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Pandemia pode prejudicar processo de aprendizagem e agravar desigualdades

Os estudantes precisam de interatividade e de compartilhar experiências, mesmo nas aulas não presenciais
Pandemia pode prejudicar processo de aprendizagem e agravar desigualdades
Distante da sala de aula, o aprender se torna um pouco mais desafiador para os alunos, avalia especialista. Crédito da foto: Divulgação

Depois de mais de um semestre longe das salas de aulas, as escolas das redes particular e estadual de Sorocaba estão retomando gradativamente as atividades presenciais. Já a rede municipal tem previsão de retomar as aulas apenas em 2021. Durante esse período, as escolas municipais estão trabalhando com Atividades Não Presenciais (ANPs), entregues aos estudantes de forma on-line ou impressa. Porém, esse longo período fora da escola pode prejudicar o processo de aprendizagem dos alunos e agravar ainda mais as desigualdades sociais.

É o que destaca a professora doutora Alda Regina Tognini Romaguera, coordenadora do Grupo Ritmus: Estética e Cotidiano Escolar, da Universidade de Sorocaba (Uniso). Isso porque, segundo ela, a aprendizagem e o conhecimento acontecem a partir da relação com o outro. “É muito importante que as crianças tenham essa convivência, principalmente se considerarmos a educação infantil e o ensino fundamental, onde a rede municipal atua”. Mas longe da sala de aula, o processo de aprendizagem se torna um pouco mais desafiador, aponta a professora. “Os estudantes precisam de interação, mesmo nas aulas não presenciais. Se as escolas estiverem mantendo o contato com os alunos e trabalhando os conteúdos de forma interativa, tem aprendizado acontecendo”, afirma. E para driblar as dificuldades encontradas nesse ano letivo, Alda destaca que os professores estão trabalhando mais do que nunca. “As escolas estão fazendo um esforço muito grande para dar continuidade ao aprendizado. Os professores estão usando várias alternativas para manter o contato com os alunos”.

Pandemia pode prejudicar processo de aprendizagem e agravar desigualdades
Profª Alda: convivência é importante. Crédito da foto: Acervo Pessoal

Famílias engajadas

Por outro lado, Alda destaca a importância de haver engajamento por parte das famílias. “Está muito claro que as famílias interagem mais nos dias de receber os benefícios, como os vales e cestas. Então, ficou mais escancarado que a educação está vinculada ao cuidado das pessoas mais carentes”. Portanto, acrescenta, o fato das crianças não estarem na escola também afeta a alimentação e o cuidado de muitas famílias.

Além disso, a professora destaca que as aulas remotas não são uma realidade possível para todos os estudantes da rede municipal. “Pelo o que os meus orientandos me passam, muitas crianças não estão fazendo as atividades, seja por não ter condições ou pelo fato de ficar com os avós para os pais irem trabalhar. São situações múltiplas que afetam os professores e o rendimento. Isso é preocupante. A rede precisa encontrar soluções para amparar esse público”.

Problemas escancarados

A pandemia do novo coronavírus escancarou todos os problemas enfrentados na educação brasileira, afirma Alda. “É como se tivessem tirado o tapume de proteção de um edifício em construção. O que tem dentro das escolas públicas é bastante precário. A desigualdade social é enorme. Temos que resolver esses problemas públicos, que agora apareceram de forma drástica”.

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Antes de retomar as aulas presenciais, a professora diz ser necessário levar em consideração uma questão importantíssima: o direito à vida – a primeira norma dos direitos humanos. “É impossível para a rede municipal garantir as condições necessárias de afastamento e higiene para que os alunos voltem. As salas são pequenas para uma grande quantidade de estudantes. Enquanto não tiver uma proteção, uma vacina, as crianças não terão como voltar com segurança. É melhor que os estudantes estejam saudáveis para continuar o processo de formação. A volta à escola tem que ser muito responsável”, ressalta.

Dessa forma, Alda acredita que o próximo ano letivo será ainda mais desafiador. “Tivemos que usar a criatividade para nos adaptar. A retomada será ressignificada, vamos voltar de um jeito mais integral, com ideias que modifiquem a relação ensino-aprendizagem”, acredita. Apesar de todas as dificuldades, a professora não classifica 2020 como um ano perdido. “É um ano de novas aprendizagens, que talvez nem estivessem na escola, mas passaram a estar. Toda essa formação pode trazer um ganho muito grande para o próximo ano letivo. Essa é uma oportunidade de aprendermos a valorizar o que importa para fazer diferente no futuro”, finaliza.

Aprovação dos alunos ainda está indefinida em Sorocaba

Pandemia pode prejudicar processo de aprendizagem e agravar desigualdades
As atividades presenciais da rede municipal de educação serão retomadas apenas em 2021. Crédito da foto: Arquivo / Agência Brasil

A menos de dois meses para o fim de 2020, a Prefeitura de Sorocaba ainda não definiu como será a aprovação dos estudantes das escolas municipais, que desde março estão longe das salas de aulas. Até o momento, a Secretaria de Educação (Sedu) não tem informações se os alunos avançarão ou permanecerão na mesma série no próximo ano letivo ou ainda se neste ano haverá reprova. De acordo com a pasta, o sistema de aprovação dos alunos está sendo estudado em conjunto com o Conselho Municipal de Educação, que deverá deliberar uma ação prevista até a segunda quinzena deste mês.

As atividades presenciais da rede municipal de educação serão retomadas apenas em 2021. De acordo com a Sedu, a decisão foi tomada após a realização de uma pesquisa de interesse feita pela pasta com pais ou responsáveis de estudantes da rede municipal. “O resultado apontou que 84,8% das pessoas consultadas optaram para que os estudantes não retornassem às aulas presenciais”, destacou a pasta em nota. Até o momento, todos os 60.550 estudantes das 174 unidades escolares da rede municipal de ensino de Sorocaba têm realizado Atividades Não Presenciais (ANPs).

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Para todos

Segundo a Sedu, essas atividades estão sendo disponibilizadas desde o dia 1º de julho para os alunos de todas as séries, desde a Educação Infantil (creche e pré-escola, de 0 a 5 anos) até o Ensino Fundamental 1 e 2 (1º a 9° ano, dos 6 aos 14 anos). Durante esse período, cada escola faz contato com o aluno e familiar informando a organização pedagógica da unidade e da sua turma. Conforme uma pesquisa realizada pela pasta junto às equipes escolares, a secretaria estima 70% de adesão dos alunos em atividades digitais e 30% com uso de atividades exclusivamente impressas ou casos específicos de crianças que não contam com acesso às atividades.

Com esse novo formato de aprendizado, aponta a Sedu, os professores e coordenadores passaram a avaliar o aprendizado das crianças por meio do monitoramento das atividades e diálogo contínuo com os estudantes e com os pais. “Os professores estão adotando diversas estratégias para adequar os estudantes a esta fase. Em virtude da situação pandêmica, os profissionais estão monitorando constantemente o aprendizado das crianças”, ressalta a nota. Segundo a pasta, todas essas atividades serão utilizadas para compor a carga horária letiva de 2020. Além disso, a secretaria informou que a equipe pedagógica está estudando medidas para equiparar os conteúdos no decorrer dos próximos anos letivos.

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Pandemia de Covid acentua as diferenças na educação

Pandemia pode prejudicar processo de aprendizagem e agravar desigualdades
Crianças de famílias de baixa renda não têm computador ou celular. Crédito da foto: Arquivo / Agência Brasil

Longe da escola, não são todas as crianças que conseguem realizar as Atividades Não Presenciais (ANPs) de forma on-line e dar continuidade ao processo de aprendizagem. É o caso dos filhos do auxiliar de construção Arlindo Rogério da Cruz, de 43 anos. O filho mais velho, de 12 anos, está matriculado na rede estadual, e a filha mais nova, de 10 anos, frequenta a escola municipal “Profª Ana Cecília Falcato Prado Fontes”, no Conjunto Habitacional Ana Paula Eleutério (Habiteto). “Tá difícil para as minhas crianças. Elas não estão conseguindo estudar e fazer as atividades, porque não temos computador e celular”.

Desempregado há dois anos, Arlindo diz que não tem condições de comprar um computador e nem pagar internet para os filhos. “Somos uma família mais carente”, ressalta. Atualmente, os filhos de Arlindo estão fazendo atividades disponibilizadas pela Pastoral do Menor. “Eles estão estudando como podem. A escola presencial já era difícil, agora com a pandemia piorou tudo”, destaca ao acrescentar que as crianças aprendem mais na sala de aula, com o professor.

Para Arlindo, toda essa situação está prejudicando o aprendizado dos filhos. “Eles ficam sem fazer. Há uma desigualdade grande no aprendizado. Quando voltar as aulas, é perigoso eles não quererem voltar para a escola”, ressalta ao dizer que as instituições de ensino poderiam ajudar as famílias de baixa renda. “Agora ninguém sabe quando a escola vai abrir. Temos que esperar para ver como vai ficar daqui pra frente”. (Jéssica Nascimento)

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