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Aviação solidária já viabilizou 70 transplantes no Estado

Programa TransplantAR conecta aeronaves particulares à logística do sistema público de transplantes e ajuda a vencer a corrida contra o tempo na captação de órgãos

21 de Fevereiro de 2026 às 21:00
Cruzeiro do Sul [email protected]
Para quem aguarda na fila, a rapidez no transporte do órgão pode significar a diferença entre a espera e uma nova chance de vida
Para quem aguarda na fila, a rapidez no transporte do órgão pode significar a diferença entre a espera e uma nova chance de vida (Crédito: DIVULGAÇÃO)


A cada transplante, o relógio é um adversário silencioso. No caso do coração, por exemplo, médicos têm, em média, até quatro horas entre a retirada do órgão e o implante no receptor. Ultrapassar esse limite pode significar maior risco de complicações ou até a inviabilidade do procedimento. Foi a partir dessa corrida contra o tempo — e da constatação de que a logística era um gargalo — que nasceu o TransplantAR, iniciativa que conecta proprietários de aeronaves à logística do sistema público de transplantes.

Criado oficialmente em outubro de 2024 e transformado em programa de governo em São Paulo, o projeto é fruto da articulação entre a Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, o Instituto Brasileiro de Aviação (IBA) e médicos transplantadores, entre eles profissionais ligados ao Incor. A iniciativa estruturou juridicamente a chamada “doação de horas de voo”, permitindo que aeronaves privadas sejam utilizadas, de forma voluntária e gratuita, para o transporte de órgãos e equipes médicas, após acionamento oficial da Central de Transplantes.

Segundo o chefe de gabinete da Secretaria, Dr. Eudes Quintino, a percepção inicial foi clara: o problema não estava na falta de doadores, mas na logística. “A Central de Transplantes comunica a existência de um órgão disponível em determinado local, muitas vezes distante, e é preciso transportá-lo rapidamente. Se o transporte demora demais, o órgão pode não ser aproveitado”, explicou.

O modelo funciona de forma complementar ao sistema já existente. A Central de Transplantes — vinculada ao Sistema Nacional de Transplantes — coordena toda a parte médica e documental, além da definição do receptor conforme a fila única oficial. O TransplantAR atua exclusivamente na organização da logística aérea, sem interferência nos critérios técnicos ou na gestão da lista de espera. Não há custo para o Estado nem remuneração para os participantes.

Desde o início das operações, o programa já realizou cerca de 88 voos, viabilizando mais de 70 transplantes, sendo aproximadamente 50 de coração — muitos deles pediátricos. Em 2025, a iniciativa representou cerca de 12% dos transplantes cardíacos realizados no País. Nos primeiros meses de 2026, esse índice já alcançou aproximadamente 23%, demonstrando crescimento na participação logística em casos de maior urgência.

Como funciona a operação

O acionamento ocorre por meio da Central de Transplantes, ligada ao Sistema Nacional de Transplantes. Quando surge a necessidade de buscar um órgão em outra cidade ou estado — especialmente em casos de coração e pulmão, que possuem menor tempo de viabilidade — a demanda é comunicada à equipe do projeto, que organiza a disponibilidade de aeronaves voluntárias.

O presidente do IBA, Francisco Lyra, conta que a ideia ganhou força após conhecer a história de um consultor transplantado de fígado que quase perdeu a vida enquanto aguardava um órgão. Segundo ele, estimativas apontavam que parte dos órgãos poderia deixar de ser utilizada por dificuldades logísticas.

“Percebemos que a aviação executiva poderia ajudar. Cerca de 80% do tempo, as aeronaves ficam ociosas nos hangares. Por que não utilizá-las para salvar vidas?”, afirmou.

Atualmente, os proprietários das aeronaves arcam com todos os custos — combustível, tripulação, manutenção e taxas aeroportuárias. Não há pagamento nem incentivo fiscal. De acordo com Lyra, a colaboração ocorre por meio da chamada “doação de horas de voo”, quando a aeronave é disponibilizada voluntariamente. Em alguns casos, empresários chegam a fretar aviões quando suas próprias aeronaves não estão disponíveis, a fim de garantir o cumprimento da missão.

A operação pode envolver ainda helicópteros para agilizar o deslocamento entre aeroportos e hospitais, reduzindo ainda mais o tempo de isquemia (tempo em que o órgão fica sem receber sangue e oxigênio entre a retirada e o transplante).

O peso do tempo

O cirurgião transplantador Renato Hidalgo, um dos médicos responsáveis pelas cirurgias na cidade de Sorocaba e coordenador do Serviço de Captação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (Scott), explica que cada órgão possui um limite específico de tempo sem circulação sanguínea.

“No caso do coração, o ideal é até quatro horas. Para pulmões, cerca de seis horas. O fígado pode chegar a 12 horas, enquanto o rim suporta até 24 horas. Quanto maior o tempo de isquemia, maior o risco de disfunção do órgão após o implante”, detalha.

Segundo ele, ultrapassar esse período não significa que o transplante não será realizado, mas aumenta o risco de complicações, como menor força de contração do coração, alterações na função hepática ou prejuízo na filtração renal. “Em transplantes, o que buscamos é sempre o menor tempo de isquemia possível”, resume.

No modelo tradicional, a logística pode envolver transporte terrestre fornecido pelo sistema estadual, acionamento da Força Aérea Brasileira ou, em alguns casos, fretamento de voos. A participação de aeronaves voluntárias amplia as alternativas disponíveis, sobretudo em situações de maior urgência.

Referência regional

Com sede em Sorocaba, o Scott se consolidou como referência estadual na retirada de órgãos. Entre janeiro de 2019 e dezembro de 2024, a equipe realizou 1.856 cirurgias de retirada, participando de cerca de 30% dos procedimentos com doadores efetivos no Estado de São Paulo.

No período, foram disponibilizados 3.270 órgãos ao sistema estadual, média de 310 cirurgias por ano e mais de 45 órgãos por mês. No caso dos transplantes de fígado, 42% dos procedimentos realizados no Estado utilizaram órgãos retirados pela equipe.

Em 2025, considerando apenas a logística terrestre, o grupo percorreu mais de 55 mil quilômetros para viabilizar captações ù o equivalente a aproximadamente uma volta e meia na Terra pela linha do Equador.

Polo de transplantes

Além da atuação na captação, o volume de transplantes realizados em Sorocaba reforça a dimensão do sistema local. Dados do Centro de Transplantes do Hospital Unimed Sorocaba indicam que, somente em 2025, foram realizados 219 transplantes na unidade, entre procedimentos de fígado, rim, córnea e medula óssea.

Nos primeiros meses de 2026, até 20 de fevereiro, já haviam sido contabilizados 39 transplantes, evidenciando a demanda contínua e a importância de uma logística eficiente para garantir que os órgãos cheguem dentro do tempo ideal.

Solidariedade que transforma

O TransplantAR não movimenta recursos financeiros nem interfere na gestão da fila única de transplantes. Atua como iniciativa voluntária de apoio logístico, ampliando a capacidade de deslocamento em situações de urgência.

Atualmente, cerca de 70 mil pessoas aguardam na fila por um órgão no Brasil. A agilidade no transporte pode representar diferença especialmente nos casos mais sensíveis, como transplantes cardíacos e pulmonares. (João Frizo)

 

 

 

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