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Entrevista

Economista defende equilíbrio fiscal e mais investimentos para impulsionar o Brasil

Geraldo Almeida avalia que a reação do mercado após as eleições reflete ajustes nas expectativas, mas alerta para a necessidade de controlar despesas e ampliar recursos destinados à infraestrutura, à pesquisa e à modernização industrial

27 de Outubro de 2026 às 20:56
João Frizo [email protected]
Especialista também alerta para a necessidade de controlar despesas e ampliar recursos destinados à infraestrutura, à pesquisa e à modernização industrial
Especialista também alerta para a necessidade de controlar despesas e ampliar recursos destinados à infraestrutura, à pesquisa e à modernização industrial (Crédito: Reinaldo Santos)

A forte oscilação do mercado financeiro após o resultado das eleições reacendeu as discussões sobre os rumos da economia brasileira. Para o economista e professor Geraldo Almeida, colunista do Jornal Cruzeiro do Sul, o movimento reflete a revisão das estratégias adotadas por investidores, mas não deve ser interpretado como sinal de uma crise econômica. Em entrevista ao Jornal da Cruzeiro, nesta terça-feira (27), ele destaca que o país precisa conciliar o equilíbrio das contas públicas com investimentos capazes de sustentar o crescimento nos próximos anos.

Na segunda-feira (26), a Bolsa brasileira recuou 13,88%, enquanto o dólar subiu 8,21%. A queda levou ao acionamento do 'circuit breaker', mecanismo que interrompe, por tempo, as negociações em momentos de forte oscilação. Segundo Almeida, parte dos investidores havia montado posições considerando um resultado eleitoral diferente. Com a definição das urnas, essas carteiras precisaram ser reorganizadas, provocando mudanças nos preços dos ativos.

O professor ressalta que as oscilações refletem as expectativas dos agentes financeiros e que diferentes setores podem reagir de maneiras distintas. Empresas ligadas à exportação, por exemplo, podem se beneficiar de uma moeda americana mais valorizada, enquanto segmentos bancários e de consumo podem enfrentar movimentos contrários. Por isso, ele recomenda cautela diante das variações diárias e rejeita uma interpretação baseada no pânico.

Efeito no bolso

Embora as movimentações da Bolsa tenham repercussão sobre os investimentos, a valorização do dólar pode chegar mais diretamente ao cotidiano da população. Produtos importados, combustíveis e alimentos estão entre os itens sujeitos a pressões de preço, com possíveis reflexos também sobre o transporte e os custos de produção.

Almeida explicou que o Brasil também pode ampliar suas receitas com as exportações quando a moeda americana sobe. Entretanto, essa vantagem não se distribui entre os setores e os consumidores. Dependendo do produto, a preferência pelo mercado externo pode reduzir a oferta interna e pressionar os valores cobrados no país.

Contas públicas

Outro ponto abordado foi a dívida pública brasileira, que, segundo os números apresentados pelo economista na entrevista, se aproxima de R$ 11 trilhões, o equivalente a cerca de 83% do Produto Interno Bruto (PIB). Ele pondera que a maior parte da dívida é denominada em reais e tem vencimentos distribuídos ao longo do tempo, mas destaca a importância de acompanhar sua evolução.

Para o professor, o desafio está em compatibilizar as receitas e as despesas do governo, garantindo recursos para cumprir compromissos, manter programas sociais e financiar melhorias na estrutura do país. Na avaliação dele, o planejamento orçamentário precisa considerar não apenas os gastos imediatos, mas também a capacidade de reservar dinheiro para projetos que contribuam para a atividade produtiva.

O controle fiscal, nesse sentido, não deve ser tratado apenas como uma forma de reduzir despesas. Almeida aponta o baixo nível de investimentos como um dos entraves ao desenvolvimento brasileiro. Segundo sua análise, a formação bruta de capital fixo — indicador que mede, entre outros fatores, os recursos destinados a máquinas, equipamentos e construções — está em torno de 14% a 15%, enquanto o patamar que considera ideal seria de 25%.

Modernização industrial

O economista defende a ampliação dos investimentos em infraestrutura, pesquisa e desenvolvimento, além da modernização do parque industrial. Para ele, o Brasil precisa aproveitar oportunidades relacionadas à inteligência artificial, aos centros de processamento de dados e à energia verde, áreas que podem abrir espaço para novos negócios.

Almeida também chama a atenção para a necessidade de atualizar máquinas e equipamentos da indústria nacional. Na avaliação dele, o avanço tecnológico é importante tanto para elevar a competitividade das empresas quanto para gerar empregos de melhor qualidade. O professor ainda cita os efeitos das tarifas comerciais impostas pelos Estados Unidos sobre determinados produtos brasileiros e destaca a busca por novos mercados como uma das alternativas para reduzir a dependência de compradores específicos.

Próximos passos

Ao analisar os desafios dos próximos meses, Almeida aponta a definição da equipe econômica como um dos fatores que devem influenciar as expectativas dos investidores. Ele também ressalta a importância de o governo construir acordos com o Congresso Nacional para viabilizar medidas econômicas e orçamentárias.

Para o professor, a condução da política econômica exige capacidade de diálogo tanto com o setor privado quanto com os representantes políticos. A previsibilidade das decisões e a sinalização de responsabilidade com as contas públicas, segundo ele, são importantes para criar condições favoráveis aos investimentos.

Apesar das incertezas, Almeida recomenda evitar o pessimismo generalizado. Ele lembrou que a atividade econômica depende da circulação de recursos, do consumo e da produção. Por isso, defende que o debate sobre os rumos do país seja acompanhado de medidas concretas para estimular investimentos e ampliar as oportunidades de crescimento.