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Denúncia

Funcionários denunciam condições de trabalho e assédio sexual em empresa de transporte em Pilar do Sul

13 de Abril de 2026 às 18:41
Thaís Verderamis [email protected]
Com o auxílio do Sindicato dos Rodoviários, seis colaboradoras, que deixaram a empresa em fevereiro de 2026, abriram Boletim de Ocorrência
Com o auxílio do Sindicato dos Rodoviários, seis colaboradoras, que deixaram a empresa em fevereiro de 2026, abriram Boletim de Ocorrência (Crédito: Thaís Verderamis )

Os funcionários da empresa Viação Estevam Transporte e Turismo Ltda. denunciaram ao Sindicato dos Rodoviários a situação de trabalho análogo à escravidão e diversos casos de assédio sexual contra mulheres em Pilar do Sul, na Região Metropolitana de Sorocaba (RMS). Assim que o caso veio a público, o Sindicato intermediou o contato entre funcionárias -- que era proibido na empresa -- e foram relatados diversos casos de assédio sexual, perseguição e ameaça.

As colaboradoras mais antigas, com três anos de empresa, relataram diversos casos de assédio por parte do chefe. “Quando entrava uma monitora nova, se fosse do gosto dele, ele já partia para cima. Ele oferecia dinheiro para sair com ele, fora da empresa. No meu caso, eu neguei. Como castigo, ele pegava mais pesado comigo: aumentava minha linha, eu não tinha tempo para comer, sabe?”, conta uma das funcionárias, que não será identificada.

Os relatos afirmam também que era proibido o contato de colaboradores dentro da empresa. No entanto, uma das colaboradoras, apesar das ameaças, contatou as colegas que afirmaram estarem passando pela mesma situação. “Para mim, ele mandou mensagem no WhatsApp perguntando se eu era casada, se eu teria interesse em sair com ele e qual valor eu cobraria. E também com promessas de melhorias na empresa. Como eu também neguei, começaram atrasos no pagamento. De 2024 até agora”, contou outra colaboradora.

O assédio era acompanhado de promessas seguidas de ameaças. “Ele oferecia dinheiro, falava que a gente teria benefícios dentro da empresa, tudo no sigilo, que a mulher não podia saber e nem os encarregados”, afirma a primeira colaboradora.

Além de mensagens com teor sexual, presencialmente as situações também ocorriam, deixando as colaboradoras constrangidas em público e sem reação. “Quando eu estava na garagem sempre fugia dele, porque se eu chegasse perto, era brincadeira sem graça. As vezes, se eu estava contente ele falava assim ‘nossa, que sorriso lindo, dormiu bem? Transou a noite inteira, porque está com sorriso lindo’, falava essas coisas para a gente e não podíamos responder”, conta.

As colaboradoras contam que a aliança, símbolo de compromisso e acessório pessoal que não oferecia risco ao trabalho, era proibido. “Ele não gostava que eu usasse aliança lá, porque disse que chamava muita atenção. E quando a gente ia pegar na mão dele para cumprimentar, ele pegava no tom de acariciar a mão da gente, sabe? Não soltava, segurava e não soltava”, explica.

Segundo as colaboradoras com três anos de empresa, diversas mulheres foram contratadas e pediram demissão pelo assédio sexual.

Com o auxílio do Sindicato dos Rodoviários, seis colaboradoras, que deixaram a empresa em fevereiro de 2026, abriram Boletim de Ocorrência.

Outros colaboradores que também estão com questões trabalhistas se reuniram como forma de protesto na cidade, há dois meses, buscando reconhecimento e apoio por parte dos órgãos responsáveis. No entanto, nada foi feito até o momento.

Perseguição, intimidação e ameaça

A empresa já havia sido autuada pelo Ministério do Trabalho e do Emprego (MTE) por trabalho análogo à escravidão e teve a atuação suspensa no dia 12 de fevereiro, mas devido irregularidades no processo, voltou a atuar no dia 3 de março. Neste período, os funcionários foram realocados para outra empresa que passaria a prestar serviço emergencial na cidade.

Outras colaboradoras, com menos tempo de empresa relataram as condições análogas à escravidão em que trabalhavam 14h por dia, sem tempo para alimentação, desvio de função e pagamento inferior, além de benefícios nunca pagos, como vale refeição (VR), participação de lucros ou resultados (PLR) e horas extras.

“A gente fazia 13, 14 horas de linha. Catorze horas por dia de serviço. Ficava sem comer. Nós assinávamos um VR de R$ 600 e nunca recebemos. Nunca pegamos esse dinheiro”, afirma uma das colaboradoras.

Além dos casos de assédio, outras três colaboradoras relataram perseguição e ameaças após irem para outra empresa em fevereiro, durante a suspensão das atividades da Viação Estevam. “Eu entrei em julho do ano passado, mas eu não tive isso, [assédio], o meu caso foi mais perseguição. Assim que nós saímos da empresa, ele começou a ir lá em casa, a passar de carro, fazer barulho, entraram na minha casa, até que eu fiquei fora três dias de casa. E um rapaz dele, veio me xingar de vagabunda, falando que eu estava com sindicato, e sobre as consequências, foi quando eu abri a denúncia”, conta.

Denúncia ao Ministério Público

Foi registrada uma denúncia formal no Ministério Público (MP) sobre o caso. No documento enviado, onde são relatados problemas graves e recorrentes no transporte escolar, como “veículos circulando com possíveis falhas mecânicas, incluindo barulhos anormais em sistema de freio, indícios de problemas no motor e ônibus parados durante o trajeto por defeitos; ônibus operando com irregularidades visíveis, como faróis queimados e portas sem funcionamento adequado”.

Também foi solicitado ao MP a abertura de um procedimento para a apuração da situação, “a verificação de eventual prática de intimidação ou constrangimento a usuários que realizam denúncias”. Além da cobrança da atuação do Poder Público em fiscalizações e a adoção de medidas para a proteção dos alunos, pais e profissionais atuantes.

O Ministério Público (MP) foi questionado a respeito da existência da denúncia, as medidas neste caso e os próximos passos, mas não retornou até o fechamento desta matéria. O espaço segue aberto.

A Prefeitura de Pilar do Sul também foi questionada por e-mail e a equipe de reportagem esteve no local para perguntar se tinha conhecimento dos casos, como era realizado o procedimento de regularização dos veículos, se a empresa estava regularizada, quantos ônibus haviam na frota, quantos funcionários a empresa tinha e desde quando presta serviço para a cidade, mas também não obteve respostas até o fechamento desta matéria. O espaço segue aberto.

A reportagem do Cruzeiro do Sul também procurou a Viação Estevam sobre a situação das denúncias de trabalho análogo à escravidão e assédio sexual, a empresa também não se pronunciou sobre o caso. O espaço continua aberto.

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