Em Salto
Moradores relatam colapso no abastecimento de água e rotina marcada por torneiras secas
Interrupções diárias, rodízio que não se cumpre e decreto de emergência hídrica expõem crise persistente no abastecimento do município
A falta de água segue afetando moradores de diversos bairros de Salto e tem se consolidado como um problema recorrente na cidade. Os relatos apontam interrupções frequentes no abastecimento, fornecimento irregular ao longo do dia e dificuldades para realizar tarefas básicas, como higiene pessoal, preparo de alimentos e limpeza das residências.
Diante do agravamento do cenário, a Prefeitura de Salto decretou estado de emergência hídrica, reconhecendo oficialmente a criticidade e a escassez no sistema de abastecimento de água tratada no município. O decreto autoriza a adoção de medidas emergenciais para evitar o colapso total do sistema, como contratações diretas e reforço no fornecimento por caminhões pipa.
Apesar da medida, moradores afirmam que os problemas persistem no dia a dia. No bairro Santa Cruz, o abastecimento é descrito como intermitente e insuficiente. “Quem tem caixa d’água até consegue manter o básico, mas a água chega por pouco tempo e logo acaba. Tem dia que simplesmente não tem”, relata uma moradora. Segundo ela, a situação é ainda mais grave em imóveis alugados, com reservatórios pequenos, e em casas com crianças, idosos ou pessoas com deficiência.
A moradora também chama atenção para a situação de conjuntos habitacionais, como o Jardim Marília, onde um único reservatório atende vários apartamentos. “São muitos moradores para uma caixa só. Quem mora em apartamento sofre muito mais”, afirma.
No Monte Pascoal, a escassez compromete até a higiene básica. Uma moradora relata que precisa reaproveitar água para atividades essenciais. “Tem dia que não sai nem uma gota da torneira. Para dar descarga, a gente usa água reaproveitada. Está muito difícil”, diz.
Já no Bela Vista, moradores relatam que a irregularidade no abastecimento ocorre há anos e sem horários definidos. A dona de casa Edneia Matiusa afirma que a água costuma acabar ainda pela manhã. “Chega cedo e acaba rápido. Não tem dia certo, não tem horário. Todo dia falta”, afirma. Para tentar reduzir os impactos, ela instalou uma caixa d’água extra no quintal.
A percepção de que o rodízio anunciado não funciona na prática é comum entre os moradores. “Eles falam que é um bairro por vez, mas aqui falta todo dia”, relata Edneia.
Na Vila Henrique, o problema se intensifica à noite. A moradora Francisca Maria Carvalho diz que precisou adaptar a rotina da família. “À noite a água some. A gente corre para tomar banho antes”, conta. O morador Volney Morais aponta que a situação varia conforme a altura dos bairros. “Quem mora mais alto sofre mais. A água não chega”, afirma.
No Parque das Nações, moradores também relatam dificuldades mesmo em casas com caixa d’água. “Quem não tem reservatório grande sofre muito. A cidade cresce, mas a estrutura não acompanha”, avalia o barbeiro Dito Silva que presta serviços também no bairro Bela Vista.
Embora haja relatos pontuais de fornecimento mais regular em áreas mais baixas ou centrais, a maioria dos moradores aponta desigualdade no abastecimento, com bairros periféricos sendo os mais afetados pela crise.
A insatisfação aumenta em meio ao anúncio de reajuste de 15,84% na tarifa de água e esgoto, aprovado pela agência reguladora. “Vai subir a conta, mas a água não chega. Parece que a gente está pagando pelo que não recebe”, resume a moradora do Monte Pacoal.
O Saae informou que a cidade enfrenta limitações na capacidade do sistema, agravadas pela estiagem, crescimento urbano e necessidade de investimentos estruturais. O órgão afirma que o decreto de emergência permite acelerar ações para minimizar os impactos da crise. (Caroline Mendes)
Galeria
Confira a galeria de fotos