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Economia

Investimentos de previdências municipais expõem risco após liquidação do Banco Master

São Roque e Cajamar estão entre os institutos que mais aplicaram recursos no banco, alvo de operação da PF e de liquidação decretada pelo Banco Central

25 de Novembro de 2025 às 20:56
Vernihu Oswaldo [email protected]
Os investimentos de São Roque foram concentrados ao longo de seis meses
Os investimentos de São Roque foram concentrados ao longo de seis meses (Crédito: Divulgação )

O Instituto de Previdência dos Servidores de São Roque (São Roque Prev) foi um dos órgãos que mais investiu no Banco Master, cuja liquidação extrajudicial foi decretada na terça-feira (18). A informação é do Ministério Público de Contas do Estado de São Paulo (MPC-SP).

Ainda segundo o órgão, ao menos cinco institutos de previdência social de servidores municipais do Estado de São Paulo aplicaram recursos em letras financeiras emitidas pelo Banco Master. As cidades de Araras, Cajamar, Santa Rita D’Oeste, Santo Antônio de Posse e São Roque investiram, juntas, cerca de R$ 218 milhões em títulos de renda fixa vinculados ao banco.

Os casos de São Roque, na Região Metropolitana de Sorocaba (RMS), e de Cajamar, na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), são os que mais chamam atenção. Enquanto Cajamar teria destinado mais de 15% de sua carteira ao fundo, São Roque aplicou cerca de 18%.

Em nota, o São Roque Prev afirmou que adquiriu as letras financeiras do banco em 2024 seguindo todos os ritos legais e técnicos, com parecer da assessoria de investimentos, aprovação do Comitê de Investimentos e ciência e homologação pelos Conselhos Fiscal e Deliberativo -- formados, obrigatoriamente, por servidores efetivos.

Os investimentos de São Roque foram concentrados ao longo de seis meses, conforme registros do Sistema de Cadastro dos Regimes Próprios de Previdência Social, e teriam ocorrido entre março e setembro de 2024.

O comunicado acrescenta: “Reforçamos que todo o processo atendeu à Resolução CMN 4.963/2021 e todos os documentos exigidos foram encaminhados ao Tribunal de Contas, sem novos questionamentos ao Instituto. O São Roque Prev segue monitorando o cenário econômico e adotará todas as medidas cabíveis e legais para resguardar os interesses dos servidores, reforçando seu compromisso em garantir a segurança dos recursos previdenciários, bem como em proteger o interesse do funcionário público são-roquense”.

O Banco Master

Fundado em 1974, inicialmente como Máxima Corretora de Valores e Títulos Mobiliários, o Banco Master passou por expansões e alterações societárias ao longo dos anos, se transformando em um conglomerado financeiro. Entre as décadas de 2000 e 2010, ampliou sua atuação para áreas como crédito, investimentos, gestão de recursos e outras operações. Mais recentemente, ganhou destaque oferecendo produtos com rendimentos muito acima do mercado, atraindo milhares de investidores.

Desde 2022, porém, surgiram dúvidas sobre seu modelo de atuação, especialmente porque o banco investia fortemente na captação de recursos e ofertava rentabilidades superiores às praticadas no mercado. O grupo recebeu diversas propostas de aquisição ao longo dos anos, mas nenhuma foi concluída.

Em 18 de novembro de 2025, a Polícia Federal deflagrou a Operação Compliance Zero, destinada a combater a emissão de títulos de crédito falsos por instituições financeiras do Sistema Financeiro Nacional. As investigações começaram em 2024, a pedido do Ministério Público Federal, para apurar a possível fabricação de carteiras de crédito insubsistentes por uma instituição financeira. Esses títulos teriam sido vendidos a outro banco e, após fiscalização do Banco Central, substituídos por ativos sem avaliação técnica adequada.

Na operação, foram cumpridos cinco mandados de prisão preventiva, dois de prisão temporária e 25 mandados de busca e apreensão, além de medidas cautelares diversas da prisão, nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Bahia e no Distrito Federal. Os investigados podem responder por crimes como gestão fraudulenta, gestão temerária e organização criminosa. No mesmo dia, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master, encerrando imediatamente suas operações no sistema financeiro nacional.

Operações temerárias

De acordo com o economista Geraldo Almeida, o Banco Master operava com diversos procedimentos temerários que colocavam em risco o ecossistema econômico. Uma dessas práticas envolvia a emissão de Cédulas de Crédito Bancário (CCBs), títulos que representam promessa de pagamento a instituições financeiras. Segundo ele, o banco teria emitido CCBs sem lastro adequado e as revendido para outras instituições.

O economista também afirma que, no caso dos fundos previdenciários -- como o de São Roque -- que investiram no banco, o principal risco é o de inadimplência ou perda dos valores aplicados, já que os créditos prometidos estariam baseados em operações fraudulentas.

Diferentemente de investidores pessoa física, cujos depósitos de até R$ 250 mil são protegidos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), os Regimes Próprios de Previdência Social não contam com essa cobertura. Assim, a recuperação dos recursos dependerá do processo de liquidação extrajudicial conduzido pelo Banco Central, o qual pode se estender por vários anos.