeita de apendicite, mas a família não recebeu um diagnóstico conclusivo antes da piora do quadro. “Falaram que meu filho estava bem, mandaram ele embora para casa. Voltei no outro dia e ninguém sabia o que estava acontecendo com ele”, afirmou.
Ela contou que a criança começou apresentando dores na região da perna e que recebeu a informação de que poderia ser uma dor relacionada ao crescimento. “Como um profissional consegue dar um diagnóstico para uma criança e depois ela morrer?”, questionou.
Segundo os pais, após a transferência para a Santa Casa, o menino apresentou agravamento do quadro e sofreu uma parada cardiorrespiratória. A mãe afirma que acompanhou a tentativa de reanimação.
Após ser informado da morte do filho, Patrick afirmou que teve uma reação de desespero e quebrou uma porta de vidro da unidade hospitalar. “Eu errei sim naquele momento de dor de quebrar uma porta de hospital. Fui preso e minha família pagou R$ 1.600 para eu poder sair da cadeia”, relatou.
Segundo o pai, a família teria precisado reunir o valor para que ele pudesse acompanhar o velório do filho. A ocorrência envolvendo o caso ainda depende de confirmação oficial da Secretaria da Segurança Pública.
Patrick afirma que pretende buscar justiça e que espera que a morte do filho provoque mudanças no atendimento da saúde pública. “Eu quero justiça. E acredite, nem a justiça vai trazer meu filho de volta, mas que a morte dele mude a forma como lidamos com o sistema de saúde”, disse.
O que diz a prefeitura
Em nota, a Prefeitura de Itu, por meio da Secretaria Municipal de Saúde, informou que a criança foi atendida nos dias 4 e 5 de agosto na rede municipal e que as equipes adotaram condutas compatíveis com os sinais e sintomas apresentados, incluindo a solicitação de exames complementares.
Segundo o município, antes da conclusão da avaliação e da liberação dos resultados, o responsável pela criança teria optado por deixar a unidade de saúde, interrompendo o atendimento, mesmo após ser informado sobre os riscos.
A prefeitura informou ainda que, na quinta-feira (6), o menino retornou ao PAM da Vila Martins com quadro de dor abdominal intensa e abdômen distendido. Após avaliação, foi transferido para o Hospital Infantil da Santa Casa de Itu.
De acordo com a administração municipal, foram realizados exames laboratoriais, tomografia, hidratação venosa, antibioticoterapia e medidas de suporte. A criança foi encaminhada à UTI Infantil, mas sofreu uma parada cardiorrespiratória e morreu.
O corpo foi encaminhado ao Serviço de Verificação de Óbito (SVO), responsável por apontar oficialmente a causa da morte.
A Secretaria de Saúde afirmou que, até o momento, não há elementos técnicos que indiquem falha na assistência prestada e informou que permanece à disposição das autoridades para esclarecimentos.
Família contesta versão da Prefeitura
O pai do menino, Patrick Anderson de Lima Abreu, também contestou a versão apresentada pela Prefeitura de Itu sobre a cronologia dos atendimentos e a saída da criança da unidade de saúde.
Segundo a administração municipal, a criança foi atendida nos dias 4 e 5 de agosto e, antes da conclusão da avaliação e da liberação dos resultados dos exames, o responsável teria optado por deixar a unidade, interrompendo o atendimento, mesmo após orientação sobre os riscos.
Patrick, porém, afirma que a família procurou atendimento ainda no dia 3 de agosto e que, desde o primeiro contato, o quadro teria sido tratado como algo sem gravidade. “Eu quero que coloque isso porque eles estão falando dos atendimentos realizados ao longo dos dias 4 e 5 de agosto. Isso não é verdade. No dia 3 a gente estava lá pela primeira vez, quando falaram que era dor do crescimento”, afirmou.
Segundo o pai, no segundo atendimento, a criança recebeu medicação para dor e, após uma melhora momentânea, reclamou de fome. Ele afirma que a família conversou com uma médica sobre a possibilidade de levar o filho para casa para se alimentar e retornar caso houvesse piora. “A minha esposa conversou com a médica e perguntou se poderia levar nosso filho para comer alguma coisa em casa. A gente mora praticamente duas ruas depois do posto de saúde. Se ele sentisse alguma dor, a gente levaria de volta”, relatou.
Patrick afirma que a família não abandonou o atendimento e que permaneceu acompanhando a situação da criança. “A gente nem dormiu”, disse.
O pai também reforçou que discorda da afirmação de que teria retirado o filho da unidade contra orientação médica. “Pelo que eu entendi, a Prefeitura de Itu está acusando a gente de ter matado o nosso filho, de ter tirado o nosso filho do hospital. Em nenhum momento a gente fez isso”, afirmou.