Sorocaba e Região

O que é ser mulher hoje? A palavra está com elas!

A reportagem convidou mulheres das mais variadas idades, profissões, classes sociais e estado civil, para uma reflexão
O que é ser mulher hoje?
Independência, coragem, sensibilidade, conquistas. Esses são alguns dos significados de ser mulher. Crédito da foto: PIxabay

Para umas é ser independente, para outras protetora, tem ainda as que valorizam a coragem, a sensibilidade, e as que destacam as conquistas. No meio desse caminho, há o enfrentamento do preconceito, a luta pelo fim da violência, a vontade de viver numa sociedade diferente.

Neste Dia Internacional da Mulher, elas falam um pouco sobre seu lugar no mundo. A reportagem convidou mulheres das mais variadas idades, profissões, classes sociais, estado civil e etnias, para uma reflexão sobre o que é ser mulher nos dias de hoje, elencando os pontos positivos e negativos.

Cada uma com sua particularidade, falou um pouco sobre sua visão de mundo, mas todas, sem exceção, ressaltaram que apesar dos desafios que passam em seu cotidiano, ter nascido mulher é motivo de grande alegria. (Daniela Jacinto)

A seguir, o que elas disseram:

Simbolizar luta e vigor

O que é ser mulher hoje?
Crédito da foto: Acervo Pessoal

Rosangela Batalha Braga, Putyra (povo Ómagua kambeba), 31 anos, auxiliar de finanças –

“Ser mulher no contexto atual é ter a liberdade de escolha, seu espaço e direito à voz, sem que sofra algum tipo de retaliação ou diminuição. Ser mulher é ser resistência, força e coragem. Poderia elencar diversos adjetivos ou pontos positivos de uma mulher, mas existe um que representa muito bem o gênero: batalhadora. Já na especificidade da mulher indígena, é um símbolo emblemático de luta e vigor. É aquela que luta pelo seu propósito, pelo seu povo, até a última gota de sangue. Ser uma mulher indígena é ser (re) existência, é ser um fator chave para manutenção e perpetuação de um povo, uma cultura, uma história.”

Ter independência

O que é ser mulher hoje?
Crédito da foto: Fábio Rogério / Arquivo JCS (2/3/2020)

Tereza das Graças Pereira, 62 anos, auxiliar de serviços gerais –

“Sou grata por ter nascido mulher. Sou uma pessoa independente, trabalho nessa empresa há oito anos, é uma bênção de Deus e não lamentaria de maneira alguma. Sei de mulheres que passam por situações de violência mas nunca passei por nenhum tipo de situação ou preconceito pelo fato de ser mulher.”

Se amar em primeiro lugar

O que é ser mulher hoje?
Crédito da foto: Patricia Jung

Elisa Emiko Matsumura, 63 anos, esteticista –

“Ser mulher em primeiro lugar é se realizar no trabalho. Meu trabalho é tudo na minha vida. Depois, dedicar à família, já que sem o trabalho não chegamos a lugar nenhum. Sou esteticista desde os 13 anos. Fui pioneira em fazer micropigmentação fio a fio em Sorocaba, trabalhei durante 40 anos em um salão famoso da cidade. Como minha profissão se concentra na estética, me dedico a ajudar na autoestima das mulheres, a se realizarem em ficar mais belas. Uma das coisas mais importantes é poder gerar filhos. Sou a mulher mais realizada do mundo, tenho três filhas. Sobre os aspectos negativos, já passei por alguma situação, por exemplo ao tomar ônibus lotado, com homens olhando por estar de saia curta, essas coisinhas, mas sempre enfrentei as situações e fica tudo bem. Eu sei enfrentar muito bem tudo o que acontece na vida. Sou decidida e realizada, não me deixo abater. Sobre ser descendente de japonês, nunca passei por preconceito, por isso, tenho uma energia muito positiva. Eu me amo muito, em primeiro lugar.”

Trabalhar a autovalorização

O que é ser mulher hoje?
Crédito da foto: Acervo Pessoal

Gabriele Clemente dos Anjos, 24 anos, estudante universitária –

“Ser mulher nos dias de hoje é ter consciência de que todo dia é preciso enfrentar uma estrutura social, é andar na rua com apreensão, ser passível de agressão, estupro, feminicídio, ter o nosso comportamento julgado, pois ‘não é assim que uma mulher deveria se portar’, ‘não é o lugar que ela deveria estar’, então, pra mim, é nadar contra uma sociedade que resiste com seu machismo, julgamento, mas que tem dado brechas para uma reflexão e essa mudança social reflete em ações do poder público. Hoje temos mais voz e mais abertura para lutar, não por privilégios e sim por direitos. Para mim, é um tanto difícil elencar pontos positivos e negativos de ser mulher, porque se fosse para dar uma resposta rápida, eu diria que os pontos negativos predominam. Nossa sociedade sempre diz que não é bom ser mulher, mas estamos precisando reforçar o quanto é bom ser quem você é, respeitar sua natureza particular, e entender que não é você que tem que se culpar ou mudar e sim aquelas pessoas que julgam a identidade de cada um. Outra coisa, entender o que é ser uma mulher negra num mundo machista e racista fica claro desde a infância. Por muito tempo, eu tive uma infância e adolescência que preferia não lembrar, mas hoje eu percebo que eu uso isso como motor de autovalorização, que precisa ser reafirmado todos os dias. Mulheres negras têm o corpo hiper-sexualizado, são preteridas em relacionamentos. Eu mesma sofri muito por não ser assumida e relacionar de forma escondida. Essa forma como as mulheres negras são tratadas tem reflexo na autoestima, é nessa autoestima que eu trabalho, muito. Os fatores machismo e racismo juntos, resultam numa clara disparidade no mercado de trabalho, então mulheres negras, trans, gordas, lésbicas, cada mulher luta contra outros preconceitos, então é preciso resistência e lutar para existir a representatividade nos espaços e ser feliz sendo quem você é.”

Conquistar reconhecimento profissional

O que é ser mulher hoje?
Crédito da foto: Fábio Rogério / Arquivo JCS (5/3/2020)

Christiane Jordão, 50 anos, empresária –

“Ser mulher é maravilhoso, acredito que melhoramos muito, hoje estamos sendo reconhecidas, é isso nos dá energia para querer melhorar cada vez mais, na área que atuamos. Eu, por exemplo, comecei minha vida profissional trabalhando na recepção de uma grande imobiliária de Sorocaba. Mais tarde, passei a atuar com locação, depois fiz curso de corretora de imóveis e fui para a área de vendas. Um tempo depois, me tornei gerente e veio então a oportunidade de ter minha própria imobiliária, a CJ Assessoria Imobiliária, que se tornou referência no mercado de alto luxo. Hoje sou tecnóloga em negócios imobiliários, pós-graduada em Gestão Estratégica de Negócios, perita judicial, delegada regional do Creci e presidente de alguns projetos sociais. Aproveitei as oportunidades que a vida me deu, trabalhei muito de segunda a segunda. Gratidão, ao saudoso sr. Archimedes de Paula Santos, que foi um excelente mestre, corretor, gestor do mercado imobiliário e acreditou no meu trabalho por muitos anos. Agradeço pelo espaço que conquistei ao longo dos meus 20 anos no mercado imobiliário. Sobre os pontos positivos de ser mulher, destaco a coragem, a criatividade. A força positiva da mulher está na energia e vitalidade, e no mental, pois consegue fazer várias funções ao mesmo tempo. Para o futuro, espero que as mulheres tenham mais paciência e discernimento, vivemos em uma sociedade invadida pelo estresse e correria, o que nos faz ser muito impacientes com situações, coisas e pessoas. Ofereço às mulheres um coquetel de resiliência, curiosidade, coragem, criatividade, autocontrole, humildade, lealdade e inteligência emocional. Estamos no século 21, precisamos aceitar as diferenças, respeitar o próximo e amar nossos irmãos como se não houvesse amanhã. Parabéns a todas as mulheres desse Brasil.”

Se sentir vencedora

O que é ser mulher hoje?
Crédito da foto: Acervo Pessoal

Vivian Machado, 41 anos, funcionária pública –

“A gente precisa sempre marcar esses territórios conforme as datas, insistir na temática, porque ainda vivemos numa sociedade totalmente patriarcal. Por exemplo, uma mulher ocupando cargo de chefia ainda enfrenta celeumas e resistências de homens, mas temos algumas coisas a comemorar, em específico a mulher trans, como a retificação do registro civil. Esse é um reconhecimento da lei muito importante. Faz dois anos que estou com todos os documentos em ordem, certidão de nascimento, RG, passaporte… A trans é a que mais enfrenta o machismo porque sempre lhe é relegada essa identidade, ela é sempre identificada como um ser abjeto, que é um ninguém na sociedade. Por outro lado, temos de lembrar de lutas passadas, era muito pior ainda a inserção na sociedade. Éramos pessoas totalmente invisíveis, então houve certas conquistas, mas a trans ainda enfrenta muito preconceito. Também a mulher cisgênero desde criança passa por situações, como o pai tratar diferente do irmão, depois o namorado que manda na sua roupa. No caso da trans, ela passa tudo isso dobrado. Eu já me sentia mulher, mas conforme fui crescendo, foram cerceados meus gostos, meu jeito, com violência, xingamento. Porém, na nossa sociedade, uma trans feminina consegue um pouco mais de respeito, como sempre ocorre quando a mulher é bonita, jovem, magra. A trans passa também muito por isso. Se for bonita, consegue uma inserção social, um trabalho, mas a mulher que está fora do padrão não é respeitada, não é boa para casar, para ter um emprego. O ponto positivo de ser mulher é que por ter de enfrentar uma sociedade patriarcal e machista, acaba se sentindo vencedora, e o fato de ser trans e não estar na norma, é melhor do que levar uma vida de mentira. Cada pessoa tem a sua peculiaridade e paga o preço de ser o que é.”

Valorizar a sensibilidade

O que é ser mulher hoje?
Crédito da foto: Fábio Rogério / Arquivo JCS (4/3/2020)

Silmara de Camargo Pinto, 44 anos, coveira –

“Hoje em dia nós mulheres fazemos tanto quanto os homens, e até mais, porque trabalhamos fora, chegamos em casa e pegamos pesado lá também. Somos dinâmicas, somos mãe, esposa, dona de casa, temos nosso trabalho… Eu sou coveira. Uma profissão que até algum tempo era dominada apenas pelos homens. Gosto muito do que faço. Sou concursada e estou nessa área há sete anos. Em Sorocaba, ao todo há três coveiras no cemitério Consolação e duas no Santo Antonio, mas três meninas quando passaram no concurso de agente cemiterial não sabiam que a função era essa, foi complicado pra elas. Na verdade, mesmo sabendo do que se trata não é fácil, mas temos um excelente colega de trabalho que ensinou pra gente o serviço. Eu não sabia fazer massa, assentar tijolo, nada. Achávamos que a pior parte seria fazer a exumação dos corpos, mas não é, é se deparar com as pessoas chorando… É complicado dominar a emoção. Cheguei a pensar quando é que iria parar de chorar junto, mas aprendi com o tempo que tenho de fazer o meu trabalho o melhor possível, para abreviar o sofrimento da família. Apesar de ter esse lado triste, eu gosto do que faço, não reclamo não. Sou divorciada, tenho um filho de 23 anos e acredito que a mulher ainda nos dias de hoje passa por bastante preconceito, mas eu gosto da sensibilidade que a gente tem, inclusive aqui no cemitério temos mais tato com as pessoas, a mulher tem uma compreensão maior pelo perfil mesmo, de ser mais acolhedora.”

Continuar rompendo limites

O que é ser mulher hoje?
Crédito da foto: Erick Pinheiro / Arquivo JCS (17/6/2019)

Maria Helena Senger, 63 anos, médica endocrinologista, professora titular da Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde da PUC em Sorocaba e coordenadora do curso de Medicina –

“Será que ser mulher hoje é diferente das que nos antecederam? Continuamos todas rompendo limites. Tenho uma grande reverência pelas mulheres de ontem. E penso que esta busca contínua pelos espaços, conquistas e conhecimento não é privilégio feminino. É privilégio do ser humano. E se achamos que podemos melhorar em algo, o faremos se formos melhores seres humanos. Sobre os pontos positivos de ser mulher, correndo o risco de ser superficial, a mulher tenta fazer as coisas de uma forma diferente, mais sensível e detalhista, o que não significa que é melhor do que os homens possam fazer. Entender essa complementaridade é vital. Já sobre os negativos, a mulher sofre mais, reclama mais, chora mais, ri mais, é sempre exponencial. Mas será que isso é negativo? Já passei por várias dificuldades na profissão por ser mulher, mas não acreditei em nenhuma delas. Nenhuma me impediu de fazer o que queria ou precisava. Não acho que tive mais sorte, tive mais persistência. E também não tive privilégios. E não usei o fato de ser mulher para avançar sinais. Não tolero mimimi! O que espero para as mulheres do futuro é o mesmo que para todos os seres humanos: mais tolerância, mais educação, mais respeito.”

Levar a vida pra frente

O que é ser mulher hoje?
Crédito da foto: Acervo Pessoal

Isolina das Dores Campos, 89 anos, dona de casa –

“Eu gosto de ser mulher. A mulher hoje em dia enfrenta muita dificuldade porque tem de tomar conta dos filhos, trabalhar, fazer serviço de casa… Eu tive três filhas e como trabalhava de diarista, quando eram pequenas eu levava comigo. Criei elas sozinha, meu marido saiu de casa quando a mais nova tinha dois meses. Fiquei casada durante 15 anos. Minha vida sempre foi do trabalho pra casa. Eu não quis casar mais, a primeira vez que a gente se dá mal, depois fica com medo. Fiz de tudo para ser uma boa esposa e companheira e de nada valeu. Mas nada é difícil quando a gente se apega com Deus. A dificuldade a gente vai resolvendo, é só ter fé. O lado positivo de ser mulher é poder criar os filhos bem criados, ensinar e trabalhar. Trabalhei como diarista em casa de família até há uns três meses. Sobre o lado negativo, não sei dizer. Nunca passei por preconceito, eu sempre levei as coisas para o lado positivo, não fico valorizando os problemas. Levo a vida pra frente.”

Realizar-se naquilo que faz

O que é ser mulher hoje?
Crédito da foto: Fábio Rogério / Arquivo JCS (4/3/2020)

Camila Grusca, 40 anos, motorista de ônibus –

“Nós, mulheres, somos fortes. Somos mãe, esposa, pilotamos fogão, máquina de lavar, trabalhamos fora e conseguimos lidar com tudo isso. Eu trabalho como motorista há um ano, era meu sonho e realizei. Estou na empresa há 10 anos, sempre quis ser motorista e a empresa abriu a oportunidade. Gosto muito do que faço. Entrei como agente de bordo e fui promovida várias vezes até chegar a motorista. Sobre preconceito com relação à profissão, eu percebo isso em mulheres que evitam tomar ônibus comigo. Com os homens não acontece. Nem os passageiros e nem os colegas, aliás, fui bem acolhida pelos homens companheiros de trabalho, eles me apoiam muito. Sou realizada no que faço e agradeço primeiramente a Deus e também ao meu esposo que me apoia e sempre apoiou. Um ponto negativo de ser mulher é que ao mesmo tempo que tem todo esse dinamismo, também acumula muitas funções dentro e fora de casa. Mesmo assim eu gosto e sinto gratidão pelo que faço.”

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